
Sophia Wagner
O recente surto de hantavírus voltou a chamar a atenção para termos que se tornaram amplamente conhecidos durante a pandemia de covid-19: endêmico, epidêmico e pandêmico.
Esses conceitos costumam ser agrupados ou usados de forma incorreta no debate público, mas, na epidemiologia, têm significados precisos. O mais importante é que eles descrevem como uma doença se espalha – e não o quão perigosa ela é. Então, afinal, o que esses termos realmente significam?
Endemia: ameaça constante
Uma doença que ocorre regularmente em certas regiões é chamada de endêmica. No caso de uma endemia, o número de doentes permanece relativamente constante ao longo do tempo.
A incidência da doença é maior numa região do que em outras, mas não aumenta com o tempo. Num certo período, há aproximadamente o mesmo número de novos casos. Um exemplo típico é a malária, que afeta 300 milhões em todo mundo a cada ano, principalmente nos trópicos.
Endêmico não significa inofensivo. Doenças endêmicas podem ser graves ou fatais. A característica que as define não é o impacto sobre os indivíduos, mas sua ocorrência constante e geograficamente limitada.
Epidemia: uma região apenas
Se o número de doentes numa determinada região ultrapassa o nível (endêmico) normalmente esperado, fala-se de uma epidemia. Se os casos de doença são limitados a um local, costuma-se falar de surtos.
Uma epidemia ocorre, por exemplo, quando a virulência de um patógeno específico muda: um vírus sofre mutação e se torna mais contagioso. Uma epidemia também pode ocorrer no caso de enfermidades recém-introduzidas numa determinada área. O pré-requisito neste caso é que uma doença possa ser transmitida entre humanos.
Um exemplo disso é a varíola, que os conquistadores europeus introduziram nas Américas desde o início do século 16. Como a população indígena nunca estivera antes em contato com os patógenos, não tinha qualquer resistência. Algumas projeções afirmam que até 90% da população indígena das Américas foi vítima de varíola.
Pandemia: propagação mundial
Se uma doença se dissemina não apenas regionalmente, mas entre países e continentes, os especialistas se referem a uma pandemia.
Isso significa, acima de tudo, que o controle bem-sucedido da doença depende da cooperação entre os sistemas de saúde de diferentes países. Isso não quer dizer que uma doença seja particularmente perigosa ou letal.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde(OMS) e Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, as pandemias são causadas principalmente por novos patógenos ou tipos de vírus. Por exemplo, podem ser zoonoses, ou seja, doenças transmitidas de animais para humanos.
Se uma doença é nova entre seres humanos, poucos estarão imunes ao vírus. Neste caso, tampouco há vacinas, e o número de enfermos costuma ser alto. O grau de periculosidade ou mortalidade dependerá do vírus específico e do estado de saúde do paciente.
Mesmo que uma doença seja inofensiva na maioria dos casos, em termos percentuais, numa pandemia, o número casos graves pode ser muito alto. Isso ocorre devido à grande quantidade de infecções.
A gripe é o exemplo de uma doença que repetidamente assume proporções pandêmicas. A gripe espanhola de 1918, causou entre 25 milhões a 50 milhões de mortes, muito mais do que a Primeira Guerra Mundial. A gripe suína, H1N1, também desencadeou uma pandemia em 2009.
Mesmo no caso de uma pandemia, áreas isoladas podem ser poupadas da doença, tais como ilhas ou regiões montanhosas. No entanto, o tráfego aéreo favorece a disseminação de pandemias.
“Epidemias” que não são exatamente isso
Os termos epidemia e pandemia normalmente se referem a doenças infecciosas. No entanto, como transmitem a ideia de necessidade de ação urgente, doenças não transmissíveis ou hábitos prejudiciais à saúde às vezes também são chamados de epidemias.
Assim, essas formulações são essencialmente metafóricas, por exemplo, “epidemia de diabetes” ou “epidemia de opioides”.
Um artigo sobre este conteúdo foi publicado originalmente em 18/02/2020. O texto foi atualizado.
Autor: Sophia Wagner
