A queda recente das ações de bancos na Bolsa refletiu uma combinação de fatores: preocupação com a qualidade do crédito, realização de lucros e saída de recursos estrangeiros do mercado brasileiro. A avaliação é de Marco Saravalle, estrategista e colunista da BM&C News, em entrevista ao canal.
Segundo Saravalle, a reação negativa do mercado começou após a percepção de que o aumento de provisões do Bradesco poderia indicar uma piora mais ampla da inadimplência no setor financeiro. No entanto, ele ponderou que o movimento também teve relação com fatores macroeconômicos e com uma realização natural de ganhos depois da valorização recente dos papéis.
“Os dois fatores e acho que também é um movimento natural de realização de lucros”, afirmou Saravalle ao comentar a queda das ações dos bancos.
Ações de bancos no radar: Itaú, Bradesco e Santander tiveram resultados fortes, diz Saravalle
Apesar da pressão sobre as ações, o estrategista destacou que os resultados dos três principais bancos privados, Itaú, Bradesco e Santander Brasil, foram positivos no primeiro trimestre. Na avaliação de Saravalle, o Itaú segue se destacando pela consistência de resultados, rentabilidade e capacidade de distribuição de dividendos.
Ele afirmou que os números do banco reforçam a percepção de que a instituição continua operando com fundamentos sólidos.
“Os resultados foram espetaculares, principalmente do Itaú”, disse o estrategista.
O Bradesco também apresentou números considerados saudáveis, com destaque para a operação de seguros e saúde. Já o Santander, segundo Saravalle, não entregou resultados ruins, embora o mercado siga atento à evolução da carteira de crédito nos próximos trimestres.
A principal preocupação, de acordo com o analista, está menos nos resultados já divulgados e mais nas sinalizações para os próximos períodos.
Os bancos vêm alertando para um cenário de maior desafio na qualidade do crédito, especialmente diante do endividamento das famílias e do comprometimento de renda com juros.
Valor de mercado mostra diferença entre os grandes bancos
Saravalle também comparou o tamanho dos principais bancos privados listados na Bolsa.
O Santander Brasil tinha valor de mercado de cerca de R$ 110 bilhões no fechamento da quarta-feira. O Bradesco, por sua vez, aproximadamente R$ 190 bilhões. Já o Itaú aparecia em patamar muito superior, com valor de mercado acima de R$ 460 bilhões.
A diferença, segundo o estrategista, está relacionada aos fundamentos de cada banco, especialmente ao lucro líquido e à rentabilidade. Ele explicou que bancos com maior capacidade de geração de lucro e maior retorno sobre patrimônio tendem a negociar com múltiplos mais elevados.
No primeiro trimestre, os três bancos somaram pouco mais de R$ 20 bilhões em lucro líquido. O Santander registrou lucro um pouco acima de R$ 3 bilhões, enquanto o Bradesco ficou acima de R$ 5 bilhões. O Itaú teve lucro líquido significativamente superior aos pares, cerca de 3,6 vezes o resultado do Santander e 2,3 vezes o do Bradesco.
Queda dos bancos pode abrir oportunidade para longo prazo
Para Saravalle, a volatilidade recente não deve ser interpretada automaticamente como sinal de deterioração dos fundamentos dos bancos privados. Na visão dele, quedas de papéis de qualidade podem abrir oportunidades para investidores com foco no longo prazo.
“Essas quedas recentes surgem e abrem belíssimas oportunidades”, afirmou.
O estrategista ressaltou, porém, que a avaliação precisa considerar se houve ou não mudança relevante nos fundamentos da companhia. Segundo ele, quando os fundamentos permanecem sólidos, a queda pode ser uma oportunidade de estudar aumento de posição. Mas, quando há piora na expectativa de lucro, o movimento exige mais cautela.
Saravalle citou como exemplo os bancos privados, especialmente o Itaú, como ativos que ainda mantêm fundamentos considerados fortes. No caso do Bradesco, ele também avaliou os resultados como positivos. Para o Santander, demonstrou uma postura mais cautelosa, mas sem classificar os números como ruins.
Banco do Brasil exige mais cautela, avalia estrategista
A análise foi diferente para o Banco do Brasil. Saravalle lembrou que o banco decepcionou em trimestres anteriores, especialmente por causa da inadimplência no agronegócio e das revisões para baixo nas projeções de lucro.
Segundo ele, o Banco do Brasil passou por um processo de deterioração nas expectativas, com redução das estimativas de resultado. O estrategista afirmou que, nesse caso, a queda das ações não deve ser vista automaticamente como oportunidade.
“Agora, o Banco do Brasil não”, disse Saravalle, ao diferenciar o caso do banco estatal em relação a Itaú, Bradesco e Santander.
O analista explicou que, se a expectativa de lucro é revisada para baixo, também tende a haver impacto sobre dividendos e sobre a avaliação do ativo. Para ele, o mercado já trabalha com uma expectativa mais fraca para os próximos resultados do Banco do Brasil, mas ainda pode haver decepções pontuais.
Saravalle avaliou que o resultado do banco deve vir fraco, ainda pressionado por inadimplência, provisões e impactos ligados ao agronegócio e a outros setores da economia.
Bancos digitais e BTG também entram no radar
Ele destacou que alguns bancos digitais e bancos de investimento já alcançaram valor de mercado relevante, em alguns casos superior ao de bancos privados tradicionais conhecidos pelo público brasileiro.
Ao mesmo tempo, o estrategista alertou para a maior volatilidade em ações de bancos digitais, citando movimentos recentes em papéis como Nubank e Banco Inter. Na avaliação dele, o setor ainda é dominado por grandes instituições tradicionais, que possuem operações diversificadas em áreas como seguros, banco de investimento e mercado de capitais.
Setor financeiro segue relevante em carteiras diversificadas
Na conclusão, Saravalle afirmou que, dentro de um portfólio diversificado de ações no Brasil, costuma fazer sentido manter exposição a pelo menos um grande banco.
Ele destacou, no entanto, que investimentos em renda variável envolvem riscos e que o investidor deve avaliar cada caso de acordo com seus objetivos e perfil.
Para o estrategista, o ponto central é separar oscilações normais de mercado de mudanças reais nos fundamentos das companhias.
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