Promover ajustes para arredondar a economia é sempre um processo doloroso. É o que o Brasil deve experimentar no ano que vem, não importa o vencedor das eleições de outubro. Neste processo, é de se esperar que haverá uma queda na popularidade do presidente da República. Tome-se o exemplo do presidente da Argentina, Javier Millei. Ele é reprovado por cerca de 60% da população de seu país, depois de um forte ajuste econômico.
A virulência do freio de arrumação argentino é justificada por anos de desarrumação provocada por uma sucessão de governos peronistas ou de mandatários de direita que não resistiram às pressões populares. A renda média dos trabalhadores urbanos caiu cerca de 20%. A classe média do país, antes numerosa, sofre os efeitos da perda de poder aquisitivo e, por isso, critica o governo.
Talvez o empobrecimento dos argentinos seja o preço a pagar por décadas de gasto público descontrolado e falta de controle fiscal. A conta chegou e o preço a pagar é alto. Interromper esse processo, agora, é condenar a nação a uma eternidade de desgoverno econômico que nada tem a ver com a prosperidade argentina que se via no início do século 20.
O que ocorre hoje com Millei é um comportamento que se repetiu em vários países e em diferentes momentos históricos. No Brasil, por exemplo, os empresários pressionaram em 1964 as Forças Armadas para que o presidente da República fosse o marechal Humberto Castello Branco, pois viam o general Arthur da Costa e Silva como muito radical. Castello assumiu e botou a dupla de economistas Roberto Campos/Octávio Gouvêa de Bulhões para ajustar a economia, abalada pela condução do governo anterior, de João Goulart.
Ocorre que os efeitos desta correção afetaram fortemente a atividade econômica e o Brasil teve de passar por uma recessão. Resultado: os mesmos empresários que não queriam Costa e Silva (naquele momento, era quem liderava a maioria dos generais) foram procurá-lo e pediram que ele assumisse o governo. Negociações de bastidores foram feitas e o presidente foi trocado em 1967. Com o novo governo, Delfim Netto assumiu a pasta da Fazenda e deu início a medidas que inflariam a economia e levariam o Brasil a uma explosão de atividade no início da década seguinte.
Em 2017, MONEY REPORT reuniu empresários para debater com o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn. Durante a exposição do comandante do BC, comecei a receber as perguntas da plateia – todas de teor muito agressivo, pois a economia passava por um enxugamento de liquidez, após déficits públicos crescentes na gestão de Dilma Rousseff. Antes de abrir o segmento de perguntas, disse aos empresários presentes: “Os senhores apoiaram uma condução ortodoxa para a economia porque viram o problema gerado pela irresponsabilidade fiscal do governo Dilma. O que o Banco Central está fazendo é justamente isso. Portanto, esse tom agressivo das perguntas está fora de contexto. O BC está arrumando a casa e precisamos ter paciência”. Depois disso, a audiência se acalmou e o debate foi muito mais civilizado do que poderia ter sido.
A reação daquela plateia refletia um padrão recorrente: quando o ajuste começa a produzir efeitos concretos, a impaciência toma o lugar do apoio inicial, mesmo entre aqueles que defenderam a necessidade das medidas. O desconforto surge porque os efeitos negativos da correção costumam ser mais rápidos e visíveis do que os benefícios que só aparecem depois. Isso cria um ambiente em que a pressão por resultados imediatos se sobrepõe à compreensão de que a economia precisa de tempo para responder. Javier Millei sente isso na pele hoje. E o próximo presidente brasileiro também deve vivenciar o mesmo fenômeno.
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