Em um cenário de maior incerteza global, os investimentos internacionais voltaram ao centro da estratégia dos investidores brasileiros. No programa Global Wallet, da BM&C News em parceria com a Avenue, Rafael Lara recebeu Guilherme Loureiro, da Montebravo, e Bernardo Queima, da Gama Investimentos, para discutir fluxo de capital, exposição ao Brasil, força dos Estados Unidos e construção de portfólio global.
A avaliação dos especialistas é que o Brasil pode se beneficiar de forma relativa do ambiente externo, mas essa leitura não deve ser confundida com uma mudança estrutural no destino do capital global. Para Bernardo Queima, os Estados Unidos seguem como principal motor econômico e financeiro do mundo, enquanto o Brasil aparece como uma alternativa dentro do grupo de emergentes.
“A imensa maioria do fluxo mundial continua indo para os Estados Unidos”, afirmou Bernardo Queima.
Brasil se destaca entre emergentes, mas não substitui os EUA
Bernardo avaliou que o Brasil vive um momento de melhora relativa dentro do universo de países emergentes. A comparação, no entanto, deve considerar a diferença de escala entre os mercados. Segundo ele, os Estados Unidos representam cerca de 30% do PIB global e concentram de 60% a 70% do mercado de capitais, dependendo da métrica considerada.
Guilherme Loureiro também destacou que o Brasil reúne fatores que favorecem a entrada de capital em determinados momentos, como juros elevados, moeda considerada barata, menor risco geopolítico direto e exposição a temas como commodities, energia e terras raras. Ainda assim, ele ressaltou que o país continua sujeito a desafios locais e externos.
“Então acho que é um pouco é meio beneficiário relativo aí do do processo, mas obviamente tem muito desafio”, ponderou Guilherme Loureiro.
Petróleo muda a leitura sobre inflação e crescimento
A alta incerteza em torno do petróleo foi um dos pontos centrais da conversa. Guilherme explicou que existe diferença entre o comportamento do mercado físico e do mercado futuro da commodity, além de queda relevante nos estoques. Nesse contexto, o risco é que o choque deixe de ser linear e passe a afetar expectativas de inflação, atividade econômica e decisões dos bancos centrais.
A primeira reação do mercado, segundo os convidados, costuma ser associar o choque de petróleo à inflação. No entanto, se a alta for muito intensa, a discussão pode migrar para crescimento, com risco de desaceleração global. Essa mudança altera a leitura sobre juros, renda fixa, ações e proteção de carteira.
“Se de fato a gente vai falando de petróleo a 200, o tema é crescimento, provavelmente”, analisou Guilherme Loureiro.
Diversificação ganha peso na carteira global
Para Bernardo Queima, o ambiente atual exige que o investidor evite posições concentradas em apenas um cenário. A construção de portfólio precisa considerar diferentes desfechos, tanto no caso de uma resolução do conflito quanto em um cenário de agravamento do choque de energia. Nesse contexto, diversificação deixa de ser apenas uma recomendação teórica e passa a ser uma ferramenta de gestão de risco.
Guilherme reforçou que a diversificação também vale para a combinação entre classes de ativos. Em um ambiente de juros internacionais mais altos, a renda fixa global pode ter papel mais relevante do que teve no período de juros próximos de zero. Ao mesmo tempo, a exposição a ações precisa ser pensada com seletividade, especialmente em carteiras concentradas em empresas de crescimento.
“Montar um portfólio que possibilite de você não levar uma goleada, né, no cenário A ou no cenário B”, destacou Bernardo Queima.
Estados Unidos seguem como eixo do mercado global
Mesmo diante de ruídos políticos, discussões fiscais e incertezas em torno do governo Trump, os Estados Unidos continuam sendo tratados pelos especialistas como o principal mercado para alocação global. A explicação passa pela profundidade do mercado de capitais, pela segurança jurídica, pela capacidade de inovação e pela liquidez disponível para investidores de diferentes perfis.
Bernardo ressaltou que a economia norte-americana combina dinamismo, produtividade e facilidade para empresas captarem recursos, contratarem, demitirem e colocarem capital para trabalhar. Para os investidores, essa estrutura continua sendo um diferencial relevante na comparação com outras regiões.
“É muito difícil achar um lugar que você invista com a segurança jurídica que você tem nos Estados Unidos”, observou Bernardo Queima.
Dólar, poder de compra e risco de concentração em real
A conversa também abordou o risco de manter todo o patrimônio concentrado em reais. Para os convidados, a diversificação internacional não deve ser analisada apenas pela comparação entre a Selic brasileira e os juros no exterior. O ponto central é a preservação de poder de compra em moeda forte e a redução da dependência em relação a uma única economia.
Bernardo lembrou que, quando o retorno é medido em dólar, a comparação muda. Juros elevados no Brasil podem parecer atraentes nominalmente, mas parte relevante do consumo de famílias de maior renda tem relação direta ou indireta com a moeda norte-americana, incluindo viagens, bens importados e itens afetados pelo câmbio.
“Quando você fala de retorno de oito em dólar, é muito retorno quando você tá falando em moeda forte”, avaliou Bernardo Queima.
Inteligência artificial e infraestrutura entram no radar
Entre as oportunidades globais, os especialistas citaram inteligência artificial, eletrificação, infraestrutura e reindustrialização dos Estados Unidos. Esses temas foram apresentados como tendências de longo prazo que podem continuar atraindo capital, mesmo em meio à volatilidade de curto prazo.
Bernardo afirmou que investidores concentrados apenas no Brasil podem deixar de acessar movimentos estruturais relevantes. A inteligência artificial, em especial, foi tratada como uma força capaz de alterar a produtividade, a demanda por energia e a necessidade de novos investimentos em infraestrutura.
“Eu acho que a gente vai falar muito mais do que a gente imagina e vai ser muito mais importante que as pessoas estão falando, principalmente aqui no Brasil”, projetou Bernardo Queima.
Disciplina importa mais que reação a eventos
Na parte final do programa, Guilherme Loureiro e Bernardo Queima discutiram comportamento do investidor, medo, ganância e decisões em períodos de crise. A avaliação é que eventos de curto prazo costumam gerar movimentos exagerados nos preços, enquanto os fundamentos das empresas tendem a oscilar de forma menos intensa.
Para Guilherme, o investidor precisa olhar para perfil de risco, liquidez, horizonte de tempo e consistência. Mais do que buscar retornos elevados em janelas curtas, a construção de patrimônio depende de disciplina, paciência e capacidade de se manter investido ao longo dos ciclos.
“Consistência é muito mais importante do que retornos muito excessivos”, concluiu Guilherme Loureiro.
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