
Fachada do anexo do Espaço Petrobras de Cinema
Leonardo Zvarick/g1
O anexo do Espaço Petrobras de Cinema e o Café Fellini, na Rua Augusta, no Centro de São Paulo, foram alvo de uma reintegração de posse iniciada nesta quinta-feira (14). Oficiais de justiça chegaram ao local por volta das 12h com dois caminhões para retirada de móveis e equipamentos.
Quase tudo foi esvaziado, com exceção das duas salas de cinema. Projetores, telões e as poltronas recém-reformadas permanecem no edifício, que ficará trancado, e devem ser retirados depois por uma empresa especializada.
Os responsáveis pelo estabelecimento afirmam que foram pegos de surpresa, pois achavam que ainda teriam prazo para reverter a ordem judicial que autorizou a reintegração:
“A gente estava tentando entrar com um recurso, mas não conseguimos porque eles ainda não tinham publicado essa petição”, disse Patrícia Durães, fundadora do cinema, que funciona no local desde 1995.
A ação foi movida pela incorporadora Rec Vila 15 Empreendimentos Imobiliários, que comprou o imóvel em 2022 e pretende derrubá-lo para erguer um prédio de apartamentos no lugar. Uma liminar de 2024, porém, continua impedindo a demolição.
“Hoje está sendo o pior dia da minha vida. Porque eu sempre acreditei que a gente fosse conseguir ficar”, diz Silvia Oliveira, dona do café Fellini.
“Eu estava abrindo o café, já tinha colocado as mesas no jardim e assado as empanadas e o pão de queijo quando eles chegaram”.
Durães também argumenta que a decisão não levou em conta o reconhecimento do cinema como Área de Preservação Cultural pelo Conpresp. No ano passado, o órgão municipal de defesa do patrimônio definiu que as atividades do cinema e do café devem sem mantidas para garantir sua função cultural (leia abaixo).
Espaço Augusta de Cinema e Café Fellini
Leonardo Zvarick/g1
Demolição do espaço
O imóvel foi vendido em 2022 e, desde então, cinéfilos e frequentadores se mobilizaram contra o fechamento e chegaram a arrecadar mais de 50 mil assinaturas em abaixo-assinado contra a demolição. Em fevereiro de 2023, a Justiça de São Paulo aceitou parcialmente o pedido do Ministério Público de São Paulo em uma ação contra a demolição.
O juiz da 10ª Vara de Fazenda Pública, Otavio Tokuda, concordou em proibir a demolição e a construção de um novo empreendimento imobiliário ou comercial nos edifícios em que funcionavam o cinema e o café. No entanto, ele autorizou a desocupação do local, desde que não haja “qualquer modificação das características arquitetônicas até o pronunciamento administrativo definitivo do Município de São Paulo quanto ao tombamento”.
No início de dezembro de 2024, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), responsável pela preservação do patrimônio histórico no município, havia autorizado a demolição do local.
O órgão tomou a decisão com base em relatório do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-SP) e abstenção dos representantes da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento. A autorização ocorreu mediante o envio de relatório das obras de quatro em quatro meses.
No entanto, a Justiça de São Paulo entendeu que a Via 15 Empreendimentos Imobiliários precisa garantir não apenas a construção de um cinema com fachada ativa, mas também o cumprimento da função cultural do espaço. A demolição, então, foi suspensa em janeiro do ano passado.
Também em abril do ano passado, o mesmo Conpresp decidiu pela preservação do uso cultural da área do espaço, e o local foi enquadrado como Área de Proteção Cultural (Zepec – APC). A análise já durava dois anos.
Ministério Público quer impedir fechamento de cinema e cafeteria na rua Augusta
