Etapa do mundial de surfe em Ubatuba (SP) reforça programa que protege praias no Brasil


Etapa do mundial de surfe em Ubatuba (SP) reforça programa que protege praias no Brasil
Adinil César Villas Boas
No último domingo (3), a Praia de Itamambuca, localizada no município de Ubatuba (SP), finalizou a segunda etapa do Circuito Banco do Brasil de Surfe. Além das manobras e disputas que ocorrem dentro d’água, a praia também se destaca por outro motivo: ela faz parte do Programa Brasileiro de Reservas de Surf.
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A competição é válida pelo Qualifying Series sul-americano, uma das etapas classificatórias para o mundial da World Surf League (WSL), e reuniu atletas do Brasil e do exterior na disputa por pontos importantes no ranking.
O retorno da competição à cidade após quase quatro anos reforça o peso histórico de Ubatuba como um dos berços do surfe brasileiro.
Itamambuda faz parte do Programa Brasileiro de Reservas de Surf. A iniciativa, coordenada pelo Instituto APRENDER Ecologia, busca proteger não apenas as ondas icônicas do local, mas também o ecossistema por completo, valorizando ações de conservação ambiental em praias escolhidas a dedo no país.
Etapa do mundial de surfe em Ubatuba (SP) reforça programa que protege praias no Brasil
Adinil César Villas Boas
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O que é o Programa?
Criado a partir de modelos internacionais de conservação, o programa reconhece praias que reúnem boas condições para o surfe, além de relevância ambiental e sociocultural. O título “Reserva de Surf” é designado para praias que cumprem critérios como qualidade e consistência das ondas, relevância cultural do esporte, características socioecológicas do local e engajamento da comunidade para pautas ambientais.
Na prática, isso significa olhar para o surfe como mais que apenas um esporte. O programa atua na conservação de ecossistemas costeiros, como restingas, rios e áreas marinhas, além de incentivar políticas públicas e ações sustentáveis voltadas à zona costeira.
Itamambuca, no litoral de SP
Adinil César Villas Boas
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O principal objetivo é unir pessoas para cuidar dessas áreas de forma conjunta, com a participação de surfistas, moradores, pesquisadores e do poder público.
“O Programa Brasileiro de Reservas de Surf atua no reconhecimento e valorização de picos icônicos do surf nacional e do seu entorno, aliando o esporte à conservação e considerando o potencial do surf como vetor para a sensibilização, adaptação e mitigação das mudanças climáticas”, afirma a coordenadora executiva do projeto e diretora do Instituto APRENDER Ecologia, Fernanda Bittencourt Muller.
Segundo ela, o trabalho envolve desde a seleção das reservas até o fortalecimento da governança local, com participação de diferentes setores da sociedade. Entre as ações, estão o apoio a projetos socioambientais, o monitoramento ambiental e a articulação entre comunidade, poder público e instituições de pesquisa.
Itamambuca foi uma das praias reconhecidas por reunir características consideradas essenciais. De acordo com a gestora, o local se destaca pela qualidade e consistência das ondas, pela presença de ecossistemas preservados de Mata Atlântica e por uma cultura consolidada ao longo de décadas.
Fernanda explica que a praia possui pessoas e grupos organizados que ajudam a cuidar do lugar, o que facilita decisões feitas em conjunto.
As outras praias brasileiras incluídas como Reserva de Surf são:
Guarda do Embaú – Palhoça (SC)
Praia do Moçambique – Florianópolis (SC) Regência – Linhares (ES)
Fernando de Noronha (PE)
Itamambuca, no litoral de SP
Adinil César Villas Boas
Pressões ambientais e ação local
Apesar do reconhecimento, Itamambuca enfrenta desafios típicos de praias valorizadas. Entre eles estão a pressão imobiliária para o crescimento urbano e os impactos do turismo, principalmente em períodos de alta temporada.
Conforme Fernanda, a qualidade da água do Rio Itamambuca, que deságua no mar, também é uma preocupação constante.
“Ao reconhecer Itamambuca como Reserva Nacional de Surf, o programa não apenas valoriza seu patrimônio natural e cultural, mas também cria um instrumento prático para sua proteção de longo prazo”, completa a gestora.
Para quem vive na região, os efeitos desse reconhecimento já começam a aparecer. O paisagista Adinil César Villas Boas, conhecido como Dado, mora em Itamambuca há anos e acompanha de perto as iniciativas de preservação. Ele atua como diretor de meio ambiente da Associação Ubatuba de Surf (AUS) e da Sociedade Amigos de Itamambuca (SAI), entidades que desenvolvem diversas ações na região.
“O título de reserva nacional de surf nos ajuda a continuar a preservar e enriquecer ambientalmente nossos ecossistemas, como a restinga, manguezal, o rio, e a engajar diferentes pessoas, como surfistas, caiçaras, indígenas e turistas”, afirma Adinil.
Adinil César Villas Boas em ação de plantio durante o campeonato de surfe
Adinil César Villas Boas
Segundo ele, a forte mobilização comunitária é um dos pontos fortes da região.
Com mais de 30 anos de atuação no paisagismo, ele trabalha com recuperação ambiental e destaca o papel da vegetação nativa nesse processo. Em áreas de restinga, a escolha de espécies adequadas pode fazer diferença direta na conservação.
“Uma das grandes causas de perda de Mata Atlântica é a invasão biológica, muitas vezes causada por espécies exóticas usadas em jardins, que acabam se espalhando e competindo com a vegetação nativa”, explica. Para ele, valorizar espécies locais e recuperar áreas degradadas é parte fundamental da proteção.
União do surfe e conservação
A relação entre o esporte e o meio ambiente é direta. A própria formação das ondas depende de fatores como a integridade do fundo marinho, a dinâmica dos sedimentos, a qualidade da água e a preservação de ambientes como rios, manguezais e restingas.
Nesse contexto, eventos como a etapa da WSL ajudam a ampliar o olhar sobre o território. Para o Programa Brasileiro de Reservas de Surf, quando alinhadas a boas práticas socioambientais, competições desse porte funcionam como plataformas de sensibilização, destacando a importância da conservação costeira.
Ao atrair atenção nacional e internacional para Itamambuca, o campeonato deixa uma mensagem central: ondas de qualidade não existem isoladamente, elas dependem de ecossistemas saudáveis.
Mais do que palco de disputas, a praia se consolida como exemplo de que preservar o ambiente é também garantir o futuro do surfe.
*Sob supervisão de Rodrigo Peronti.
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