No Meio-Oeste de Santa Catarina, a 425 km de Florianópolis, Treze Tílias guarda a herança de 85 imigrantes tiroleses que desembarcaram em 1933 sob a liderança do ex-ministro da Agricultura da Áustria. A 796 metros de altitude, a vila de cerca de 9 mil habitantes preserva o dialeto, a arquitetura alpina e a Tirolerfest, festa que comemora a fundação desde 1934 e atrai visitantes do mundo inteiro.
A colônia que um ex-ministro austríaco plantou no Brasil
A história começa do outro lado do Atlântico. Em 8 de setembro de 1933, 85 imigrantes tiroleses embarcaram no navio Principessa Maria com destino ao porto de Santos, liderados pelo ex-ministro da Agricultura da Áustria, Andreas Thaler. O país europeu enfrentava uma crise generalizada após a Primeira Guerra Mundial, e Thaler procurava terras com clima e relevo parecidos com os Alpes.
Em 13 de outubro daquele ano, o grupo desembarcou no interior catarinense. Thaler batizou a colônia de Dreizehnlinden, inspirado no poema épico de Friedrich Wilhelm Weber que exaltava a tília, árvore símbolo da Áustria. Entre 1933 e 1938, mais de 780 imigrantes austríacos chegaram à região, segundo registros oficiais reunidos pela Prefeitura de Treze Tílias.
A maioria veio dos estados austríacos do Tirol, Vorarlberg e Alta Áustria. Trouxeram o idioma, as receitas alpinas, a técnica de entalhe em madeira e a arquitetura de telhados íngremes. A Banda dos Tiroleses, criada ainda dentro do Principessa Maria, completa 93 anos em outubro de 2026 e é uma das mais antigas do Brasil.

Por que esta vila tem PIB per capita comparável ao de países desenvolvidos?
Os números explicam por que tantas famílias escolhem viver no destino catarinense. O PIB per capita chegou a R$ 135.979,77 em 2023, segundo dados oficiais do portal Cidades. A taxa de escolarização entre crianças de 6 a 14 anos foi de 99,42%, e a mortalidade infantil ficou em 6,71 por mil nascidos vivos no mesmo ano, índices comparáveis aos de países desenvolvidos.
A economia combina turismo cultural com a indústria de laticínios. O município é o berço da marca Tirol, fundada em 1974 pelo padre Küng, uma das principais indústrias da região e responsável por parte significativa da arrecadação municipal. Há 1.513 empresas ativas, das quais 465 são ligadas ao turismo.
A vila também acumula indicadores fortes em outros rankings. O município figura entre os melhores do Brasil em IDHM Renda, ocupando a 21ª posição nacional. As ruas limpas, a baixa criminalidade e o atendimento próximo entre vizinhos compõem o pacote que atrai novos moradores em busca de qualidade de vida.

A vila com consulado próprio e selo internacional
O reconhecimento internacional vem por dois caminhos. Desde o fim dos anos 1970, Treze Tílias abriga um consulado honorário da Áustria, que emite passaportes, providencia vistos e orienta descendentes na obtenção da dupla cidadania europeia. Muitos jovens viajam para morar e estudar na Áustria e, ao retornarem, reinvestem o conhecimento e os recursos adquiridos no município.
Em outubro de 2024, o destino catarinense foi selecionado entre as 14 destinações brasileiras premiadas no Top 100 Stories da Green Destinations, organização holandesa que reconhece boas práticas em turismo responsável. Entre os pontos essenciais para conhecer a vila europeia do oeste catarinense estão:
- Castelinho Andreas Thaler: museu municipal construído em 1936 pelo arquiteto Bruno Kracher, inspirado na Escola Agrícola de Rotholz, no Tirol austríaco. Foi residência do fundador e hoje preserva mobiliário, utensílios e biblioteca de época.
- Praça Ministro Andreas Thaler: jardim em desnível entre a igreja e a prefeitura, com chafariz em cascata e monumento ao fundador. Sempre florida, funciona como palco para apresentações culturais.
- Parque Lindendorf: complexo de 45 mil m² com minicidade que reproduz Treze Tílias em maquete, lago com peixes coloridos, minizoológico e restaurante de comida típica com apresentações folclóricas.
- Igreja Matriz Nossa Senhora do Perpétuo Socorro: construção em estilo alpino com santos, bancos e portas entalhados à mão pelos artesãos da cidade. Fica no ponto mais alto do centro.
- Águia do Tirol: monumento inaugurado em 2017 em homenagem aos imigrantes austríacos, símbolo de força e determinação dos pioneiros tiroleses.
Quem deseja descobrir um pedaço da Áustria no coração de Santa Catarina, vai curtir este vídeo especialmente selecionado do canal Praia ou Serra, que já conta com mais de 400 mil visualizações, onde é apresentado um passeio completo por Treze Tílias, a cidade mais austríaca do Brasil:
A Capital Catarinense da Escultura em Madeira
A arte do entalhe desembarcou junto com os primeiros colonos. No inverno rigoroso da serra catarinense, as famílias se dedicavam a esculpir pedaços de madeira nos porões aquecidos das casas. Andrä Thaler, filho do fundador, dividiu o trabalho na lavoura com a pintura e a escultura, formando uma linhagem de artistas que projetou o município no cenário nacional.
A obra de maior repercussão é o Cristo esculpido por Gotfredo Thaler para a Igreja Dom Bosco, em Brasília. O reconhecimento rendeu à vila o título oficial de Capital Catarinense dos Escultores e da Escultura em Madeira. Hoje, os ateliês espalhados pelo centro produzem desde arte sacra até móveis, brasões e peças colecionáveis vendidas para o Brasil inteiro.
A gastronomia tirolesa que atravessou o Atlântico
A cozinha local mantém receitas alpinas transmitidas por gerações. Os 25 estabelecimentos de culinária tradicional servem pratos com ingredientes da produção local de leite e embutidos. Entre os sabores que merecem parada:
- Schnitzel: bife de porco empanado e frito, prato-símbolo da culinária austríaca, servido com batatas e salada.
- Knödel: bolinho de pão típico dos Alpes, acompanha carnes, sopas e ensopados nos restaurantes do centro.
- Apfelstrudel: torta folhada de maçã com canela, servida quente com nata fresca ou sorvete. Imperdível nas confeitarias da vila.
- Cervejas artesanais locais: a Bierbaum lidera o circuito, seguida pela Pubi Bier e pela Trezetiliense, produzidas nos estilos Pilsen, Weiss, Bock e Vienna.
- Embutidos e queijos da Laticínios Tirol: a marca local fundada em 1974 abastece supermercados de todo o país com receitas trazidas pelos imigrantes.
A Tirolerfest que celebra a fundação há 92 anos
A maior festa da imigração austríaca no Brasil acontece em outubro. A Tirolerfest comemora a fundação da colônia em 13 de outubro de 1933 com desfiles típicos, danças folclóricas, gastronomia tirolesa e música ao vivo. A edição de 2025 marcou os 92 anos da chegada dos pioneiros tiroleses.
O calendário cultural movimenta o destino o ano todo. Em 2025, a vila recebeu cerca de 64 mil turistas hospedados na rede hoteleira, alta de 63,6% em relação ao ano anterior, segundo dados da Secretaria de Cultura e Turismo do município. Entre os estrangeiros, vieram visitantes da Argentina, Áustria e Paraguai.
Quando o clima ajuda os passeios em Treze Tílias?
A altitude de 796 metros garante invernos rigorosos e verões amenos no interior catarinense. O inverno é a alta temporada, com mínimas próximas de 0°C e máximas em torno de 18°C, ideais para fondue e cervejarias. A média mensal de chuva em dezembro é de 198 mm, segundo dados do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos.

Verão
17°C a 29°C
CHUVA ALTA
Outono
12°C a 24°C
CLIMA AMENO
Inverno
2°C a 18°C
ALTA TEMPORADA
Primavera
10°C a 25°C
EVENTO FAMOSOTemperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Áustria Brasileira
O acesso é feito exclusivamente por rodovias. De Florianópolis, o trajeto de cerca de 425 km percorre as BR-282 e SC-303, com duração média de 6 horas. O aeroporto mais próximo é o de Chapecó, a aproximadamente 130 km. A cidade integra a Rota da Amizade, roteiro turístico que conecta municípios de imigração europeia no Vale do Contestado.
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Suba a serra e conheça a colônia que ainda fala tirolês
O destino catarinense reúne em poucos quarteirões consulado europeu próprio, selo internacional de turismo sustentável, gastronomia alpina autêntica e a única vila brasileira que ainda celebra a imigração austríaca há mais de 90 anos. Tudo isso a 796 metros de altitude, em um clima que lembra os Alpes.
Você precisa subir a serra catarinense e descobrir por que a Áustria Brasileira continua falando tirolês quase um século depois da chegada de seu fundador.
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