“Fui dado como morto”, diz brasileiro na guerra da Rússia

João Paulo Vaz Martins é um dos brasileiros que lutou ao lado da Rússia na guerra contra a UcrâniaReprodução/redes sociais

Depois de três meses sem conseguir contato com a família, o brasileiro João Paulo Vaz Martins, de 38 anos, que lutou na guerra contra a Ucrânia ao lado das forças russas, relatou em entrevista ao iG que foi dado como morto nas redes sociais. 

Quando eu cheguei na guerra, eu fiquei três meses sem contato com a minha família. Eu fui dado como morto, como dado baixo. Eu estava sem celular e foi muito difícil para mim. Acho que pra minha família foi pior ainda”, relatou. 

Martins, chegou à Rússia em março de 2025, e logo depois passou por um período de treinamento, que durou cerca de três semanas. Em seguida, foi enviado à sua primeira missão. Segundo ele, o comandante orientou que não levasse o celular, já que o aparelho poderia entregar a localização para o exército inimigo. 

Cerca de uma semana antes de seguir para o combate, ele conseguiu avisar à família que participaria de uma missão. No entanto, ainda não sabia que ficaria incomunicável. Como o chip também não funcionava corretamente, ele não conseguiu informar que ficaria sem contato.

Eu não sei como saiu nas redes sociais brasileiras. Acho que, às vezes, a notícia ruim é a que chega mais rápido. Aqui na guerra, quando você fica um mês desaparecido, você pode ter certeza que vai ser dado como morto. Se ficar mais de um mês desaparecido, é quase impossível estar vivo, sabe? Porque se você for para um hospital ferido ou mesmo no front, você vai dar um jeito de ligar para a sua família”, afirmou. 

Sem celular durante a missão, Martins ficou cerca de três meses sem conseguir qualquer comunicação. Segundo ele, o impacto sobre a família foi devastador.

De acordo com o brasileiro, durante a primeira missão ele e um colega camaronês foram designados para montar um abrigo para uma equipe de drones. Enquanto o restante do grupo avançou, os dois permaneceram na retaguarda e acabaram se perdendo.

“Os caras acharam que eu e o camaronês estávamos mortos. Até o grupo achou que a gente tinha morrido. Por isso fomos considerados como baixa”, contou.

Vida antes da guerra

João Paulo é natural de Fartura, no interior de São Paulo. Antes de viajar à Ucrânia, ele tinha uma empresa de construção civil e também trabalhava com arbitragem. A decisão de deixar o Brasil veio após o fim de um relacionamento e de passar o Ano Novo longe dos dois filhos, de 19 e 10 anos. Segundo ele, já acompanhava a guerra e acabou optando por se alistar.

Martins conta que chegou a ver anúncios de recrutamento divulgados por uma dupla de brasileiros, que posteriormente foi presa sob suspeita de aplicar golpes. Ainda assim, decidiu viajar por conta própria, ao lado de um colega. Já na Rússia, eles conheceram um alistador que facilitou a entrada de ambos no exército estrangeiro.

Quando eu vim pra cá, minha mãe estava sem falar comigo, com o coração apertado. Uma semana antes, ela passou muito mal, de ansiedade e nervosismo, e eu a levei no hospital. A minha filha não acreditava tanto. Só foi cair na real quando eu cheguei aqui”, disse. 

Além de ter visto um dos companheiros de guerra morrer ao seu lado, Martins também relata que se chocou ao ver uma família inteira morta dentro de casa. 

Uma das coisas que mais me abalou, por eu ter filho… Eu tinha perdido uma bolsa e fui procurar ela em uma posição que já era recuada. Quando eu voltei, eu tinha que passar por uma vila. E eu entrei em uma casa para procurar as coisas. Às vezes a gente acha alguma colher, faca, que a gente possa usar. Então, eu entrei em uma casa e vi praticamente uma família inteira morta. Eu vi criança, pai, mãe, uma senhora caída. Eu achava que na guerra as pessoas conseguiam sair de suas casas, fugir”, relatou. 

Apesar de ter se envolvido diretamente no conflito, ele faz um alerta a quem cogita seguir o mesmo caminho.

A guerra não é nossa, mas quando eu vim, eu abracei como se fosse o meu país. Mas eu acho que a nossa luta, para quem está sofrendo no Brasil, com depressão ou por situação financeira, não compensa nem um pouco vir para cá”. 

O contrato de João Paulo com o exército russo terminou em 31 de março deste ano. Atualmente, ele permanece na Rússia, aguardando liberação para retornar ao Brasil.

Outros brasileiros na guerra

David Andrade é um dos brasileiros que lutou ao lado da Rússia na guerra contra a UcrâniaReprodução/Arquivo pessoal

O brasileiro David Andrade, de 36 anos, também integrou as forças russas no conflito contra a Ucrânia. Ele viajou ao país em dezembro de 2024 e atuou, por cerca de seis meses no combate, como sniper. 

Antes de deixar o Brasil, Andrade já tinha ligação com a área de segurança: atuou como guarda civil e também serviu ao Exército brasileiro. Segundo ele, a decisão de ir para a guerra foi influenciada, principalmente, pela possibilidade de obter documentação russa. Casado com uma cidadã do país e já interessado em permanecer na Rússia, ele viu no conflito uma forma de facilitar sua permanência.

Durante cerca de seis meses no combate direto, acabou sendo ferido. Após o resgate, foi levado a um hospital, onde permaneceu internado por aproximadamente dois meses. Durante o período no front, relata ter perdido 17 quilos, passando de 75 kg para cerca de 58 kg.

Apesar de o exército fornecer equipamentos básicos, Andrade afirma que optou por adquirir parte do próprio material.

Segundo o brasileiro, a remuneração varia de acordo com a função e a localização. Combatentes no front recebem cerca de 200 mil rublos por mês (aproximadamente R$ 13,2 mil, na cotação atual), enquanto aqueles que atuam fora da linha de frente recebem em torno de 40 mil rublos (cerca de R$ 2,6 mil).

Entre as situações mais extremas que enfrentou, Andrade relata ter precisado consumir água de um rio contaminado, que estava cheio de cadáveres. 

O contrato do brasileiro foi encerrado em dezembro de 2025. Desde então, ele aguarda há cerca de cinco meses a liberação oficial para deixar o exército e retornar à sua rotina. Ele também possuí um canal no Youtube, onde compartilha as experiências na guerra. 

Ferido em combate

Kallahari é um dos brasileiros que lutou ao lado da Rússia na guerra contra a UcrâniaReprodução/rede social

Kallahari, de 28 anos, é natural de Ibiúna, no interior de São Paulo, e chegou à Rússia em março de 2025, junto com João Paulo. No Brasil, trabalhava como representante comercial e com produção de eventos, mas, desde os 18 anos, tinha o desejo de seguir carreira militar.

Em 2024, relatou ter passado por uma fase conturbada na vida, o que o incentivou a querer fazer algo diferente, “algo que ele pudesse se orgulhar no futuro”. Kallahari também levou em consideração os benefícios do contrato caso sobrevivesse, que envolviam o dinheiro, cidadania e a possibilidade de cursar uma faculdade de graça no país. 

Já na Rússia, Kallahari passou por cerca de três semanas de treinamento antes de ser enviado ao front, onde atuou como soldado de infantaria.

Logo na primeira missão, oito soldados do grupo morreram. Apenas ele e outro colega sobreviveram. 

Em poucos dias de combate, acumulou ferimentos graves. Em uma missão, foi atingido por disparos, no peito e nas costas, neste último caso após o impacto de um drone. Em outra, foi ferido por uma granada, em um episódio que quase lhe custou a vida.

Durante apenas 15 dias no front, Kallahari diz ter lutado constantemente para sobreviver. Em uma das situações mais críticas, precisou realizar os próprios primeiros socorros. Para suportar a dor, aplicou três ampolas de promidol e ingeriu dez comprimidos de paracetamol em menos de duas horas, quantidade acima do recomendado.

Mesmo sob efeito dos medicamentos e gravemente ferido, percorreu cerca de 3km a pé para chegar à base. Durante a fuga, quase perdeu a mão, que ficou seriamente lesionada.

Mortos e desaparecidos

A reportagem do iG identificou ao menos oito brasileiros mortos ou desaparecidos após se deslocarem para o conflito ao lado das forças russas. Nenhuma das famílias localizadas aceitou conceder entrevista.

Uma das mães, cujo filho está desaparecido desde julho de 2025, afirmou ter viajado à Rússia em busca de informações. Outra relatou que não recebeu suporte das autoridades russas após o desaparecimento do familiar.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) informou que há registro de 30 brasileiros mortos no conflito (sendo 28 casos notificados pela Ucrânia e dois pela Rússia), além de 60 desaparecidos (51 comunicados pela Ucrânia e nove pela Rússia). Os dados consideram apenas os casos oficialmente informados ao governo brasileiro por ambos os países.

Com base em levantamento próprio, o iG conseguiu identificar quem são 53 brasileiros mortos ou desaparecidos, que lutaram na guerra ao lado da Ucrânia. 

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