
Delegado de Rorainópolis é preso suspeito de interferir em caso de casal carbonizado
O delegado de Polícia Civil Rick da Silva e Silva transformou a delegacia de Rorainópolis, no Sul de Roraima, em um esquema estruturado de corrupção, segundo a decisão da Justiça que determinou suspensão dele por 180 dias, nesta quarta-feira (29). Investigações revelaram que ele direcionava detidos a uma advogada específica e dividia os lucros com ela.
Rick está preso desde o dia 14 de abril quando foi alvo da Operação Conluio, que apura o assassinato do casal Edgar Silva Pereira, de 60 anos, e da esposa dele, Rossana de Lima e Silva, de 49, em Roraima. O documento, ao qual o g1 teve acesso, detalha como a unidade policial se tornou um “balcão de negócios”.
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 RR no WhatsApp
Segundo o Ministério Público (MP) de Roraima, o delegado realizava uma triagem dos presos, impedia a assistência gratuita da Defensoria Pública e passava os serviços para a advogada Bereneude Lima Fernandes.
Em troca desse direcionamento de clientes, os dois repartiam o valor dos honorários cobrados. Testemunhas ouvidas durante a investigação confirmaram o esquema e relataram a cobrança de propinas pagas em dinheiro vivo.
O g1 procurou a defesa do delegado e a Polícia Civil, mas não obteve resposta até a última atualização da reportagem. Também tenta localizar a defesa de Bereneude Lima Fernandes.
Em trecho da decisão, o juiz cita que, no caso do duplo assassinado, o delegado é “investigado por sabotar a cena de um duplo homicídio e sonegar provas que o vinculavam como devedor de uma das vítimas.” O casal operava esquema de agiotagem.
Uma análise de dados da polícia apontou que a maioria das prisões em flagrante com atuação dessa advogada foi conduzida apenas por Rick. Para o juiz Raimundo Anastácio Carvalho, a estatística derrubou a tese de coincidência profissional.
O magistrado destacou na decisão judicial que houve um claro “aparelhamento da instituição policial para fins espúrios”. Além do afastamento, a Justiça determinou a apreensão de armas e distintivos, o bloqueio de acessos a sistemas policiais e proibiu contato com testemunhas.
Rick da Silva e Silva também está proibido de entrar em qualquer delegacia do estado ou fazer contato com testemunhas.
Coação de policiais civis
Além de lucrar com as prisões, o Rick da Silva e Silva usava o cargo para intimidar e coagir colegas de trabalho. O delegado chegou a ameaçar outro policial civil de Rorainópolis para manter os crimes em segredo. O texto cita que ele fez a “promessa de fabricar dossiês e ‘grampos telefônicos’ falsos” contra o subordinado.
Rick também aproveitava as próprias senhas de acesso aos sistemas de segurança para “relaxar flagrantes mediante vantagem indevida e ocultar inquéritos”.
O inquérito é conduzido pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO). Os suspeitos podem responder por corrupção passiva, prevaricação, lavagem de dinheiro, fraude processual e coação no curso do processo.
O pedido à Justiça para que Rick fosse afastado por seis meses foi sustentado pelo Ministério Público. Ao proibir o delegado de exercer a função até 28 de outubro de 2026, o juiz disse que Rick a apuração feita até agora indicam a atuação dele “representa ameaça direta à instrução criminal”.
Operação Conluio
Durante a Operação Conluio, em que Rick foi preso, também foram cumpridos outros oito mandados tanto em Rorainópolis, como em Boa Vista. No cumprimento de um mandado de busca e apreensão na casa do delegado, a polícia apreendeu um celular, um notebook e uma pistola institucionais da Polícia Civil, além de um carregador com 17 munições calibre 9mm intactas.
A prisão de Rick Silva e Silva foi acompanhada pela Corregedoria-Geral de Polícia Civil (Corregepol). O órgão informou que abriu um procedimento administrativo para apurar a conduta do delegado. A polícia não divulgou detalhes sobre como ele ou outros suspeitos participaram do crime.
O envolvimento de servidores públicos e de outras pessoas na morte do casal de empresários é o principal alvo da Operação Conluio.
A ação foi deflagrada pela Delegacia Geral de Homicídios (DGH), juntamente com o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), do Ministério Público de Roraima, com apoio do Departamento de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública (Sesp) de Roraima.
Ao todo, desde o início das apurações do duplo homicídio, a Justiça já expediu 25 mandados de busca e apreensão sobre o caso.
Delegado Rick Silva e Silva, titular de delegacia de Rorainópolis, no Sul de Roraima, foi preso nesta terça (14).
Reprodução/Redes sociais
Morte de casal
A investigação sobre a morte do casal começou após o desaparecimento, em dezembro de 2025. No dia seguinte, os corpos foram encontrados em uma caminhonete totalmente queimada na vicinal 31.
Na época, familiares informaram à polícia que o casal saiu para resolver um assunto rápido, deixou os filhos em casa e não voltou mais. As primeiras ações foram feitas pela Delegacia de Rorainópolis.
Devido à gravidade e à complexidade do caso, a partir de 24 de dezembro de 2025, a investigação passou a ser conduzida, pela DGH, responsável pela ação desta terça-feira.
Operação anterior
Em janeiro de 2026, a PC informou que fazia diligências para identificar responsáveis e esclarecer as circunstâncias do crime. Em março, uma operação cumpriu 17 mandados de busca e apreensão em endereços ligados a um advogado e outras seis pessoas por suspeita de envolvimento na morte do casal.
Um trecho da ordem judicial do juíz Raimundo Anastácio Carvalho Dutra Filho, da Vara Criminal de Rorainópolis, que determinou a operação de março, citava que as as vítimas e os alvos da PC possuíam “relações conflituosas”. Segundo a investigação, o casal operava um esquema de agiotagem.
Leia outras notícias do estado no g1 Roraima.
