
Dois anos após a maior tragédia climática do Rio Grande do Sul, uma pesquisa divulgada nesta quinta-feira (07) detalhou 11 causas que resultaram nas enchentes de 2024. Pesquisadores estruturaram uma relação entre o risco de desastres e questões estruturais históricas, sociais, econômicas e climáticas. Segundo os pesquisadores, embora as chuvas extremas tenham sido o gatilho da tragédia, o desastre não foi apenas natural.
As enchentes de 2024 são classificadas como o maior evento hidrometeorológico do Brasil. 478 cidades gaúchas foram atingidas, incluindo 2,4 milhões de habitantes, contabilizando 185 mortes e 23 pessoas que seguem desaparecidas até hoje. Apenas 19 municípios escaparam dos danos. Além das enxurradas, deslizamentos de terra também foram desencadeados com as chuvas.
O estudo “Entendendo a construção do risco: causas raiz do desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul” é assinado por Andressa Ribeiro, Pâmela Herrmann, Clara Strack, Henrique Evers, Lara Caccia e Luis Antonio Lindau e foi realizado pela World Resources Institute (WRI Brasil). A pesquisa contou com participação de diversos pesquisadores de universidades gaúchas.
Segundo o relatório, fatores como ocupação irregular do território, desigualdade social, falhas de governança e priorização do crescimento econômico de curto prazo no lugar de uma agenda socioambiental ampliaram a vulnerabilidade da população e da infraestrutura diante das chuvas extremas.
A pesquisa também sugere que a desigualdade socioeconômica empurrou as populações mais pobres para áreas de risco, como encostas e várzeas, o que explica elas serem as principais vítimas da falta de infraestrutura e de sistemas de proteção social ineficazes.
Outro fator citado é a dificuldade de coordenação entre diferentes prefeituras e outros níveis de governo diante de desastres que ultrapassam limites municipais e envolvem bacias hidrográficas inteiras, como no estado gaúcho.
O relatório ainda menciona o negacionismo climático e a baixa memória social sobre desastres como motivos determinantes para que situações de risco, alertas e políticas de prevenção sejam subestimadas.
Para os autores, compreender como este ciclo de “produção social de riscos” é constituído e como ele atua é imprescindível para evitar novas tragédias de proporções semelhantes. A pesquisa conclui que o desastre “não foi natural”, ainda que o gatilho tenha sido as chuvas e a hidrografia gaúcha.
Confira as 11 causas raiz destacadas pelo estudo:
Desenvolvimento urbano e rural
1. Modelo de ocupação territorial pouco resiliente;
Governança
2.Modelo de desenvolvimento que prioriza a economia sobre pautas ambientais e sociais; 3. Arcabouço legal negligenciado para gestão de riscos; 4. Falta de priorização política da agenda socioambiental; 5. Insuficiência da governança para lidar com a questão climática entre os níveis de gestão; 6. Dualidade entre público e privado;
Condições socioeconômicas
7. Negacionismo climático; 8. Desigualdade socioeconômica e concentração de riqueza; 9. Falta de cultura de prevenção;
Condições físicas e ambientais
10. Variabilidade do clima; 11. Condições geomorfológicas e hidrológicas favoráveis ao desastre.
Entenda mais sobre a pesquisa
O estudo sugere que existe uma “construção social de riscos” e busca explicar esse fenômeno por meio de fatores sociais, econômicos e políticos que contribuem para ampliar tragédias climáticas.
Para isso, o grupo organizou os fatores de risco em três níveis: causas estruturais, chamadas de “causas raiz”; “pressões dinâmicas”, ligadas a decisões e processos de curto e médio prazo; e “condições inseguras”, relacionadas à vulnerabilidade direta da população e da infraestrutura.
As conclusões foram construídas a partir de duas oficinas com 30 especialistas das áreas de clima, governança, história e sociedade.
A primeira reuniu 20 cientistas para mapear os fatores envolvidos no desastre. A segunda contou com 10 especialistas e aprofundou a análise dos resultados.
