Com Alcolumbre, Lula tem um Eduardo Cunha para chamar de seu

O presidente Lula (PT) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União)Foto: José Cruz/Agência Brasil

Em 17 de julho de 2015, o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, chamou uma coletiva de imprensa para fazer um anúncio no Salão Verde da Casa.

Três dias antes, ele identificou as digitais do Planalto em uma operação da Polícia Federal, segundo ele faraônica e orquestrada, que mirou os senadores Fernando Collor, Fernando Bezerra Coelho e Ciro Nogueira. Guarde este último nome.

Ainda não havia vazado, para a imprensa, uma conversa entre o ex-senador Romero Jucá e o ex-presidente da Transpetro Sergio Machado em que eles defendiam sem papas na língua “um grande acordo nacional” em torno de Michel Temer, “com Supremo, com tudo”. O objetivo era claro: “parar tudo” – no caso, o avanço da Lava Jato.

Um ano depois, a Câmara, sob o comando de Eduardo Cunha, autorizou o processo de impeachment contra Dilma Rousseff, que seria confirmado pelo Senado pouco depois. Cunha virou o antípoda da gestão petista, e foi fagocitado pelo sistema político assim que fez o que prometia e perdeu a utilidade.

Entregue a cabeça de Dilma numa bandeja, ele foi abandonado ferido na estrada. Preso, julgado e condenado por corrupção, não é sombra da figura que assombrou a República por quase dois anos. Em 2022, não foi sequer eleito deputado.

Há, até hoje, quem acredite que a então presidenta só caiu porque pedalou demais no orçamento do ano anterior. Balela.

Nesta semana, não teve quem não teve sensação de déjà vu ao acompanhar a sessão no Senado que barrou a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. O nome escolhido pelo presidente Lula (PT) foi rejeitado por 42 votos contra 34.

Não foi só a maior derrota política de Lula em seu terceiro mandato. Foi a primeira vez em mais de 130 anos que um indicado pelo presidente para a Suprema Corte foi chutado pelos senadores. Uma humilhação total, que escancarou o desencontro entre expectativa e realidade de um governo que acreditava ter votos suficientes para aprovar o nome do advogado-geral da União e pensar nos outros embates pela frente, como a manutenção dos vetos do PL da Dosimetria e o fim da escala 6 por 1.

Messias não foi barrado por não ter capacidade de assumir o posto ou por ter se mostrado devoto de menos diante de uma plateia temente a Deus (risos). Pelo contrário: seu alinhamento com André Mendonça, relator da investigação sobre o caso Master no Supremo, ex-AGU e evangélico como o ex-futuro colega, pesou mais na conta do que sua fidelidade ao governo.

Alcolumbre deixou a indicação na gaveta por quatro meses e só colocou o nome de Messias em votação quando sabia que podia ganhar a queda-de-braço. Ele defendia a indicação de outro nome para o posto, o de Rodrigo Pacheco, ex-presidente da Casa. Não se sabe se ele leu o regulamento. Mas, para indicar um ministro do Supremo, ele precisa antes ser eleito presidente da República.

Alcolumbre faz um jogo dúbio com o Planalto desde o início do governo Lula. Eles já viajaram juntos e já demonstraram afinidades. Alcolumbre apoia o projeto de prospecção de petróleo na Foz do Amazonas localizado no Amapá, seu reduto. Lula também.

Em fevereiro, a PF foi à capital do estado, Macapá, investigar suspeitas de irregularidades na aplicação de recursos que deveriam ser direcionados para a aposentadoria de servidores do estado. O alvo era a cúpula da Amapá Previdência (Amprev), que, sem muita explicação, investiu R$ 400 milhões no Banco Master – ou 4,7% de todo o patrimônio líquido da previdência do estado – quando a instituição já ia para as cucuias. Um dos investigados é Jocildo Silva Lemos, presidente do órgão e indicado para o cargo por Alcolumbre.

De olho nas pesquisas eleitorais, que transformam Flávio Bolsonaro (PL) em um candidato competitivo à Presidência, Alcolumbre juntou extrema-direita e Centrão, as alas do Congresso insatisfeitas com o STF (prisão de golpistas, controle sobre emendas) e as investigações do caso Master, para mostrar a Lula quem manda ali. A ideia é desgastar o presidente para abrir as comportas a quem pode, novamente, fazer um grande acordo nacional, com o novo ministro do Supremo, com tudo, para brecar as investigações antes que elas cheguem aos amigos, amigos dos amigos, e neles mesmos.

Não há como puxar o fio do maior escândalo financeiro do país sem, em algum momento, esbarrar em menções a caciques do Progressistas, de Ciro Nogueira (o mesmo que recebeu a PF em casa em 2015), citado por Daniel Vorcaro como “grande amigo” da vida, e o União Brasil, de Alcolumbre e Antonio Rueda. Ambos os partidos, aliás, ensaiam neste momento forjar uma federação para marchar juntos em altas aventuras e confusões. Mexeu com um, mexeu com todos.

Alcolumbre pisou no pé do governo sem, exatamente, anunciar rompimento nem explicar o porquê. Diferentemente de Eduardo Cunha, disfarça um pouco melhor por que age como age. Faz a molecagem e depois posa de bedel responsável por colocar ordem na turma do fundão e pedir respeito a uma decisão soberana de um Poder atacado.

De perto, nem parece. Mas, para Lula, é um inimigo mais habilidoso, menos passional e bem mais perigoso do que o homem responsável, há exatos dez anos, por dinamitar o governo Dilma Rousseff.

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