UFJF pede desculpas por uso de corpos do Hospital Colônia em MG

Pacientes do Hospital Colônia em Barbacena (MG), local marcado por violações de direitos humanosLivro Holocausto Brasileiro

A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) publicou nesta segunda-feira (18), Dia Nacional da Luta Antimanicomial, uma carta aberta em que pede desculpas públicas pelo uso de cadáveres de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena (MG) em atividades acadêmicas entre as décadas de 1960 e 1980.

A retratação marca um novo capítulo nas discussões sobre as violações de direitos humanos cometidas no antigo hospital psiquiátrico mineiro, conhecido nacionalmente após denúncias reunidas no livro “Holocausto Brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex.

Na carta, assinada pela reitora Girlene Alves da Silva e pelo vice-reitor Telmo Ronzani, a universidade reconhece que a prática “aviltou os corpos e a dignidade das pessoas falecidas no Hospital Colônia de Barbacena” e afirma assumir o compromisso de adotar medidas de reparação simbólica.

A publicação ocorre cerca de um mês após a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) também formalizar um pedido público de desculpas pelo recebimento de corpos de internos do hospital psiquiátrico.

Segundo registros internos do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFJF, a universidade recebeu 169 corpos vindos do Hospital Colônia entre 1962 e 1971 para aulas de anatomia nos cursos da área da saúde. Já o levantamento citado por Daniela Arbex aponta o recebimento de 67 cadáveres pela instituição entre 1969 e 1981.

Na carta, a UFJF reconhece que, durante décadas, pessoas com sofrimento mental foram tratadas com abandono, preconceito e violência no Brasil.

A universidade afirma que muitos pacientes eram vistos pela sociedade como perigosos ou incapazes e, por isso, acabavam isolados em hospitais psiquiátricos, afastados do convívio social e submetidos a tratamentos desumanos.

Segundo o texto, esse pensamento fez com que práticas de exclusão e confinamento fossem aceitas por parte da sociedade durante muitos anos.

Confira o vídeo publicado no perfil da UFJF, onde o Vice-reitor Telmo Ronzani fala sobre a carta:

Reparação e memória

A universidade também anunciou uma série de medidas voltadas à reparação e à preservação da memória das vítimas. Entre elas estão campanhas de conscientização sobre direitos humanos e saúde mental, realização de eventos sobre o tema, apoio à criação de um memorial e ampliação da discussão sobre violações históricas nos cursos da área da saúde.

Além disso, a instituição informou que pretende sistematizar pesquisas documentais sobre as relações entre a UFJF e o Hospital Colônia.

O vice-reitor Telmo Ronzani afirmou que a publicação da carta busca estabelecer um marco simbólico e reforçar o compromisso da universidade com uma formação ética na área da saúde.

Imagem de arquivo mostra pacientes do Hospital Colônia de BarbacenaLuiz Alfredo

A jornalista Daniela Arbex, autora do livro “Holocausto Brasileiro”, já havia classificado o pedido de desculpas feito pela UFMG, em abril, como um marco histórico.

Para Arbex, o reconhecimento institucional é fundamental para evitar que violações semelhantes sejam esquecidas.

Pedido de desculpas amplia pressão sobre universidades

O posicionamento da UFJF ocorre em meio à pressão de movimentos da luta antimanicomial para que outras instituições que receberam cadáveres do Hospital Colônia também reconheçam publicamente a participação no episódio.

Além da UFMG e da UFJF, ao menos outras 15 instituições de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo foram citadas em levantamentos sobre o recebimento de corpos para estudos anatômicos.

O Ministério Público Federal em Minas Gerais acompanha o caso e atua junto a universidades e movimentos sociais para discutir medidas de reparação histórica, preservação da memória das vítimas e ações educativas relacionadas à saúde mental e aos direitos humanos.

O que aconteceu no Hospital Colônia

Pavilhão do Hospital Colônia de Barbacena Arquivo Público Mineiro

Fundado em 1903, em Barbacena, o Hospital Colônia se tornou um dos maiores símbolos de violação de direitos humanos no Brasil.

Ao longo do século XX, cerca de 60 mil pessoas morreram na instituição, vítimas de abandono, fome, frio, doenças, violência e maus-tratos, segundo levantamento reunido pela jornalista Daniela Arbex.

Grande parte dos internos sequer possuía diagnóstico de doença mental. Entre os pacientes estavam pessoas pobres, negras, mulheres consideradas “indesejáveis”, homossexuais e indivíduos marginalizados socialmente.

Os pacientes viviam em condições degradantes, submetidos à superlotação, falta de higiene, alimentação insuficiente e práticas violentas, como eletrochoques em massa.

Muitos chegavam ao hospital em vagões de carga ferroviários conhecidos como “trens de doido”. 

As investigações de Daniela Arbex apontam que, entre 1969 e 1981, 1.853 cadáveres de internos foram comercializados para instituições de ensino médico sem autorização das famílias.

Como funciona hoje a doação de corpos na UFJF

A UFJF informou que não recebe mais corpos classificados como indigentes há cerca de 20 anos.

Desde 2010, o Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biológicas passou a aceitar apenas corpos de pessoas que autorizaram formalmente, ainda em vida, a doação para fins de ensino e pesquisa.

A universidade mantém desde 2013 o programa de doação voluntária “Sempre Vivo”, criado para atender às normas éticas atuais.

Segundo a coordenadora do projeto, professora Alice Resende, o modelo foi implementado em substituição ao antigo sistema de recebimento de corpos não reclamados.

De acordo com a UFJF, o contato com o corpo humano continua sendo considerado importante para a formação técnica e ética de profissionais da saúde, mas hoje ocorre mediante autorização prévia dos próprios doadores.

A universidade também afirma promover ações de conscientização junto à sociedade e aos estudantes sobre a importância da doação voluntária de corpos em conformidade com as normas legais e com o respeito à dignidade humana.

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