
O aumento do preço do petróleo voltou a ocupar papel central na dinâmica da inflação brasileira. Segundo estudo do Departamento de Pesquisa Econômica do Daycoval, o choque de oferta respondeu por cerca de 60% da alta do IPCA acumulado em três meses no 1º trimestre de 2026, o equivalente a 0,82 ponto percentual de uma inflação trimestral de 1,4%.
O relatório, elaborado pelo Departamento de Pesquisa Econômica do Daycoval (DPEc), tem como autores Rafael Cardoso, economista-chefe, Julio Cesar Barros, economista, e Antonio Ricciardi, economista. A análise aponta que a pressão inflacionária recente tem origem predominantemente no lado da oferta, e não apenas no aquecimento da demanda. Na margem, o componente de demanda também contribuiu para a inflação, mas de forma mais moderada, com 0,35 ponto percentual no 1T26.
Petróleo pressiona inflação por dois canais
De acordo com o estudo, a alta do petróleo atua sobre o IPCA por dois canais simultâneos. O primeiro é direto, por meio dos preços administrados, especialmente combustíveis, e de bens industriais. O segundo é indireto, ao elevar as expectativas de inflação, que acabam realimentando o componente de serviços por meio da inércia inflacionária.
O levantamento mostra que, com a guerra recente entre Estados Unidos e Irã, o preço do barril saiu de cerca de US$ 64 no 4º trimestre de 2025 para US$ 80 no 1º trimestre de 2026, com picos acima de US$ 100. Apesar da possibilidade de normalização gradual dos preços após períodos de maior tensão, o Daycoval avalia que os efeitos sobre a inflação já deixam marcas.
No curto prazo, a pressão se concentra nos preços administrados. No médio prazo, os efeitos tendem a aparecer também nos preços livres, por meio de expectativas, câmbio, cesta de commodities e inflação de serviços.
Demanda ainda preocupa no acumulado em 12 meses
Embora o choque de oferta explique a maior parte do repique recente do IPCA no trimestre, o Daycoval destaca que a demanda ainda não saiu do radar. No acumulado em 12 meses, o componente de demanda segue como fator dominante da inflação.
A leitura é compatível com um hiato do produto ainda em terreno positivo, embora em recuo desde o pico observado em 2024. Isso significa que a economia ainda opera acima do seu potencial, mas com menor intensidade do que no período anterior.
Essa combinação torna o diagnóstico mais complexo para a política monetária. O choque atual tem origem relevante em oferta, o que tende a ser mais transitório, mas ocorre em um ambiente no qual a demanda ainda contribui para a inflação e as expectativas seguem acima da meta.
Expectativas reforçam risco de inércia
O estudo também mostra que as expectativas de inflação captadas pelo Boletim Focus continuam sensíveis aos choques de oferta. No 1º trimestre de 2026, o componente de oferta nas expectativas alcançou cerca de 2,2 pontos percentuais, acima do componente de demanda, estimado em 1,5 ponto percentual.
Para os economistas do Daycoval, esse movimento indica que o canal de inércia pode continuar alimentando a inflação enquanto o choque de petróleo persistir. Como as expectativas influenciam a inflação corrente por meio da curva de Phillips, a convergência do IPCA à meta de 3% se torna mais desafiadora.
Na prática, isso significa que mesmo um choque inicialmente concentrado em combustíveis pode se espalhar para outros preços se empresas, consumidores e agentes financeiros passarem a incorporar inflação mais alta nas suas decisões.
Pressão é maior em administrados
Do ponto de vista da segmentação do IPCA, os preços administrados são os mais sensíveis ao choque do petróleo em reais. Segundo o estudo, no 1º trimestre de 2026, o componente de oferta nos preços livres ficou próximo de 0,4 ponto percentual, enquanto nos administrados esteve em torno de 1,5 ponto percentual.
Isso reforça o peso de combustíveis e tarifas na dinâmica recente da inflação. Nos preços livres, a transmissão tende a ocorrer com defasagem, por meio de expectativas, câmbio e custos disseminados ao longo da cadeia produtiva.
Política monetária deve manter vigilância
A principal conclusão do estudo é que a predominância de um choque de oferta no repique recente da inflação não elimina a necessidade de cautela por parte do Banco Central. O relatório cita três complicadores: expectativas desancoradas acima da meta, hiato do produto ainda positivo e ambiente de incerteza fiscal e câmbio volátil em ano eleitoral.
Neste ponto, vale destacar um trecho do estudo: “Choques de oferta são, em princípio, mais transitórios do que choques de demanda: se o preço do petróleo recuar ao patamar anterior, o impacto tende a se dissipar mais à frente.”
Ainda assim, os autores avaliam que o cenário apresenta riscos relevantes. A experiência de 2021 e 2022 aparece como alerta, já que naquele período o choque de oferta foi amplificado pela recuperação da demanda e pela deterioração das expectativas, contribuindo para uma inflação mais persistente.
Nesse contexto, o Daycoval indica que uma redução acelerada e prematura do grau de aperto da política monetária poderia elevar os riscos de efeitos de segunda ordem, com contaminação do núcleo da inflação.
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