
Os pontos de wi-fi gratuitos instalados pela Instituto Conhecer Brasil na periferia de São Paulo.
Reprodução/PMSP
O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) instaurou um inquérito para investigar a suspeita de irregularidades em um contrato de R$ 108 milhões para implantar pontos de wi-fi público firmado entre a Prefeitura de São Paulo e a ONG Instituto Conhecer Brasil, que pertence à sócia da produtora do filme “Dark Horse” sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O acordo entre a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) da gestão Ricardo Nunes (MDB) e a ONG prevê instalação, operação e manutenção de 5 mil pontos de acesso à internet na periferia paulistana pelo prazo de 12 meses.
O Instituto Conhecer Brasil tem como única sócia a empresária Karina Ferreira Gama, que também é sócia única da empresa Go Up Entertainment LTDA, produtora do filme. (Entenda mais abaixo.)
O inquérito foi instaurado pelo promotor Ricardo de Barros Leonel, da Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social, após denúncia do vereador Nabil Bonduki (PT). Segundo o petista, há indícios de irregularidades no chamamento público e na execução do contrato pela empresa de Karina Gama.
O vereador argumenta que o chamamento público teria tido apenas uma participante, o próprio Instituto Conhecer Brasil, e questiona a ausência de concorrência, levantando suspeitas sobre possível direcionamento do processo licitatório.
Em seu site oficial, a ONG se descreve como entidade de “organização e execução de projetos de educação, cultura, turismo, pesquisa e tecnologia”, possuindo expertise no planejamento, coordenação e execução de eventos de grande repercussão nacionais e internacionais”.
Descrição do site do Instituto Conhecer Brasil, contratado pela gestão Ricardo Nunes (MDB) para instalar wi-fi na periferia de São Paulo.
Reprodução/Instituto Conhecer Brasil
A descrição não faz nenhuma menção à experiência na instalação de equipamentos de telecomunicações ou redes de internet e wi-fi público.
A denúncia também foi feita pelo site The Intercept Brasil, que revelou os áudios do senador Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme.
O prazo final de entrega dos 5 mil pontos instalados em favelas e periferias da cidade de São Paulo era junho de 2025, mas até a presente data, a própria prefeitura admitiu que o contrato não havia sido finalizado, instalando apenas 3.200 pontos.
Segundo a apuração do g1, ao menos três aditivos contratuais já foram assinados entre a ONG e a secretaria, mudando as datas de entrega total do serviço.
De acordo com o promotor Ricardo de Barros Leonel, apesar dea secretaria já ter prestado informações iniciais sobre o contrato ao MP-SP e já haver uma investigação do contrato no Tribunal de Contas do Município (TCM), “mostra-se necessário o aprofundamento da apuração, a fim de verificar a eventual ocorrência de atos de improbidade administrativa, enriquecimento ilícito e danos ao erário”.
Cronograma inicial de instalação das redes de wi-fi em São Paulo, segundo o contrato firmado entre a ONG e a Prefeitura de São Paulo.
Reprodução/PMSP
O que dizem as partes
A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia diz que a empresa vai instalar os outros 1.800 pontos até o final de 2026.
“Como já informado ao Intercept no ano passado, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) também informa à TV Globo que a contratação do Instituto Conhecer Brasil para a instalação de 5 mil pontos do WiFi Livre na cidade foi realizada por meio de chamamento público transparente e sem contestações. Todo o processo é público e pode ser consultado”, disse a pasta.
“A organização social cumpriu todas as exigências previstas no edital, e a prestação do serviço está em andamento com 3.200 pontos de Wi-Fi implementados e 1.800 pontos previstos para 2026”, declarou a gestão Nunes.
O g1 procurou a prefeitura de SP e a ONG Instituto Conhecer Brasil para comentarem o inquérito do MP, mas não recebeu retorno até a última atualização dessa reportagem.
O vereador Nabil Bonduki (PT) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Montagem/g1/Juliana Hipólito/Rede Câmara e Fernando Frazão/Agência Brasil
Filme sobre Jair Bolsonaro
Detalhe do cartaz de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro com o ator Jim Caviezel.
Divulgação via BBC
O Instituto Conhecer Brasil também recebeu R$ 2 milhões de emendas parlamentares do deputado federal Mário Frias, que é produtor executivo e roteirista do mesmo filme.
A destinação desse dinheiro é alvo de investigação no Supremo Tribunal Federal (STF), que deu mais um mês para que o parlamentar justifique o dinheiro enviado ao instituto da empresa parceira.
Mario Frias, secretário especial de Cultura do governo federal
Roberto Castro/ Mtur
