
O rapper mineiro FBC mistura rap e rock no sétimo álbum, ‘Tambores, cafezais, fuzis, guaranás e outras brasilidades’
Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Tambores, cafezais, fuzis, guaranás e outras brasilidades
Artista: FBC
Cotação: ★ ★ ★ ★
♬ Faz que sentido que o rapper mineiro FBC abra e feche o sétimo álbum, “Tambores, cafezais, fuzis, guaranás e outras brasilidades”, com músicas de João Bosco e Aldir Blanc (1946 – 2020). É que, ao longo dos anos 1970, essa fundamental dupla de compositores expôs na cadência do samba um Brasil urbano corroído pela pobreza, pela violência e pela injustiça social, lembrando que a cuíca roncava de fome.
Esse Brasil dialoga com a pátria cantada por Fabrício Soares Teixeira ao longo das 13 faixas do álbum lançado em 1º de maio com capa que expõe ilustração explosiva do artista visual Kawany Tamoyos.
Na abertura de “Tambores, cafezais, fuzis, guaranás e outras brasilidades”, FBC dá à luz “Gênesis (Parto)” (João Bosco e Aldir Blanc, 1977), fazendo a música renascer em canto falado posto sobre base percussiva que evoca um ponto de umbanda. No fecho do álbum, o rapper dispara “Tiro de misericórdia” (João Bosco e Aldir Blanc, 1977) – música-título do disco em que Bosco (mineiro como FBC) também apresentou “Gênesis (Parto)” – entre o rock hardcore e o samba seco.
Entre uma faixa e outra, o rapper faz “O ronco da cuíca” (João Bosco e Aldir Blanc, 1975) ressoar na cadência hardcore do punk rock, sem abandonar o canto do rap, em faixa de batida pulsante.
Conceitual, o álbum “Tambores, cafezais, fuzis, guaranás e outras brasilidades” perfila um cidadão brasileiro do nascimento à morte em um país em que grassam a fome, a bandidagem e a roubalheira, mas também a altivez resiliente de um povo honesto que cultua a ancestralidade.
O retrato sem filtro de FBC expõe um Brasil em convulsão social com mais fuzis do que guaranás. Inexistem ufanismos tropicais na narrativa de FBC. A chapa está fervendo e, na selva das cidades em que policiais matam cotidianamente trabalhadores (geralmente negros), ninguém tem tempo e vontade de louvar cartões postais do Brasil embalado para presente de turista.
“Tambores, cafezais, fuzis, guaranás e outras brasilidades” é um álbum de hip hop, como evidencia o canto de “Homo sacer” (FBC, Baka e Djonga), rap gravado com as adesões do mineiro Djonga e do DJ Cost, mas o rap de FBC está atravessado pelo rock hardcore em faixas como “Não vote em ninguém” (FBC, Baka e Flávio Soldati).
Baka – nome artístico do produtor musical e multi-instrumentista mineiro Rafael Corrêa Braga – tem atuação relevante na construção sonora de “Tambores, cafezais, fuzis, guaranás e outras brasilidades”, tendo produzido o álbum (sob direção musical dividida com FBC) e tocado baixo e guitarra.
Daniel Souza e o supracitado DJ Cost também são nomes recorrentes nos créditos das 13 faixas deste álbum em que FBC faz feat com MC Taya em “Canudos” (FBC, Baka e MC Taya), mix de funk, rap e rock.
Projetado há cinco anos com o quarto álbum, “Baile” (2021), FBC transitou pelo universo do pop funky dos anos 1980, do soul e da dance music na jornada cósmica proposta no álbum seguinte, “O amor, o perdão e a tecnologia irão nos levar para outro planeta” (2023), e retornou para as ruas com o peso do boombap que regeu o álbum “Assaltos e batidas” (2025).
Artista que sempre vira o disco a cada álbum, FBC se volta agora para o rock que enerva “Tambores, cafezais, fuzis, guaranás e outras brasilidades”, álbum antecedido em 17 de abril pelo single “Bandido bom”.
Se o rap atualmente é a voz da rebeldia, em posto que outrora já foi do rock, FBC une os dois gêneros em álbum pujante. Mesmo sem reinventar a roda, o rapper apresenta disco cheio de som e fúria como a vida urbana.
Capa do álbum Tambores, cafezais, fuzis, guaranás e outras brasilidades’, do rapper FBC
Ilustração de Kawany Tamoyos
