Jerome Powell assumiu a presidência do Federal Reserve em 2018. Mas sua trajetória no banco central dos Estados Unidos começou antes: em 2012, quando foi indicado por Barack Obama para ocupar uma cadeira no Board of Governors. Depois, foi escolhido por Donald Trump para comandar o Fed e reconduzido por Joe Biden em 2022.
Essa sequência ajuda a explicar por que Powell se tornou uma figura rara em Washington: atravessou governos de partidos diferentes, crises profundas e uma das fases mais delicadas da política monetária americana recente. Seu mandato como presidente do Fed chegou ao fim nesta sexta-feira (15), após o segundo período de quatro anos iniciado em 2022. No entanto, Powell deve continuar como membro do Conselho de Governadores até 2028.
Jerome Powell: um presidente atípico
Powell nunca foi o típico presidente do Fed. Advogado de formação, com passagem pelo mercado financeiro e pelo Tesouro americano, ele chegou ao banco central sem o perfil acadêmico clássico de outros nomes que ocuparam o cargo. Essa característica moldou sua imagem: menos teórico, mais pragmático.
No início da presidência, o cenário parecia administrável. A economia americana crescia, os juros ainda eram baixos e o Fed tentava normalizar a política monetária depois dos anos de estímulo criados na esteira da crise financeira de 2008.
Mas a relação com Trump rapidamente se desgastou. Já em 2018, o então presidente americano criticava publicamente as altas de juros e dizia não estar satisfeito com Powell.
A pandemia de Covid-19
O grande teste, porém, veio em 2020. Com a pandemia de Covid-19, a economia global parou. Empresas fecharam, o consumo caiu e os mercados entraram em pânico. Sob Powell, o Fed cortou juros para perto de zero, ampliou compras de ativos e criou linhas emergenciais de crédito para sustentar o sistema financeiro.
O objetivo era evitar que uma crise sanitária se transformasse em uma crise financeira de grandes proporções. No curto prazo, funcionou. Os mercados se estabilizaram, a economia reagiu e o emprego voltou. Mas a resposta agressiva também deixou uma herança: muito dinheiro circulando, crédito barato e uma demanda que voltou mais rápido do que a oferta.
Foi nesse ponto que nasceu o maior erro atribuído à gestão Powell pelos críticos. Quando os preços começaram a subir, o Fed sustentou por tempo demais a leitura de que a inflação era transitória. A avaliação era que os choques viriam da reabertura da economia e dos gargalos nas cadeias produtivas.
Mas a inflação ganhou força, espalhou-se por setores e se mostrou mais persistente.
A resposta
A resposta veio em 2022. Em março daquele ano, o Fed iniciou o ciclo de alta de juros, reconhecendo o ambiente de inflação elevada e mercado de trabalho apertado. Powell afirmou, na ocasião, que novos aumentos seriam apropriados para cumprir os objetivos de estabilidade de preços e máximo emprego.
A partir dali, o banco central americano mudou de direção. O dinheiro deixou de ser barato, o crédito ficou mais caro e a política monetária passou de estímulo para aperto. O objetivo era frear a inflação sem quebrar a economia.
Esse é o ponto que torna a trajetória de Powell mais complexa. O erro de diagnóstico sobre a inflação existe e segue no centro do debate. Mas o resultado final ainda desafia leituras simplistas: a economia americana não colapsou, o mercado de trabalho resistiu e a recessão profunda esperada por muitos não se confirmou até aqui.
O legado de Jerome Powell
Powell chega ao fim do ciclo com uma marca ambígua. De um lado, foi criticado por reagir tarde à inflação. De outro, conduziu um dos apertos monetários mais agressivos das últimas décadas sem provocar uma quebra clara da atividade econômica.
No fim, o legado de Powell talvez não esteja em uma decisão isolada. Está no conjunto: pandemia, inflação, juros, pressão política e defesa da independência do Fed. A pergunta não é apenas se ele errou. A pergunta é quantos erros um gestor pode cometer e ainda assim manter o sistema funcionando.
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