Uma tubulação de chumbo de 116 metros encontrada em Petra revela como 30.000 pessoas tinham água no meio do deserto

Você consegue imaginar uma tubulação de chumbo de 116 metros funcionando sob pressão no meio do deserto há mais de 2.000 anos? Arqueólogos acabam de revelar que Petra, a cidade nabateia esculpida na rocha, tinha um sistema hídrico que distribuía 133 milhões de litros de água por ano para 30.000 pessoas.

O que os arqueólogos encontraram em Petra?

A pesquisa foi publicada na revista especializada Levant pela equipe liderada pelo arqueólogo suíço Niklas Jungmann, após prospecções iniciadas em 2023 no aqueduto ‘Ain Braq, que corta o maciço de Jabal al-Madhbah. O que parecia um único canal de abastecimento revelou-se dois sistemas de condução separados, construídos em fases diferentes e com tecnologias distintas.

No centro do achado: uma tubulação de chumbo de 116 metros de extensão, raridade absoluta para o período e para a região. Fora de ambientes urbanos internos, esse tipo de conduto pressurizado era praticamente inexistente no Mediterrâneo oriental da Antiguidade.

No centro do achado: uma tubulação de chumbo de 116 metros de extensão, raridade absoluta para o período e para a região

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Como a tubulação de chumbo funcionava como sifão em Petra?

A tubulação operava como um sifão invertido: a água descia por gravidade a partir de um tanque regulador, percorria o cano sob pressão, vencia os desníveis do terreno acidentado e subia novamente até chegar aos reservatórios da cidade. A solução demonstra que os nabateus compreendiam com precisão o comportamento da água sob pressão em terreno árido.

O canal Inventando História, com mais de 6,49 mil inscritos, apresenta a história dos nabateus e como essa civilização construiu Petra como um dos principais patrimônios históricos e arquitetônicos do mundo:

Como o sistema hídrico abastecia 30.000 pessoas no deserto?

Petra era abastecida por três fontes principais: Ain Mousa, Ain Braq e Wadi Mataha. O levantamento mais recente identificou as seguintes estruturas que compunham a rede de distribuição:

  • Nove condutos de captação e distribuição conectados às três fontes principais
  • Uma grande represa projetada para conter e regular o fluxo nos períodos de cheia
  • Duas cisternas subterrâneas para armazenamento de longo prazo
  • Sete piscinas de tamanhos e funções variadas distribuídas pela cidade

Segundo a revista Archaeology, a infraestrutura completa fornecia cerca de 133 milhões de litros de água por ano, sustentando uma população de aproximadamente 30.000 habitantes.

Quem eram os nabateus e por que o controle da água era essencial para eles?

Os nabateus foram um povo de origem árabe que controlou as rotas de caravanas entre a Península Arábica e o Mediterrâneo entre aproximadamente 100 a.C. e 106 d.C., quando Petra foi incorporada ao Império Romano como capital da província da Arábia Pétrea. A cidade funcionava como entreposto comercial de especiarias, incenso, seda e outras mercadorias de alto valor.

A tabela abaixo mostra as principais fases da infraestrutura hídrica de Petra e as transformações que cada período trouxe ao sistema:

Período Governante ou contexto Característica do sistema hídrico
9 a.C. – 40 d.C. Rei Aretas IV Tubulação de chumbo de 116 m, sifão invertido, expansão planejada
A partir de 106 d.C. Domínio romano Ampliação com tubos de terracota padronizados ao modelo romano

Petra não prosperou apesar do deserto, mas ao dominar o deserto

A descoberta desfaz a ideia de que os nabateus eram um povo nômade que adaptou soluções improvisadas para sobreviver. O que as escavações revelam é o oposto: planejamento urbano integrado, engenharia hidráulica de alto nível e uma compreensão precisa do comportamento da água em terreno árido e acidentado.

Uma tubulação de chumbo pressurizada, dois sistemas de condução independentes e 133 milhões de litros de água por ano entregues no meio do deserto não são improviso. São o retrato de uma civilização que resolveu, há mais de 2.000 anos, um problema de engenharia que muitas cidades modernas ainda enfrentam.

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