Imagine um navio quebra-gelo de 33 mil toneladas avançando sobre uma parede branca de gelo maciço no Ártico. A classe Arktika, do Projeto 22220, foi criada para transformar esse cenário extremo em rota de navegação, usando dois reatores nucleares para abrir caminho onde navios comuns simplesmente ficariam presos.
Por que a Rússia precisou construir o navio quebra-gelo mais poderoso da história?
A resposta está na Rota Marítima do Norte (RMN), o corredor que liga o Atlântico ao Pacífico pelo Ártico russo. A distância entre Rotterdam e Xangai pela RMN é de cerca de 15.000 km, contra 21.000 km pelo Canal de Suez, uma economia de 6.000 km por viagem que representa bilhões de dólares em combustível e tempo de trânsito.
O problema é que a RMN fica completamente bloqueada por gelo durante o inverno ártico. Sem um navio quebra-gelo nuclear mantendo o corredor aberto, toda a vantagem geográfica da rota desaparece. É exatamente para isso que o Projeto 22220 foi concebido.

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As especificações do Projeto 22220 definem uma classe diferente de qualquer navio anterior
Conforme o U.S. Naval Institute, o Projeto 22220 redefine o que um navio quebra-gelo pode ser. Com 173,3 metros de comprimento e 34 metros de boca, o canal aberto por cada unidade é suficientemente largo para que petroleiros de até 32 metros sigam imediatamente atrás, em comboios de até 6 navios mercantes guiados por uma única embarcação.
As especificações técnicas centrais da classe são:
- Dois reatores nucleares RITM-200 com potência térmica de 175 MW cada, totalizando 350 MW térmicos
- Potência de eixo máxima de 80.000 HP, recorde mundial para quebra-gelos
- Velocidade em água aberta de até 22 nós (40,7 km/h)
- Autonomia ilimitada: os reatores operam por 7 anos entre reabastecimentos
- Capacidade de quebra de gelo de até 3 metros em operação contínua
- Tripulação de 75 pessoas, com vida útil projetada de 40 anos
Como o navio quebra-gelo destrói placas de gelo de 3 metros: a física do casco
O método combina dois princípios físicos simultâneos. A proa tem ângulo inclinado para o casco subir sobre a placa de gelo: o peso de 33.530 toneladas esmaga a placa de cima para baixo, técnica chamada de icebreaking by ramming na engenharia naval. O formato curvilíneo do casco abaixo da linha d’água empurra os fragmentos para as laterais, evitando que fiquem presos sob o navio e reduzam a velocidade.
Uma inovação exclusiva do Projeto 22220 é o sistema de lastro de duplo fundo, que permite variar o calado entre 9,03 metros (raso, para estuários siberianos) e 10,5 metros (fundo, para mar aberto). Isso transforma o navio quebra-gelo em uma plataforma que opera tanto na rota oceânica quanto nos deltas dos rios siberianos, algo impossível para todos os seus predecessores.
Os reatores RITM-200: a tecnologia que cabe no navio e está sendo exportada
O coração tecnológico do Projeto 22220 são os reatores RITM-200, desenvolvidos pelo OKBM Afrikantov. Toda a planta primária, incluindo reator, geradores de vapor e bombas de refrigeração, está dentro de um único vaso de pressão, eliminando as longas tubulações externas vulneráveis dos projetos soviéticos anteriores. O volume total é duas vezes menor que o dos reatores de geração anterior com potência equivalente.
A compacidade liberou espaço interno para helideck, hangar e maior volume de carga. Conforme o Arctic Today, o sucesso do RITM-200 foi tamanho que a Rosatom passou a oferecer versões terrestres do reator como usina nuclear de pequeno porte (SMR) para venda a outros países.
A frota em 2026: quatro navios quebra-gelo nucleares em serviço e três em construção
O Projeto 22220 é o maior programa de construção naval nuclear em andamento no mundo. Atualmente, quatro unidades estão em serviço ativo: Arktika (2020), Sibir (2022), Ural (2022) e Yakutia (2024). O Chukotka foi lançado com entrega prevista para 2026, e um sexto navio está em construção com previsão para 2028. Todos são operados pela Atomflot, divisão da Rosatom, com base no porto de Murmansk.
O canal Tecnologia Portuária, com mais de 68,3 mil inscritos, publicou um vídeo de 14 minutos cobrindo como os quebra-gelos funcionam, a física do casco de proa, os três eixos propulsores, a Rota Marítima do Norte e o domínio russo no Ártico, incluindo o Projeto 22220 e o futuro Rossiya:
O Projeto 22220 já está sendo superado pelo Rossiya antes que a frota esteja completa
O próximo navio quebra-gelo nuclear russo vai redefinir todos os recordes atuais. O Projeto 10510, cujo primeiro navio se chamará Rossiya, terá dois reatores RITM-400 com potência térmica de 315 MW cada, contra os 175 MW dos RITM-200. Em maio de 2025, a ZiO-Podolsk, divisão de engenharia da Rosatom, concluiu a fabricação da primeira unidade do reator destinado ao navio.
| Especificação | Projeto 22220 (Arktika) | Projeto 10510 (Rossiya) |
|---|---|---|
| Comprimento | 173,3 metros | 209 metros |
| Reatores | 2x RITM-200 (175 MW cada) | 2x RITM-400 (315 MW cada) |
| Gelo máximo | Até 3 metros | Até 4,3 metros |
| Largura do canal | 34 metros | 50 metros |
Com um canal de 50 metros de largura, o Rossiya permitirá a passagem de navios muito maiores que os atuais, ampliando ainda mais o volume de carga transportável pela Rota Marítima do Norte. A Rússia não está apenas mantendo a supremacia no Ártico: está construindo a infraestrutura para ampliar essa vantagem por décadas.
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