Universidade pede desculpas por compra de corpos em Minas Gerais

Imagem de arquivo mostra pacientes do Hospital Colônia de BarbacenaLuiz Alfredo

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) formalizou, no início de abril, um pedido público de desculpas pelo uso de corpos de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena, no interior de Minas Gerais, em atividades acadêmicas, entre 1969 e 1981.

O reconhecimento do erro simboliza uma reparação histórica de uma das maiores violações de Direitos Humanos do país e pode pressionar outras instituições envolvidas a se posicionarem.

Outra universidade federal em Minas, a de Juiz de Fora, analisa fazer o mesmo pedido. E mais duas analisam o caso (veja detalhes mais abaixo).

O que aconteceu com os cadáveres 

As desculpas dizem respeito à comercialização de cadáveres de internos do antigo hospital psiquiátrico de Barbacena para instituições de ensino médico, sem autorizações dos familiares. 

Investigações feitas pela jornalista Daniela Arbex, autora do livro “Holocausto Brasileiro”, apontam que, entre 1969 e 1981, 1.853 corpos foram vendidos para 17 instituições brasileiras (confira a lista completa ainda nesta reportagem).

Segundo a jornalista, o gesto rompe um silêncio de décadas e pode incentivar outras instituições a se posicionarem. 

“Se a maior universidade pública de Minas teve essa coragem, é esperado que outras também avancem nesse processo. (…) A gente só transforma aquilo que reconhece. Quando uma instituição assume seu papel, ela abre caminho para mudanças reais”.

Entre as instituições citadas, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) já sinalizou que pode seguir o mesmo caminho.

Em nota ao iG, a instituição afirmou reconhecer a gravidade das práticas ocorridas no século passado e informou que realiza uma consulta interna para apurar os casos. Também declarou que, “em data oportuna, vai se retratar publicamente perante a sociedade brasileira”.

Entre as instituições que receberam os corpos estão universidades federais e faculdades de diferentes estados, segundo levantamento feito por Daniela Arbex, na Fundação Hospitalar de Minas.

Confira abaixo a lista completa com nomes de 14 instituições, sendo que algumas possuem mais de uma unidade e, por isso, considera-se o número total de 17 faculdades. 

  • Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) — 303 corpos
  • Faculdade de Medicina de Valença — 282 corpos
  • Instituto de Ciências Biológicas da UFMG — 239 corpos
  • Fundação Universitária Sul Fluminense (Vassouras) — 180 corpos
  • Faculdade de Medicina de Teresópolis — 141 corpos
  • Faculdade de Medicina de Itajubá — 125 corpos
  • Faculdade de Medicina de Barbacena — 113 corpos
  • Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais — 105 corpos
  • Faculdade de Medicina de Santos — 96 corpos
  • Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) — 67 corpos
  • Faculdade de Medicina de Pouso Alegre — 63 corpos
  • Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (Uberaba) — 50 corpos
  • Faculdade de Medicina de Volta Redonda — 50 corpos
  • Faculdade de Medicina de Petrópolis — 39 corpos
Levantamento da Fundação Hospitalar do Estado de Minas sobre as faculdades de medicina que compraram cadáveres do Hospital Colônia de Barbacena Daniela Arbex

    Faculdade em Petrópolis verifica as acusações 

    O iG procurou o Ministério Público Federal em Minas Gerais e as instituições de ensino citadas no levantamento para comentar o caso e informar possíveis medidas de responsabilização e reparação.

    Em nota, o MPF disse que ainda atua nos casos e conversa com as demais instituições envolvidas para buscar medidas de reparação. Destacou ainda que a escolha da UFMG como ponto de partida se deu por sua posição de referência entre as instituições de ensino no estado. A instituição oferece 91 cursos de graduação e 90 de pós. Tem mais de 34 mil estudantes na graduação, 10 mil em mestrado e doutorado, mais de 3 mil docentes e 4 mil funcionarios.  

    Também em Minas, a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), na cidade de Uberaba,  informou que não possui documentos internos que comprovem a compra dos cadáveres.

    Já as outras instituições não retornaram até a última atualização desta reportagem.

    A Faculdade de Medicina de Petrópolis, no Rio de Janeiro, afirmou que está verificando os fatos relatados. Declarou que repudia “veementemente qualquer prática incompatível com os princípios legais e institucionais” e que tem compromisso com a ética, com o respeito à vida e à dignidade das pessoas.

    ”Holocausto Brasileiro”

    Fundado em 1903, o Hospital Colônia de Barbacena se tornou um dos maiores símbolos de violação de Direitos Humanos no país, em um episódio que ficou conhecido como “Holocausto Brasileiro”, em  referência às mortes de milhões de pessoas na Alemanha nazista de Hitler, no caso mundialmente conhecido como Holocausto. 

    Em Barbacena, cerca de 60 mil pessoas morreram no local, vítimas de abandono, fome, frio, doenças e violência, ao londo de décadas.

    Hospital Colônia de Barbacena, em Minas GeraisLuiz Alfredo / Imagens estão no livro Holocausto Brasileiro

    Segundo Daniela Arbex, a maioria dos internos sequer tinha diagnóstico de doença mental.

    Os pacientes eram submetidos a condições degradantes, como superlotação extrema, falta de higiene, alimentação insuficiente e até práticas como eletrochoques em massa. Muitos eram enviados ao local em vagões de carga, no chamado “trem de doido”, em viagens sem retorno.

    Além do pedido de desculpas

    A UFMG assumiu compromissos, como a criação de espaços de memória, inclusão do tema nas disciplinas e preservação de registros históricos das vítimas.

    Para Arbex, no entanto, a reparação vai além.

    O pedido de desculpas é o começo. É preciso reconhecer a responsabilidade do Estado brasileiro e transformar essa memória em conscientização para que práticas como essas não se repitam. (…) A saúde mental continua em disputa no Brasil. A gente não tem mais os grandes hospícios como antes, mas ainda existem práticas de exclusão e violação. É um tema absolutamente atual. (…) Quando a gente não fala sobre o que aconteceu, é como se nunca tivesse existido. E isso abre espaço para que tudo se repita”, concluiu.

    Confira a entrevista completa com a Daniela Arbex:

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