A guerra também aquece o planeta: a face esquecida da crise climática


Refinaria de petróleo de Ruwais, uma das maiores do mundo, nos Emirados Árabes Unidos.
Reuters
Conflitos armados não apenas tiram vidas e destroem territórios. Eles também emitem milhões de toneladas de gases de efeito estufa, acelerando silenciosamente a crise climática global. Mesmo assim, continuam fora da maioria das metas e relatórios nacionais de carbono.
Nos primeiros 14 dias da guerra no Irã, os bombardeios, incêndios e deslocamentos em massa já haviam gerado 5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. Para comparar: é mais do que emite em um ano inteiro um país como El Salvador. E a guerra mal havia começado.
Mas será que esse número vai aparecer nos inventários climáticos oficiais? Provavelmente não.
A guerra é o quarto maior emissor de gases de efeito estufa do mundo
Segundo levantamento da Conflit and Environment Observatory, se as forças militares do mundo fossem um país, seriam o quarto maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, com cerca de 2,7 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano, mais de 5% das emissões globais. Ficando atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia.
Ainda assim, esse número raramente entra no debate climático. O Acordo de Paris prevê que os países devem incluir as emissões militares em seus inventários nacionais, mas o reporte é voluntário e parcial.
Em 2025, apenas seis países no mundo: Alemanha, Bulgária, Chipre, Eslováquia, Hungria e Noruega, reportaram dados desagregados de emissões militares à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). O restante do mundo simplesmente não informa.
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O que entra na conta é o consumo energético de bases e frotas, mas isso é só a ponta do iceberg. O que fica de fora é justamente o mais relevante: fabricação e uso de munições, equipamentos bélicos, logística e suprimentos militares, e os resíduos de guerra.
Contudo, é importante destacar que quando a guerra acontece, as emissões explodem em proporções difíceis de absorver pelo sistema climático.
A ONG Política por Inteiro fez um estudo que diz que a guerra na Ucrânia gerou 311,4 milhões de toneladas de CO₂ em quatro anos de conflito. O combate direto respondeu por 37% dessas emissões, e o restante veio de incêndios florestais em áreas naturais (23%), reconstrução de infraestrutura destruída (23%), aviação civil desviada (9%) e deslocamento de refugiados (2%).
Já a guerra em Gaza gerou 33,2 milhões de toneladas em apenas 15 meses, segundo o estudo publicado na revista One Earth pelo grupo de pesquisadores liderados por Neimark em 2026. Para se ter ideia da escala: isso equivale a um ano inteiro de emissões de países como a Hungria.
Se as forças militares do mundo fossem um país, seriam o quarto maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, com cerca de 2,7 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano, mais de 5% do total das emissões globais.
Altaf Qadri/AP Photo
Destruição que dá lucro
Em um contexto em que cada tonelada de carbono importa para os limites climáticos, a guerra intensifica o acúmulo de gases de efeito estufa e agrava a crise climática.
O cenário já é obviamente muito grave, mas fica ainda mais perverso quando a destruição vira crescimento econômico. Algo que acontece muito, desde a Segund Guerra Mundial.
Isso porque o PIB mede o valor monetário de toda a atividade econômica, sem distinguir se ela é socialmente útil ou ecologicamente destrutiva. Então, a fabricação de munições e a reconstrução de infraestrutura destruída são atividades que entram no PIB.
Assim como os gastos hospitalares com vítimas de guerra. Como argumentou Herman Daly, economista ecológico, o crescimento do PIB além de certo ponto deixa de produzir bem-estar e passa a gerar “crescimento não econômico”, ou seja, produz mais custos do que benefícios. A guerra é o exemplo mais extremo disso.
Os economistas Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi já alertavam em 2009 que o PIB é uma medida de atividade econômica, não de bem-estar. A destruição de um ecossistema para vender madeira eleva o PIB.
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O custo do petróleo derramado num oceano eleva o PIB. O gasto com reconstrução de cidades bombardeadas eleva o PIB. O que fica de fora é o que realmente importa: o capital natural destruído, a saúde mental da população, a coesão social desfeita.
Feito esse pequeno parenteses, é importante olhar, dentro de uma perspectiva das novas economias, esses custos que ninguém calcula:
Segundo a ONU, em 2025 os gastos militares globais atingiram um recorde de US$ 2,9 trilhões — o equivalente a US$ 334 para cada pessoa na Terra. Com apenas 15% desse valor, sendo cerca de 387 bilhões de dólares, seria possível financiar toda a adaptação climática necessária no Sul Global, segundo estimativas da ONU.
Ou seja, os recursos direcionados à guerra são subtraídos diretamente de investimentos em transição energética, saúde, educação e resiliência climática, temas urgentes e críticos no nosso contexto atual.
Enquanto países ricos debatem metas de descarbonização em grandes conferências, na prática eles continuam destinando quantias cada vez maiores ao rearmamento. Numa lógica que a pesquisa sobre dependências e imperativos do crescimento econômico chama de “crescimento militarizado”: estados que precisam crescer para se armar, e se armam para proteger as condições do crescimento.
Cabe ressaltar que os efeitos climáticos da guerra não ficam dentro das fronteiras onde ela acontece. Como analisaram Carlos Nobre, Johan Rockström, Robert Muggah e Lourenço Bustan, uma guerra no Golfo repercute na Amazônia e nas florestas de Bornéu.
Preços mais altos de energia elevam a demanda por substitutos, pressionam o uso da terra e impulsionam o desmatamento. Florestas que deveriam ser tratadas como infraestrutura climática insubstituível tornam-se áreas descartáveis quando a lógica geopolítica dita as regras.
Estreito de Ormuz é centro da disputa política e econômica na guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.
Asghar Besharati/AP
Cadeia causal de destruição
Isso significa que uma crise geopolítica no Estreito de Ormuz pode acelerar o desmatamento no Cerrado brasileiro. A cadeia causal é indireta, mas real.
Isso significa que a questão não é apenas contabilizar as emissões militares nos inventários nacionais, embora isso seja urgente e necessário. A questão mais profunda é que seguimos tomando decisões políticas e econômicas com instrumentos que foram desenhados para um mundo que não existe mais.
Medir progresso apenas pelo PIB numa era de múltiplas crises equivale a navegar por um oceano instável com instrumentos obsoletos. Seguimos projetando crescimento, mas ignorando as perdas ambientais, os riscos acumulados e as consequências futuras de escolhas geopolíticas que priorizam o conflito em detrimento da cooperação.
Precisamos de métricas que revelem o que está oculto: a destruição do capital natural, os impactos climáticos das ações militares e os custos sociais da instabilidade. Sem isso, cada bomba lançada se tornará também uma dívida ecológica impagável, invisível nos balanços, mas evidente no colapso dos ecossistemas.
Carol Tomaz é doutoranda em Novas Economias e Inovação Social na Universidade de Brasília (UnB).
Carol Tomaz não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
Este texto foi publicado originalmente no site The Conversation Brasil
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