ONG no Rio acolhe mães solo há 20 anos e já ajudou mais de 10 mil mulheres

ONG no Rio acolhe mães solo há 20 anos e já ajudou mais de 10 mil mulheres
Há 20 anos, a ONG Anjos da Tia Stelinha, no Grajaú, Zona Norte do Rio, oferece acolhimento e apoio a mães solo em situação de vulnerabilidade. Ao longo dessas duas décadas, mais de 10 mil mulheres passaram pelo espaço, que oferece assistência social, apoio psicológico, alfabetização, cursos e orientação profissional.
A maior parte das atendidas é formada por mulheres negras, moradoras de comunidades, que criam os filhos sem rede de apoio paterna e convivem com dificuldades financeiras, violência e sobrecarga emocional.
Às vésperas do Dia das Mães, histórias de mulheres acolhidas pela instituição mostram como o projeto ajudou mães a retomarem os estudos, fortalecerem vínculos familiares e reconstruírem perspectivas de vida.
Juliana Oliveira tinha apenas 14 anos quando se tornou mãe pela primeira vez. Hoje, aos 34, cria quatro filhos — todos meninos — e relembra a mudança brusca que viveu ainda na adolescência.
“Minha vida deu uma reviravolta porque eu deixei de ser adolescente, deixei de ser criança para ser mulher”, conta.
Os dois filhos mais velhos não tiveram participação do pai na criação. A principal rede de apoio veio da mãe dela. Como muitas mulheres, Juliana enfrentou sozinha o peso da maternidade, o medo constante de errar e a preocupação de criar filhos em uma comunidade marcada pela violência.
“Criar filho em comunidade é muito difícil, principalmente filho homem. Você fica com medo de perder para o tráfico, para um tiroteio, para uma bala perdida”, diz.
Foi na ONG que Juliana encontrou acolhimento. “Eu entrei aqui sem perspectiva de vida, não queria mais saber de nada. Meu resgate com meus filhos foi aqui dentro dessa ONG”, afirma.
Em uma das salas da instituição, mulheres participam de aulas de alfabetização e preparação para o Encceja, exame para certificação escolar de jovens e adultos.
“Hoje começamos a falar sobre redação porque essa é uma das maiores dificuldades delas”, explica Natieli Alves Ramos, uma das empreendedoras do projeto.
Entre as alunas está Grazielle Maria dos Santos, mãe de três meninas. “Minhas filhas estudam no CAP-Uerj e a demanda lá é bem puxada. Quero me aperfeiçoar para conseguir ajudá-las. Às vezes me sinto perdida pedindo socorro para elas”, conta.
A ONG foi criada pela assistente social Stela Moraes, mãe de cinco filhos. Segundo ela, apesar das trajetórias diferentes, muitas histórias das mulheres atendidas têm pontos em comum.
“Questões de raça, porque trabalhamos com cerca de 90% de mulheres negras; questões de classe, porque são moradoras de comunidade; maternidade, abandono paterno, violência. Tudo isso aparece com frequência”, explica.
Ela diz que o primeiro passo do trabalho é oferecer acolhimento.
“A primeira coisa que a gente faz aqui, e que ninguém faz, é escuta. Depois vem o acolhimento e o reconhecimento daquela mulher como um ser humano que merece cuidado”, afirma.
Foi ali também que Danielle Barcelos de Souza encontrou apoio para criar o filho Miguel, diagnosticado com autismo.
“Eu sempre soube que meu filho era autista desde quando ele nasceu, mas eu não tinha suporte”, lembra.
Hoje, ela diz que aprendeu a lutar pelos direitos do filho. “Se alguém falar alguma coisa, eu viro um leão”, brinca.
Outra mãe acolhida pela ONG foi Liliane Ferreira. Enquanto criava o filho Jhonatan, ela conciliava trabalho e estudos em busca de uma mudança de vida.
“Eu saía do Centro às cinco da tarde e ia para Duque de Caxias fazer o curso técnico de enfermagem”, recorda.
Hoje, Liliane é formada em pedagogia e já traça novos planos. “Quero um bom emprego, quero sair do morro e dar uma vida melhor para o meu filho”, diz.
Para ela, a maternidade é feita de desafios e afeto ao mesmo tempo. “Ser mãe é estar nos momentos difíceis e nos momentos de alegria também. É chorar, sorrir… é tudo junto.”
Depois de duas décadas acompanhando histórias como essas, Stela resume a força das mulheres que chegam à ONG: “O poder de uma mãe é imensurável. A mãe é muito ‘sinistra’. Ninguém para uma mãe.”
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