
Operação policial mira núcleo político do PCC
O ex-vereador de Santo André Thiago Rocha de Paula (PSD) é apontado como o articulador político do esquema do Primeiro Comando da Capital (PCC) para se infiltrar em prefeituras da Grande São Paulo, do litoral e também no governo estadual, segundo investigações.
O político e outros cinco investigados foram presos temporariamente nesta segunda-feira (27) durante operação da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Mogi das Cruzes.
Também foram cumpridos 22 mandados de busca e apreensão, nas cidades de São Paulo, Guarulhos, Santo André, Mairinque, Campinas, Ribeirão Preto, Santos, Goiânia, Aparecida de Goiânia, Brasília e Londrina. Além disso, a Justiça determinou o bloqueio de bens e ativos no valor de R$ 513,6 milhões.
🔎 Segundo a investigação, o PCC apoiaria e, em alguns casos, financiaria campanhas de candidatos que poderiam atuar em favor dos interesses da organização dentro da administração pública. As apurações também indicam a atuação de pessoas no âmbito político municipal e estadual.
O g1 tenta localizar a defesa de Thiago.
Thiago Rocha, ex-vereador de Santo André, é apontado como articulador político de esquema do PCC para infiltrar prefeituras.
Reprodução/Redes sociais
Articulação política e acesso ao poder público
De acordo com a decisão judicial que autorizou as prisões, Thiago Rocha de Paula era considerado uma peça estratégica no esquema por atuar na conexão entre o grupo criminoso e administrações públicas.
O ex-vereador não participava diretamente do tráfico de drogas nem da movimentação financeira principal, mas era responsável por abrir portas em prefeituras, estabelecer contatos políticos e viabilizar a entrada de interesses do grupo no poder público.
Thiago foi eleito suplemente nas eleições municipais de 2020 e ocupou o cargo de vereador por mês de um mês em maio de 2022 no lugar de Vavá da Churrascaria. Neste período, ele marcou presença apenas duas vezes no plenário da Câmara.
Ainda conforme a decisão, enquanto exercia o mandato de vereador, ele dedicava grande parte do tempo a manter “contatos espúrios” com interlocutores políticos de diferentes cidades “em prol dos interesses” da fintech 4T Bank.
Criada por integrantes do PCC, o objetivo do esquema era inserir a fintech nessas cidades para lavar dinheiro por meio da gestão de receitas municipais, como taxas e impostos, incluindo emissão de boletos e relacionamento bancário com contribuintes.
Atuação em diferentes cidades
As investigações indicam que a atuação Thiago não se restringia a Santo André e que ele buscava expandir a influência do grupo em diversos municípios.
Santo André (ABC Paulista)
Na cidade onde teve ligação política, ele mantinha proximidade com secretarias municipais. Há registros de reuniões com integrantes da administração e discussões sobre medidas que poderiam permitir a atuação da fintech em serviços municipais, como emissão de boletos e relacionamento com contribuintes.
Santos (litoral paulista)
Em conversas analisadas pela polícia, Thiago aparece em articulação com um advogado e candidato a vereador. Em uma das mensagens, afirma que a cidade estava “no mapa eleitoral”, indicando tentativa de ampliar a base política do grupo.
Campinas (interior de São Paulo)
Na cidade, ele teria atuado junto a um assessor ligado ao gabinete do prefeito. Segundo a investigação, apresentou projetos da fintech, buscou aproximação com partido político e planejava o envio de propostas legislativas, além de articulação de alianças.
Ribeirão Preto (interior de SP)
Também mantinha contato com um vereador local. As tratativas incluíam a apresentação do modelo de negócios da fintech e discussões sobre serviços municipais, como emissão de boletos e mudanças em sistemas fiscais.
Governo estadual
A decisão também aponta que Thiago buscava ampliar o alcance da atuação para além das prefeituras.
Ele mantinha contato com um servidor ligado à Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, descrito como “nosso contato no governo”. Entre os planos mencionados estavam a articulação de projetos, como iniciativas de internet rural, agendas com a secretaria e participação em eventos institucionais.
Thiago Rocha, ex-vereador de Santo André, foi preso durante operação da Polícia Civil contra o PCC.
Reprodução/Redes sociais
Quem era Thiago
Natural de São Paulo, ele foi eleito 3º suplente de vereador em 2020 com 1.564 votos por Santo André. Em suas redes sociais, ele se apresenta como historiador, cientista político, piloto de kart amador e criador da Escola de Governo de Santo André.
Segundo a biografia na Câmara, ele é formado em História pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com 14 anos de experiência na Educação, Pós-Graduado em Ciência Política, cursou Ética e Valores em Governo na Universidade de Oxford.
Operação Contaminatio
Apreensões da chamada Operação Contaminatio, que apura infiltração do PCC na política em vários municípios de SP.
Reprodução/TV Globo
A Operação Contaminatio é um desdobramento da chamada ‘Operação Decurio’, realizada em agosto de 2024 e que bloqueou R$ 8 bilhões de contas de pessoas e empresas suspeitas de ligação com a facção criminosa PCC.
Na apuração inicial, policiais encontraram material que apontava a exploração do tráfico de drogas pelo PCC, além de um esquema estruturado para lavagem de dinheiro obtido com atividades criminosas.
Segundo a polícia, também foi identificado um projeto de infiltração de integrantes da organização criminosa nas eleições municipais de 2024, com o lançamento de candidatos aos cargos em disputa.
As investigações apontam ainda o envolvimento de ao menos uma servidora municipal com um integrante do alto escalão do grupo.
Com a análise de dados de dispositivos eletrônicos apreendidos na primeira fase e de informações de inteligência financeira, os investigadores afirmam ter comprovado uma articulação entre os alvos para criar um “núcleo político” para favorecer o PCC.
O objetivo seria explorar recursos públicos em benefício da organização criminosa, além da prática de crimes contra a administração pública.
A investigação aponta a intenção de inserir nessas localidades uma fintech criada por integrantes do PCC para lavar dinheiro por meio da gestão de receitas municipais, como taxas e impostos, incluindo emissão de boletos e relacionamento bancário com contribuintes.
De acordo com a polícia, o PCC apoiaria e, em alguns casos, financiaria campanhas de candidatos que poderiam atuar em favor dos interesses da organização dentro da administração pública. As apurações também indicam a atuação de pessoas no âmbito político municipal e estadual.
Até o momento, segundo a Dise, nenhum dos alvos possui foro por prerrogativa de função nem ocupa mandato eletivo.
Durante a investigação, também surgiram informações sobre infiltração da organização criminosa em algumas prefeituras.
Os policiais identificaram ainda que um dos alvos, apontado como integrante do PCC, teve autorização para pousar um helicóptero no heliponto do Palácio dos Bandeirantes, em 10 de março de 2021, para assistir a um jogo no estádio do Morumbi. A informação foi obtida a partir da extração de dados de celulares apreendidos.
