Cidadãos íntegros estão à mercê de uma casta que, volta e meia, aproveita seus momentos de poder e exercem exageros para mostrar quem manda. São as pequenas autoridades: seguranças, bedéis, fiscais de transporte, guardas de trânsito e por aí vai. Evidentemente, a maioria dessas categorias é composta por pessoas de bem. Mas há uma minoria que compromete a imagem destes profissionais: pessoas amargas que descontam suas frustrações pessoais no próximo.
O mundo politicamente correto e a cultura woke são o cenário perfeito para que essas figuras abjetas ganhem ainda mais poder dentro de seus pequenos universos. No afã de humilhar ou atacar desafetos, lançam mão de uma arma óbvia, que se repete: acusar o outro lado de preconceitos absurdos.
Há, é claro, aqueles que merecem a acusação. Mas existem também os que são apenas vítimas da maldade alheia. Sejamos diretos: há gente boa e gente ruim em todos os extratos da sociedade. Portanto, alguém pode pertencer a uma minoria e ser mentiroso e (por que não?) preconceituoso.
Não é à toa, portanto, que o vice-presidente Pedro Aleixo se recusou a assinar o autoritário Ato Institucional número 5 em 1968, aquele dispositivo do governo militar que esvaziava as liberdades individuais e dava plenos poderes a todas as forças policiais e militares para prender supostos subversivos. Aleixo foi questionado pelo presidente Arthur Costa e Silva pela recusa em assinar o AI-5: “Você não confia em mim?”, perguntou o mandatário. “No senhor eu confio”, respondeu Aleixo. “Eu não confio é no guarda da esquina”.
A tentação autoritária dessas figuras cresce quando encontram respaldo cultural para agir sem freios. Em ambientes nos quais a suspeita permanente é tratada como virtude e qualquer conflito vira palco para disputas morais, pequenos poderes se ampliam artificialmente. O vigia que se sente juiz, o fiscal que se imagina delegado, o segurança que se comporta como xerife: todos se beneficiam de um clima social que recompensa a vigilância excessiva e pune a discordância. Nesse cenário, cidadãos íntegros acabam submetidos a interpretações arbitrárias, humores instáveis e decisões tomadas no calor do momento, sem o menor bom senso.
Essas distorções se agravam quando instituições e empresas, temendo repercussões públicas, preferem apoiar automaticamente o agente que acusa em vez de investigar com serenidade. A lógica do “melhor prevenir do que remediar” transforma-se em “melhor punir do que apurar”. Dessa forma, pequenos conflitos cotidianos ganham dimensões desnecessárias. O resultado é um ambiente em que a palavra de quem detém o micropoder vale mais do que a de quem apenas tenta seguir sua vida. Neste jogo, o cidadão comum tem tudo a perder; a pequena autoridade, nada.
O problema não está na existência dessas funções, que são essenciais para o funcionamento da vida urbana. A questão maior existe na falta de mecanismos que coíbam abusos e responsabilizem quem ultrapassa limites. Quando não há supervisão adequada, treinamento contínuo ou cultura institucional que valorize equilíbrio e respeito, abre-se espaço para que frustrações pessoais se convertam em arbitrariedades.
É por isso que a advertência de Pedro Aleixo permanece atual. O risco não está apenas nos grandes atos de exceção, mas na soma de pequenas decisões tomadas por quem exerce poder sem preparo, sem escrutínio e sem consciência de seus limites. O guarda da esquina continua sendo uma metáfora poderosa: representa o indivíduo comum investido de autoridade que, se não for contida por regras claras e valores sólidos, pode transformar a vida de pessoas inocentes em um tormento silencioso.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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