Como crescer no Brasil em meio a juros altos e crédito restrito

O Brasil segue como um ambiente desafiador para a atividade empresarial, marcado por juros elevados, crédito restrito, incertezas regulatórias e aumento de custos operacionais. Em entrevista ao Mercado & Beyond, da BM&C News, o empresário Paulo Morais afirmou que crescer nesse cenário exige uma análise racional sobre retorno do capital, capacidade de execução e consistência do modelo de negócio.

Na avaliação do executivo, o empreendedor precisa comparar o retorno esperado da atividade produtiva com o custo do capital empregado. Em um país de juros altos, negócios que conseguem preservar geração de caixa e entregar retorno acima da inflação tendem a ganhar vantagem competitiva, especialmente quando outros players reduzem investimentos por receio do cenário.

“Analisar negócios que podem pensar em investimento e crescimento tem que ser aquele que de fato você olhe em termos de retorno do capital empregado acima da taxa de inflação”, avalia Paulo Morais.

Juros altos mudam a lógica da expansão

Paulo Morais afirmou que a alavancagem continua sendo uma ferramenta possível para financiar crescimento, mas ressaltou que o Brasil exige uma postura mais conservadora. Segundo ele, empresas que se apoiaram na expectativa de juros estruturalmente baixos ficaram mais expostas quando o custo financeiro voltou a subir.

O empresário citou sua experiência na Espaçolaser para explicar que o endividamento pode ajudar uma companhia a ganhar escala, desde que esteja dentro da capacidade de geração de caixa. Para Morais, o problema surge quando o serviço da dívida passa a consumir recursos que deveriam sustentar a operação, a expansão e a amortização do principal.

“No Brasil, uma alavancagem saudável não deve passar de uma vez a geração de caixa. O ideal é ficar entre 0,7 e 0,8 vez”, afirma Paulo Morais.

Franquias ganham espaço como alternativa de capitalização

Nesse contexto, o modelo de franquias aparece como uma alternativa para financiar crescimento sem depender exclusivamente de bancos ou da entrada de novos sócios no capital. Morais afirmou que, no varejo, esse formato pode acelerar a ocupação de território, fortalecer marcas e reduzir a pressão sobre o balanço da franqueadora.

Segundo o empresário, a franquia permite combinar capital de terceiros, presença local e gestão empreendedora na ponta. Ainda assim, ele ressaltou que o modelo só funciona quando há estratégia definida, margem suficiente para remunerar o franqueado e capacidade real de transferência de conhecimento pela franqueadora.

“O modelo de franquia do jeito que eu estou dizendo aqui passa a ser uma estratégia da companhia. É lógico que a estratégia só funciona se ela é bem executada”, destaca Paulo Morais.

Execução separa negócios consistentes de boas ideias

Para Morais, boas ideias não sustentam empresas sozinhas. A diferença entre um projeto promissor e uma companhia capaz de crescer está na execução diária, com processos, indicadores, metodologia e disciplina operacional. Essa visão, segundo ele, vale para varejo, indústria, serviços e qualquer outro setor.

O empresário afirmou que todo negócio precisa estar apoiado em dois pilares essenciais: vendas e qualidade da entrega. No caso da Espaçolaser, ele disse que acompanhava diariamente indicadores como volume de leads, conversão, revenda e satisfação do cliente, com reação rápida sempre que algum dado ficava abaixo do patamar esperado.

“Uma boa ideia, um bom conceito, ele só é bom de verdade se for bem executado, porque boas ideias, quando não são bem executadas, se tornam às vezes péssimas ideias”, diz Paulo Morais.

Cliente, percepção de valor e correção de rota

Outro ponto destacado pelo empresário foi a necessidade de ouvir o cliente de forma sistemática. Para Morais, muitos negócios são construídos em planilhas com premissas positivas, mas enfrentam dificuldades quando chegam ao ponto de venda e encontram uma percepção diferente por parte do consumidor.

Na avaliação dele, reclamações, críticas e manifestações em canais digitais devem ser tratadas como fonte de informação para aprimorar produtos, serviços e atendimento. O empresário afirmou que o erro não está apenas em falhar, mas em insistir em uma leitura equivocada sem corrigir rapidamente a rota.

“Quando elas se dão um trabalho de dizer que aquilo não está sendo bacana, a experiência não foi bacana, inclusive indicando o que não foi tão legal, na verdade ela está dando a oportunidade pra gente se redimir e corrigir aquilo que não está indo tão bem”, ressalta Paulo Morais.

Wellness, recorrência e tese de longo prazo

Após deixar o dia a dia executivo da Espaçolaser, Morais passou a concentrar sua atuação em investimentos ligados ao varejo, saúde, estética, bem-estar e longevidade. Segundo ele, a tese por trás dos novos projetos está conectada ao crescimento do mercado de wellness e à busca por qualidade de vida em uma população que tende a viver mais.

O empresário também explicou que modelos de recorrência e parcelamento podem ter função estratégica, não apenas financeira. No caso da depilação a laser, afirmou que a recorrência ajudou a democratizar o acesso a um serviço de ticket mais alto, aproximando o valor mensal da capacidade de pagamento do cliente.

“O modelo de recorrência no nosso negócio desde o começo se mostrou estratégia comercial do negócio”, explica Paulo Morais.

Brasil ainda oferece oportunidades, apesar dos desafios

Apesar do ambiente adverso, Morais afirmou que segue apostando no Brasil. Para ele, o país reúne mercado consumidor amplo, riqueza natural, força do agronegócio e oportunidades em setores ligados a serviços, varejo e bem-estar. Os principais entraves, segundo o empresário, estão na baixa qualificação profissional, na produtividade limitada e na instabilidade do ambiente de negócios.

Na reta final da entrevista, o executivo defendeu maior reconhecimento ao papel do empreendedor na geração de empregos, no pagamento de impostos e na construção de empresas. Para Morais, crescer no Brasil exige conviver com incertezas, mas também identificar oportunidades em momentos em que parte do mercado reduz o apetite por risco.

 

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