
Cláudio Castro anuncia compra de helicóptero de guerra e envio de equipe para os EUA
O governo em exercício do Rio de Janeiro suspendeu a compra de um helicóptero Black Hawk para a Polícia Militar após identificar uma série de problemas no processo de licitação e por desconfiar que a aeronave era usada.
ℹ️O Black Hawk é um helicóptero militar multifuncional fabricado nos Estados Unidos pela Sikorsky Aircraft e utilizado por forças armadas e órgãos de segurança de diversos países. Conhecida pela resistência e capacidade operacional em áreas de combate, a aeronave pode ser usada em missões de transporte de tropas, resgate, evacuação médica e ações táticas.
Levantamento realizado pelo g1 nos últimos três meses aponta que ao menos duas empresas que participaram da concorrência eram ligadas a um mesmo empresário: Fernando Carlos da Silva Telles, de 55 anos.
Tico-Tico, como é chamado, é conhecido no meio de prestação de serviços de helicópteros por já ter participado de concorrências e, em alguns casos, suas aeronaves apresentarem problemas para administrações públicas, seja na gestão estadual ou federal.
Fernando Telles aparece no processo de licitação como representante da empresa Flyone. A concorrência para a cessão do Black Hawk foi ganha pela Blue Air. Documento da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mostra que seu sobrinho, Daniel de Sousa Freitas da Silva Telles, é diretor de operações da empresa.
Fernando Carlos da Silva Telles, conhecido como Tico-tico
Reprodução
O Ministério Público Federal apura acidentes ocorridos com aeronaves da Flyone no Acre, quando Tico-tico era responsável pela empresa. O contrato assinado com o governo federal prevê o transporte de alimentos e medicamentos para povos originários.
Até a última atualização desta reportagem, o g1 não havia conseguido contato com Fernando Telles, o Tico-tico, ou com seu sobrinho, Daniel.
R$ 70 milhões
Black Hawk da Força Aérea Brasileira
Divulgação/Força Aérea Brasileira
A aquisição do helicóptero blindado custaria US$ 12,6 milhões ou R$ 70,3 milhões aos cofres estaduais na conversão do dólar no dia que o negócio foi fechado. A justificativa para se adquirir a aeronave era que a polícia precisava de um equipamento com forte blindagem para atuar em áreas conflagradas no Rio de Janeiro.
Após mais de um ano de tramitação da licitação, a empresa Blue Air Táxi Aéreo foi a escolhida para fornecer a aeronave de guerra à PM do Rio.
A Blue Air mantém sedes em um hangar no Aeroporto de Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, e em Alagoas. A empresa atua principalmente nos setores de táxi aéreo e serviços aeromédicos, com aeronaves equipadas para remoção de pacientes em emergências. É assim que ela está registrada na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Como foi o processo
A concorrência começou em 2024, quando o governo do estado decidiu abrir licitação para a compra de um helicóptero blindado para a Polícia Militar.
De acordo com o edital, antes os disparos contra o Caveirão do ar, que é como o helicóptero blindado da PM é chamado, eram “voltados para possibilitar a fuga de criminosos, agora (segundo a corporação) têm o objetivo de abater os helicópteros”, o que pode retirar de uma circulação um equipamento da polícia.
Além disso, a PM considera que a aeronave “oferece grande poder de dissuasão e vantagem tática, aumentando a segurança da tropa e a probabilidade de êxito nas missões”.
De acordo com a corporação, houve um aumento da ordem de 66,6% na quantidade de avarias causadas por disparos de armas de fogo em helicópteros do Grupamento Aeromóvel (GAM) no último ano. Entre 2022 e 2025, todas as avarias ocorreram no helicóptero de matrícula PR-COE, modelo Huey II, o único blindado da frota de 7 aeronaves.
A equipe responsável pela licitação levantou no mercado 15 possíveis modelos de helicópteros blindados. Apenas um era o Black Hawk.
Em 11 de agosto, já durante o andamento do processo, a Polícia Militar realizou uma audiência pública para discutir questionamentos apresentados por empresas interessadas na disputa. Parte das críticas feitas por outras empresas apontava que os requisitos do edital poderiam restringir a concorrência e indicar direcionamento.
Quando a Aeronáutica adquiriu aeronaves Black Hawk, por exemplo, optou por não exigir a licitação, sob a justificativa de que se tratava de um equipamento específico, sem similar no mercado nacional e que apenas a empresa americana ACE Aeronautics seria a única capaz de fornecer esse tipo de helicóptero.
Na audiência promovida pela PM estavam representantes das empresas participantes e integrantes da corporação. Entre os presentes estava Fernando Telles, que assinou a lista de presença como representante da Flyone. A Blue Air, segundo a ata da reunião obtida pelo g1, não enviou representantes ao encontro.
No mês seguinte, a Flyone não apresentou proposta, enquanto a Blue Air surgiu pela primeira vez na concorrência e acabou no fim do ano de 2025 declarada vencedora.
O valor apresentado — pouco mais de US$ 12,6 milhões — chamou atenção por ficar abaixo do preço pago pela Aeronáutica na compra de 11 helicópteros Black Hawk em 2025, quando cada unidade custou, em média, US$ 20,9 milhões.
Ligações suspeitas
A diferença de valores levantou uma suspeita do governo em exercício: a possibilidade de o helicóptero destinado ao Rio ter peças de segunda mão.
Em meio a esse processo licitatório a Ambipar adquiriu a Flyone e, em novembro, demitiu Fernando Telles.
Já em 2026, o representante da Blue Air, Renato Carriço dos Santos, apareceu em vídeo ao lado do ex-governador Cláudio Castro e do secretário da Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes, para anunciar a compra do helicóptero. Na ocasião, Castro comemorou a aquisição da aeronave.
Carriço mora em Cabo Frio, na Região dos Lagos, e trabalhou como controlador técnico de manutenção da Aeronáutica. Entre janeiro de 2000 e agosto de 2025, foi funcionário da Ancoratek Manutenção de Aeronaves, empresa que teve Fernando Telles como proprietário.
A Ancoratek foi investigada pela Marinha após um acidente com um helicóptero na Base Naval de São Pedro da Aldeia, em 2023.
Documentos da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), de 24 de abril, mostram ainda que o atual diretor de operações da Blue Air é Daniel de Sousa Freitas da Silva Telles, de 33 anos, sobrinho de Fernando Telles.
Entre 2013 e 2016, Daniel trabalhou na Flyone. Em 2019, ele entrou para a Polícia Rodoviária Federal (PRF), onde passou a ser piloto a partir de 2021. Em 2024, Daniel entrou de licença da PRF.
Risco operacional
O g1 apurou que há consenso no governo em exercício de que o estado não fará o investimento de R$ 70,3 milhões na compra do Black Hawk.
Apesar do anúncio oficial feito em janeiro, nenhum pagamento pela aeronave havia sido realizado até a última atualização desta reportagem. Uma equipe da Polícia Militar chegou a ser enviada ao Alabama, nos Estados Unidos, para treinamento operacional no modelo. O contrato previa gasto de pouco mais de US$ 1 milhão com a capacitação.
Integrantes da equipe do governador em exercício, o desembargador Ricardo Couto, fizeram um levantamento preliminar e concluíram que nenhum recurso do estado chegou a ser liberado para a aquisição.
Outro argumento usado para justificar a suspensão é a avaliação de que o Black Hawk teria baixa funcionalidade em operações urbanas. Com cerca de quatro toneladas, a aeronave exige áreas maiores para pouso e operação.
Há ainda preocupação com o deslocamento de telhados em comunidades devido à força das hélices durante voos em baixa altitude. O Black Hawk pode ultrapassar os 350 km/h.
Uma comparação entre o Black Hawk e o Caveirão do ar da PM do Rio de Janeiro
Reprodução
O que dizem os envolvidos
Em nota, o Governo do Estado informa que iniciou uma ampla revisão de contratos, integrando o primeiro ciclo de auditoria determinado pelo governador interino, desembargador Ricardo Couto. Entre os casos em análise está a compra do helicóptero militar, modelo Sikorsky UH-60L Black Hawk. Os processos estão sendo examinados sob critérios técnicos e jurídicos e, enquanto passam por análise de conformidade, permanecem suspensos.
A reportagem não encontrou Fernando Telles, seu sobrinho Daniel Telles, diretor de operações da Blue Air, e Renato Carriço, representante da Blue Air.
Em nota, a Polícia Rodoviária Federal afirmou que Daniel Telles o citado tem habilitação como Comandante de Helicópteros. Está licenciado das funções desde 2024 em LIP – Licença para Tratar de Interesse Particular. O servidor ingressou na PRF em dezembro 2019 e piloto desde 2021. Não tem função, está afastado em LIP desde 2024.
