
Documento com mais de 5 mil páginas elaborado pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos aponta que Juscelino Kubitschek pode ter sido assassinado pela ditadura militar — e não vítima de um acidente automobilístico, como sustentado oficialmente desde 1976.
Passaram-se quase cinco décadas desde a tarde de 22 de agosto de 1976, quando o Brasil recebeu a notícia da morte de Juscelino Kubitschek na Via Dutra. Durante todos esses anos, a versão oficial permaneceu praticamente intacta: um acidente automobilístico envolvendo o Opala em que viajava o ex-presidente e um ônibus durante uma tentativa de ultrapassagem. Agora, porém, a história pode sofrer uma de suas maiores reviravoltas desde o fim da ditadura militar.
Um relatório produzido pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), órgão de Estado criado em 1995, concluiu que JK não teria morrido em um simples acidente de trânsito, mas sim sido vítima de uma ação planejada pelo regime militar brasileiro. O documento, elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, possui mais de 5 mil páginas entre textos, depoimentos, perícias e anexos históricos. Embora ainda precise ser aprovado pelos integrantes da comissão para ter validade oficial, o parecer recoloca em debate uma das mortes mais simbólicas da história política brasileira.
Esta informação foi revelada inicialmente pelo jornal “Folha de S.Paulo” e confirmada pela “TV Globo” nesta sexta-feira dia 8 de maio.
Quem foi Juscelino Kubitschek
Juscelino Kubitschek foi o 21º Presidente do Brasil seus mandantos duraram entre 1956 e 1961. Ele entrou para a história como o político que acelerou a industrialização do país e transferiu a capital federal para Brasília. Seu lema “50 anos em 5” representava a ideia de modernizar rapidamente o Brasil, apostando na construção de rodovias, hidrelétricas, fábricas e na abertura da economia para montadoras estrangeiras.
Foi durante seu governo que marcas como Volkswagen, Ford, Willys e General Motors expandiram sua presença no Brasil, transformando o país em uma potência automobilística na América Latina. Brasília, construída em tempo recorde no meio do cerrado, virou símbolo do desenvolvimentismo brasileiro e do sonho de um país moderno.
Mesmo fora da presidência, JK continuava extremamente popular. Após o golpe militar de 1964, teve seus direitos políticos cassados pelos militares e passou anos sendo monitorado pelo regime.
Sua morte aconteceu no contexto da ditadura militar
A morte de JK aconteceu em um dos períodos mais delicados da história brasileira. Embora o AI-5 já não tivesse a mesma intensidade dos anos anteriores, a repressão política ainda era realidade. O regime militar continuava perseguindo opositores, censurando jornais e monitorando figuras consideradas ameaças políticas.
O acidente que acabou vitimando JK ocorreu mais precisamente em 22 de agosto de 1976, quando ele viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro em um Chevrolet Opala, acompanhado do motorista Geraldo Ribeiro. Segundo a versão oficial, o veículo teria sido atingido durante uma manobra na Rodovia Presidente Dutra, perdido o controle, atravessado o canteiro central e colidido frontalmente com um caminhão que trafegava no sentido oposto.

O impacto foi violento e destruiu completamente o automóvel. Juscelino Kubitschek e o motorista morreram no local, sem chance de socorro. Na época, o episódio foi rapidamente classificado como acidente de trânsito pelas autoridades da ditadura militar, que conduziam o país sob forte sensura dos meios ce comunicação..
Durante décadas, essa versão permaneceu como oficial e foi reproduzida em relatórios e registros históricos. Mesmo a Comissão Nacional da Verdade, já no século XXI, Comissões da Verdade de São Paulo e Minas Gerais chegaram a defender a hipótese de atentado político, embora a Comissão Nacional da Verdade tenha mantido a versão de acidente.
Afinal, naquele período, existia um temor real entre os militares de que antigas lideranças civis reorganizassem um movimento pela redemocratização. JK fazia parte da chamada Frente Ampla, ao lado de João Goulart e Carlos Lacerda. Um grupo que reunia políticos e ex presidentes de várias orientações políticas que defendiam eleições livres e o retorno da democracia.
Curiosamente, os três morreram em um intervalo muito curto de tempo.
João Goulart morreu no exílio, na Argentina, em dezembro de 1976, oficialmente vítima de um ataque cardíaco. Juscelino Kubitschek morreu em agosto do mesmo ano e Carlos Lacerda faleceu em 1977, no Rio de Janeiro, em circunstâncias naturais, também após complicações cardíacas.
O papel da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP)
A Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) é um órgão de Estado criado em 1995, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, com a missão de reconhecer vítimas fatais da repressão política no período entre 1961 e 1988. Seu trabalho inclui analisar casos de mortes e desaparecimentos, buscar localização de restos mortais e emitir pareceres oficiais a partir de requerimentos apresentados por familiares.
Ao longo das últimas décadas, a comissão se tornou uma das principais instâncias de reavaliação de casos ligados à ditadura militar. Em alguns deles, ajudou a contestar versões oficiais consolidadas durante o regime, reabrindo investigações e trazendo novas interpretações a episódios históricos sensíveis.
Uma ferida aberta da história brasileira
A possível revisão da morte de JK reacende uma discussão que o Brasil nunca conseguiu encerrar completamente: sua relação com a memória da ditadura militar. Enquanto setores conservadores rejeitam os trabalhos das comissões da verdade, pesquisadores e familiares de vítimas defendem que o país ainda precisa enfrentar partes ocultas de seu passado. Quase 50 anos depois, a morte de Juscelino Kubitschek continua sendo mais do que um caso histórico. Ela se tornou símbolo das sombras que ainda pairam sobre a história política brasileira.
