
Lucas e Yu lançarão o primeiro álbum internacional
Rodrigo Rosenthal
O Japão e o Brasil estão a 16.524 quilômetros de distância, o que é considerado muito – mas muito – longe em qualquer meio de transporte. Mas, culturalmente falando, a separação física não chega a ser um problema para a mistura de tradições: seja ela na culinária, nos esportes ou nos filmes.
Na música, a relação nipobrasileira não é diferente: a bossa nova foi um fenômeno entre o público japonês no final do século XX, rendendo interpretações em outro idioma e parcerias internacionais. Já no meio erudito, a Associação Brasileira de Música Clássica Japonesa, conhecida como Hougaku, preserva um grande legado desde 1989.
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Lucas Muramoto, nascido em Itaporanga (SP) e criado em Gunma, província que fica a 100 quilômetros de Tóquio, viveu essa fusão de culturas distintas na prática. Violoncelista, ele se prepara para lançar “Nocturne”, seu primeiro álbum internacional, na terça-feira (5).
Ao g1, o músico, que atualmente mora na Áustria, conta que se mudou para o “outro lado do mundo” com apenas um ano de idade. Criando habilidades na área desde os nove anos, ele teve aulas com Antônio Meneses, considerado o violoncelista mais importante da história do Brasil.
“Comecei a tocar instrumentos ainda quando era criança, mas não era nada muito sério. Aos 15, por acaso, soube que o Antônio estava em Tóquio e mandei uma mensagem para ele, dizendo que era um brasileiro violoncelista em território japonês que gostaria de encontrá-lo. Ele aceitou, nos encontramos e ele me indicou quais eram os passos que eu deveria seguir”, lembra.
Lucas passou a praticar o instrumento com frequência e, aos 16 anos, voltou ao Brasil. O intuito principal do retorno era se reconectar e se aprofundar na cultura brasileira. No meio do caminho, acabou atuando no Conservatório de Tatuí (SP).
“Fiquei um ano no conservatório e, em seguida, me mudei para São Paulo. Lá, conheci um professor que ensina em Salzburgo, na Áustria. Fiz a prova, passei e estou aqui até hoje. Depois que me mudei para a Europa, comecei a estudar com o Antônio também na Itália. Ele foi uma pessoa muito importante na minha vida”, comenta.
Segundo o músico, a ideia de fazer um álbum internacional surgiu a partir da vontade de materializar a própria atividade. O projeto, que foi feito em parceria com o pianista japonês Yu Nitahara, conta com obras de compositores japoneses à base do violoncelo, misturando com composições brasileiras. Assista acima.
“Eu sou uma pessoa que gosta de fazer vários tipos de projetos diferentes. Tenho meu próprio trio com violoncelo, violino e piano, além de um festival próprio no Rio de Janeiro. Mas a minha atividade solo sempre me acompanhava. Tudo aconteceu pois, no ano passado, toquei em um concerto que celebrava os 130 anos da relação Brasil-Japão e, nisso, tivemos que apresentar obras envolvendo compositores brasileiros e japoneses”, explica.
Com relação à parte brasileira do álbum, o violoncelista esclarece que Antônio é uma peça-chave e uma influência direta. O lançamento do disco é, também, uma forma de celebrar a relação entre aluno e professor, que perdurou até a morte do artista, em agosto de 2024.
“Existe uma homenagem a ele de certa forma. Nós tínhamos um relacionamento pessoal e, inclusive, ele estava na sessão de gravação no estúdio em 2023 para dar dicas. Tudo isso foi uma experiência muito legal”, destaca.
Muramoto atualmente vive na Áustria
Rodrigo Rosenthal
Lucas, de antemão, diz que a narrativa do álbum está ligada justamente a “como coisas distantes podem parecer bem próximas”, o que é o caso da cultura nipobrasileira. Ele afirma que, ao contar a relação entre os dois países aos moradores europeus, a reação é sempre de surpresa.
“O Brasil e o Japão estão muito distante, mas nós sabemos o quão próximos eles são. Quando conto essa história aos europeus, eles reagem com: ‘Nossa, eu não sabia disso’. Isso acontece na música erudita, com Atsutada Otaka e André Mehmari se encontrando no sentido de seguirem a mesma tradição clássica erudita, mesmo vindo de lugares completamente diferentes”, afirma.
“O legal do disco é que eu trago um repertório de música clássica, mas que, na verdade, são frutos de gêneros que não têm nada a ver com o erudito. O movimento das peças brasileiras são de seresta, choro, frevo, baião. O que eu mais gosto das músicas é que elas representam a tradição de cada lugar e a nossa personalidade”, completa.
Ao contrário de muitos artistas, as expectativas de Lucas para o lançamento do álbum passam longe de um retorno financeiro. Ele pontua que, na verdade, as plataformas de streaming não possuem um valor monetário significativo por reprodução.
“O modelo de mercado, hoje em dia, não dá dinheiro. O streaming dá menos de um centavo por reprodução, então, não é algo que estamos esperando. O disco serve mais para materializar e registrar um início de uma forma bacana. É um cartão de visita de quem somos como artistas e pessoas. Já estamos muito orgulhosos deste trabalho”, reforça.
“É um precedente que se abre para que, daqui para frente, dê para fazer muitas músicas novas com qualidade, sem um compromisso ou preocupação financeira. Às vezes, isso muda o jeito de fazer uma pessoa pensar, por causa da necessidade do mercado”, finaliza.
Disco mistura composições brasileiras e japonesas
Rodrigo Rosenthal
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