
Vistoria da defesa Civil condenou 5 casas, após a explosão no Jaguaré
A rotina dos últimos dois dias da atendente Elizabeth Melo, moradora do Jaguaré, na Zona Oeste de São Paulo, se resume hoje a um trajeto repetitivo: hotel, comunidade destruída pela explosão e reuniões com representantes do governo e das concessionárias.
“Minha rotina está do hotel para o lugar da tragédia. Da tragédia para o hotel. Praticamente estou passando o dia aqui”, contou ao g1 nesta quarta-feira (13), assim que chegou à comunidade Nossa Senhora das Virtudes II.
Desde a explosão causada por uma obra da Sabesp que atingiu uma tubulação de gás da Comgás, na segunda-feira (11), Elizabeth, o marido e os filhos vivem em quartos separados de um hotel em Osasco, na Grande São Paulo, enquanto tentam entender o que será feito das casas destruídas e das vidas interrompidas.
A filha dela, de 25 anos, precisou ir para a casa de parentes com a filha pequena para conseguir manter a rotina da escola e do trabalho.
Vistoria nas casas no Jaguaré nesta quarta-feira (13).
Arquivo pessoal
Elizabeth mora há 42 anos no Jaguaré. Cresceu na região, construiu a vida ali e agora teme perder a casa definitivamente.
“Eu já falei: eu quero minha casa. Porque eu moro aqui há 42 anos. Cresci e nasci aqui.” Segundo ela, técnicos já entregaram um laudo apontando a perda total do imóvel.
Na manhã de quarta, o secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Marcelo Branco, informou que a CDHU iniciou o cadastramento das famílias afetadas e fará a intermediação das indenizações junto às concessionárias.
Cerca de 40 imóveis recém-finalizados da CDHU poderão ser disponibilizados para famílias que precisarem deixar suas casas durante as reformas. As unidades ficam em regiões como Raposo Tavares, na Zona Oeste, e no Centro.
As famílias também poderão optar por locação social ou aquisição de outro imóvel por meio de carta de crédito. A escolha da modalidade ficará a cargo dos moradores afetados, segundo o secretário.
Mas a possibilidade de ir para um apartamento não a tranquiliza. “Eu não quero apartamento. Para mim não dá. Eu sempre tive minha vida calma”, diz.
Tarcísio visita moradores do Jaguaré e afirma que ‘não abrirá mão de responsabilizar as concessionárias’ pela explosão.
Reprodução/TV Globo
Responsabilização
Na quarta (13), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) visitou a comunidade e afirmou que o governo estadual vai responsabilizar Sabesp e Comgás pela explosão. Também anunciou planos de reparo dos imóveis e alternativas habitacionais para os moradores atingidos.
Segundo o governo, cinco imóveis terão de ser demolidos, outros 15 passarão por reformas estruturais e cerca de 20 famílias precisarão de atendimento habitacional emergencial.
No fim da tarde, 19 famílias receberam laudos de interdição total dos imóveis pela Defesa Civil. Apesar disso, a maior parte das 232 famílias afetadas pela explosão já foi liberada para voltar para casa.
Não foi o caso da família da produtora Caroline Rodrigues. Segdndo ela, os pais e o irmão estão hospedados em um hotel em Osasco desde a explosão, enquanto ela passou a ficar na casa do namorado.
Segundo ela, a casa da família, localizada na rua acima da explosão, inicialmente não havia sido interditada, apesar de rachaduras, telhado destruído e danos estruturais.
“A gente sabe que a casa está de pé. Mas não tem condição de ficar lá dentro”, afirma.
Ela contou que passou a quarta tentando conseguir novas vistorias técnicas com a Defesa Civil e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Depois de pressão da família, o imóvel acabou interditado, segundo ela, por apresentar rachaduras que “não existiam antes”.
Agora, a família tenta salvar o que restou. “Hoje a gente teve que descer eletrodoméstico, mobília, tudo de casa. A casa está desmontada. Pegamos roupa e vamos sair praticamente com a roupa do corpo”, afirma.
Segundo ela, o cachorro da família continua no imóvel interditado porque ainda não encontraram para onde levá-lo.
“O Balu pode continuar aqui por enquanto, mas a gente precisa tirá-lo.”
Tarcísio afirma que concessionárias serão responsabilizadas por explosão no Jaguaré
Trauma
A explosão aconteceu na tarde de segunda-feira (11), após uma obra da Sabesp atingir uma tubulação de gás da Comgás na Rua Floresto Bandecchi. O acidente matou Alex Sandro Fernandes Nunes, de 49 anos, deixou três feridos e destruiu imóveis da comunidade Nossa Senhora das Virtudes II.
Segundo a Defesa Civil, 19 imóveis seguem interditados e cinco deverão ser demolidos. Além da destruição material, moradores relatam sensação de abandono e trauma.
“A gente sabe muito bem que o que eles querem é resolver rápido, não resolver corretamente”, disse Caroline.
Ela também criticou a demora na resposta ao vazamento de gás antes da explosão. “A gente ficou cinco horas no meio de um vazamento absurdo de gás. Foi assustador.”
Obras suspensas
O governo de São Paulo informou na quarta-feira (13) que mais de 30 obras da Sabesp foram suspensas preventivamente após a explosão no Jaguaré.
Segundo o governador Tarcísio de Freitas, as intervenções foram interrompidas para revisão dos protocolos de segurança em obras que envolvem escavações próximas a redes subterrâneas.
“Existe um protocolo para essas obras em conjunto, sempre que você vai fazer uma obra que envolve escavação e que tem interferência com outras concessionárias, você faz isso em conjunto. Tinha um técnico da Comgás aqui. Tinha marcação no terreno da onde o furo direcional deveria passar e por alguma razão isso não foi feito da maneira correta e a gente teve o acidente”, afirmou.
“Então a gente tá apurando. A gente tem mais de 30 obras dessa natureza acontecendo neste momento, todas foram interrompidas pra que a gente possa revisitar esses protocolos e evitar novos acidentes.”
