A trajetória de superação do criador da tabela periódica.

Retrato de Dmitri Mendeleev no frontispício da edição de 1897 da obra Princípios de Química, seu livro fundamental sobre a organização dos elementos químicos e a consolidação da Tabela Periódica.Reprodução

Dmitri Mendeleev nasceu em 8 de fevereiro de 1834, em Tobolsk, na Sibéria, uma região isolada do antigo Império Russo, para completar era o filho mais novo de uma família enorme, possivelmente com mais de uma dezena de irmãos, ter acesso a educação naquela época já era um privilégio. Porém, ele teve a sorte de que seu pai, Ivan, trabalhasse como diretor de uma escola, mas nem tudo eram flores, o pai perdeu a visão quando Dmitri ainda era criança, o que o afastou do trabalho abalando profundamente a estabilidade financeira da casa.

Foi então que sua mãe, Maria, assumiu sozinha a responsabilidade de sustentar todos da família. Ela passou a cuidar e administrar uma pequena fábrica de vidro da família. Nesse ambiente simples, entre calor intenso e experimentos rudimentares possíveis alí, que Dmitri teve seus primeiros contatos com transformações químicas, ainda que rudimentares, observando na prática transformação da matéria, foi alí que ele pegou gosto pela coisa. Porém, mais uma tragédia atingiria a família,  como se ainda não bastasse, um incêndio destruiu completamente a fábrica na década de 1840, eliminando sua única fonte de renda e também a possibilidade de Dimitri estudar por conta própria. 

Diante dessa situação desesperadora, Maria tomou uma atitude corajosa. Entre 1849 e 1850, vendeu o que ainda tinha e embarcou com o filho caçula em uma longa jornada de cerca de 2.000 quilômetros em busca de oportunidades, ela acreditava que ele era a esperança da família. Tentaram primeiro Moscou, onde Dmitri não foi aceito possivelmente por critérios regionais de admissão. Sem desistir, seguiram para São Petersburgo. Ali, em 1850, Mendeleev foi finalmente aceito no Instituto Pedagógico Principal, instituição voltada à formação de professores e onde seu pai havia estudado décadas antes. Pouco depois dessa conquista, Maria faleceu, agora orfão, Dmitri tinha apenas a orientação moral de sua mãe que marcaria sua trajetória: buscar sempre a verdade, rejeitando ilusões. 

Durante seus anos de estudo, entre 1850 e 1855, Mendeleev se destacou pelo desempenho. Mesmo enfrentando problemas de saúde,incluindo suspeita de tuberculose, o que era praticamente uma sentença de morte na época, e passando um período na Crimeia, ele continuou firme em sua formação.

Mais tarde, entre 1859 e 1861, teve a oportunidade de estudar na Alemanha fato que mudou tudo em sua história,  ele se formou em Heidelberg, onde entrou em contato com importantes cientistas da época como Robert Bunsen, pioneiro na análise espectral; Gustav Kirchhoff, colaborador de Bunsen e fundamental para o desenvolvimento da espectroscopia; e Emil Erlenmeyer, conhecido tanto por suas contribuições teóricas quanto pelo famoso frasco que leva seu nome. 

Essas experiências ampliaram sua visão e consolidaram sua base científica, alí ele ja tinha certeza do caminho que devia trilhar, o da química.

Quando retornou ao Império russo ele assumiu a cade de professor na capital, São Petersburgo, alí ele se deparou com um desafio que intrigava a comunidade científica: como organizar os elementos químicos conhecidos até então. Em 1869, ele fez o impensável para a época, apresentou sua proposta  a primeira versão da Tabela Periódica, em um artigo científico, incorporando-a pouco depois em sua obra Princípios de Química, onde ajudou a difundir e consolidar o modelo. 

versão madura e revisada da tabela periódica, baseada no trabalho de Mendeleev já consolidado no fim da vida dele em 1897Fundamentos da Quimica- Dmitri Mendeleev

O mais impressionante em seu trabalho não foi apenas a organização dos elementos em si, mas sua capacidade de prever o que ainda não havia sido descoberto. Afinal propositalmente ele deixou espaços vazios na tabela, indicando a certeza da existência de elementos desconhecidos naquele momento, e até descrevendo suas supostas propriedades com surpreendente precisão, aos quais atribuiu propriedades específicas. Entre esses, o “eka-alumínio” (posteriormente identificado como gálio em 1875), o “eka-silício” (germânio, descoberto em 1886) e o “eka-boro” (escândio, identificado em 1879). Ele enfrentou grande resistência acadêmica a suas ideias, Muitos químicos acharam isso especulativo demais. A ideia de “prever elementos inexistentes” soava pouco científica dentro do padrão da época, que era mais descritivo do que preditivo. Mas logo eles saberiam ele estava certo, essas previsões se confirmaram nas décadas seguintes, ficando provado sem dúvida alguma a genialidade de sua abordagem. 

Ele não se limitou a criação da tabela periódica, Mendeleev fez contribuições relevantes  em diversas áreas, como o estudo de soluções, a densidade de líquidos, além de contribuir para o desenvolvimento da incipiente indústria do petróleo do seu país e a padronização de medidas em toda a Rússia. Mesmo sendo reconhecido como sem dúvida alguma um dos maiores cientistas do século XIX, e com suas contribuições reverberando ainda nos dias de hoje em seu campo de atuação.

Apesar disso elea nunca recebeu o Prêmio Nobel de química, algo que muitos consideram uma grande injustiça histórica, ele até foi indicado em 1906, mas por questões de políticas internas da época não venceu, apesar de não ser a causa decisiva, talvez o fato de ter feito seus trabalhos na longínqua Rússia, também o tenha afastado dos circos mais destacados da ciência da época.

Ele faleceu em 1907, em São Petersburgo, e o Nobel não é concedido postumamente. Ou seja, a chance acabou ali. 

 Décadas depois, em 1955, seu legado foi eternizado com a criação do elemento químico mendelévio, que leva seu nome.

Podemos dizer que a história de Mendeleev transpassa a ciência, ela fala de alguém que, mesmo diante de perdas, dificuldades financeiras e rejeições, persistiu e manteve o foco. De um jovem que veio da longingua Sibéria que se tornou um cientista que ajudou a organizar os fundamentos da matéria da química, sua trajetória mostra que a determinação pode realmente transformar o mundo em que vivemos.

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