Refit: veja o histórico de investigações no grupo empresarial, apontada como o maior devedor de impostos do Brasil


Refit: veja o histórico de investigações no grupo empresarial
A Polícia Federal (PF) colocou nesta sexta-feira (15) o Grupo Refit no centro de uma das maiores investigações sobre fraudes tributárias no setor de combustíveis no país. O empresário Ricardo Magro teve mandado de prisão expedido, e o ex-governador do Rio Cláudio Castro foi alvo de buscas na Operação Sem Refino.
Segundo relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), a PF afirma que Castro atuou “de forma decisiva” para proteger interesses do conglomerado empresarial, investigado por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal bilionária.
A Refit se apresenta institucionalmente como uma refinaria tradicional do Rio de Janeiro. Em seu site oficial, a empresa destaca uma trajetória iniciada em 1954, apenas um ano após a criação da Petrobras. Na época, a companhia ainda se chamava Refinaria de Manguinhos.
Ao longo das décadas, a empresa atravessou períodos de expansão e crise. Em 2005, suspendeu as operações. Três anos depois, em 2008, foi adquirida pelo Grupo Andrade Magro, do empresário Ricardo Magro.
A família Magro era conhecida em São Paulo pela administração da rede de postos Tigrão. Mas, ao comprar uma refinaria praticamente falida no Rio por cerca de R$ 7 milhões, Ricardo Magro passou a apostar em uma operação muito mais ambiciosa.
‘Refinaria fantasma’, segundo a PF
Refit
Reprodução/TV Globo
De acordo com as investigações, a Refit foi transformada em uma espécie de “refinaria fantasma”. A PF sustenta que a empresa praticamente não refinava combustíveis, mas mantinha operações que teriam provocado prejuízos bilionários aos cofres públicos, especialmente dos estados do Rio e de São Paulo.
O esquema investigado envolve suspeitas de sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. Segundo os investigadores, o modelo só teria funcionado graças ao apoio de agentes públicos.
Em setembro de 2025, a Agência Nacional do Petróleo interditou a refinaria após investigações apontarem que a empresa importava gasolina declarando o produto como óleo bruto, o que reduziria o pagamento de impostos.
A PF também identificou indícios de operações simuladas para dificultar o rastreamento dos verdadeiros donos das cargas de combustível.
As suspeitas sobre a proximidade entre a Refit e o governo estadual já vinham sendo levantadas havia anos.
Em novembro de 2023, a exoneração do então procurador-geral do estado, Bruno Dubeux, chamou atenção nos bastidores políticos. À época, a Procuradoria-Geral do Estado havia firmado um acordo para que a Refit parcelasse uma dívida estimada em R$ 8 bilhões com o Rio.
O pagamento, porém, nunca foi realizado.
No ano seguinte, em 2024, divergências internas no Instituto Estadual do Ambiente também expuseram pressões relacionadas à refinaria. Técnicos do órgão apontaram risco de contaminação ambiental e resistiram à renovação da licença da empresa. Em meio à crise, quatro servidores acabaram exonerados.
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Maior devedor do Brasil
A situação financeira do conglomerado também colocou a Refit no radar da Receita Federal. Em 2025, o grupo passou a ser classificado como “devedor contumaz” — categoria usada para empresas que utilizam a inadimplência tributária como estratégia permanente de negócio.
Segundo o Ministério da Fazenda, as dívidas acumuladas pelas empresas do conglomerado chegam a R$ 52 bilhões, o maior passivo tributário do país.
No Rio, a Refinaria de Petróleos de Manguinhos aparece como a segunda maior devedora do estado, atrás apenas da Petrobras. Dados mais recentes da Procuradoria-Geral do Estado apontam dívida superior a R$ 14 bilhões.
Operações da PF e suspeita de ligação com o PCC
A Refit também entrou na mira da Operação Carbono Oculto, que investigava uma rede de empresas suspeitas de ajudar o Primeiro Comando da Capital (PCC) a lavar dinheiro, o que a empresa nega.
Em novembro de 2025, a PF voltou a cumprir mandados de busca contra pessoas e empresas ligadas ao conglomerado em uma ofensiva contra fraudes tributárias, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
As investigações chegaram ainda ao Judiciário fluminense. Em março deste ano, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) afastou o desembargador Guaraci Vianna após decisões consideradas controversas no processo de recuperação judicial da refinaria.
Segundo investigadores e representantes do setor, o modelo de negócios da Refit teria provocado desequilíbrios relevantes no mercado de combustíveis.
O presidente do Instituto Combustível Legal, Emerson Kapaz, afirmou nesta sexta-feira que o avanço do crime organizado no setor ocorre porque o mercado movimenta volumes financeiros maiores do que o tráfico internacional de cocaína.
“O crime organizado entrou no setor porque fatura três vezes mais do que fatura com cocaína. Dentro do setor de combustíveis, o crime organizado fatura R$ 62 bilhões. Em cocaína, segundo o Fórum Nacional de Segurança Pública, eles faturam R$ 22 bilhões”, disse Kapaz à GloboNews.
O dirigente afirmou ainda que o crime organizado deixou de atuar apenas nas prisões e passou a operar diretamente em setores da economia formal.
“Eu falo que nós não temos mais crime organizado, nós temos a ‘economia do crime’ hoje. Esse pessoal cresceu primeiro nas prisões e agora está se alimentando no setor econômico. É no setor econômico que eles estão faturando uma fortuna de dinheiro — e principalmente em combustíveis, onde você tem uma massa financeira muito grande”, afirmou.
Kapaz diz que o instituto já havia pedido a falência da Refit à Justiça, a partir dos indícios de crimes praticados pela refinaria. “Apesar de a gente ver esses escândalos, os avanços são grandes. Então tudo isso está mudando”, ponderou.
O que dizem os citados
A defesa do ex-governador Cláudio Castro declarou que ele está “à disposição da Justiça para dar todas as explicações, convicto de sua lisura”. Os advogados afirmaram ainda que todos os procedimentos adotados durante a gestão obedeceram a critérios técnicos e legais.
A defesa acrescentou que a administração Castro “foi a única a conseguir que a Refinaria de Manguinhos pagasse dívidas com o estado”, o que, segundo os representantes do ex-governador, reforça sua postura “isenta e institucional”.
Já a Refit informou que as questões tributárias envolvendo a companhia estão sendo discutidas na Justiça. A empresa afirmou que a atual gestão herdou dívidas fiscais de administrações anteriores e vem adotando medidas para regularizar os pagamentos.
Segundo a refinaria, mais de R$ 1 bilhão já foi pago ao Estado do Rio no último ano. A empresa declarou ainda que as operações contra a companhia “prejudicam a concorrência” e negou ter falsificado declarações fiscais para obter vantagens tributárias.
A Refit também negou “veementemente” ter fornecido combustível ao crime organizado e afirmou que sempre atuou denunciando postos ligados a facções criminosas.
A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro informou que está colaborando com a operação, mantém cooperação permanente com os órgãos de segurança e que o caso é acompanhado pela corregedoria.
A reportagem não conseguiu contato com as defesas dos outros citados.
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