
Câmeras do Smart Sampa não inibem furtos e roubos de celulares em Pinheiros; região lidera casos em SP
Mesmo cercadas por cerca de 8 mil câmeras de monitoramento integradas aos programas Smart Sampa, uma das principais apostas da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) na área de segurança urbana, e ao sistema Muralha Paulista, do governo estadual, ruas de Pinheiros, na Zona Oeste da capital, seguem registrando furtos e roubos de celulares em sequência.
Dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) mostram que, entre janeiro e março, mais de 41 mil celulares foram roubados ou furtados no estado de São Paulo. Só a região de Pinheiros concentrou 5% dos casos.
Foram 2.156 aparelhos levados na área atendida pela delegacia da região — o maior número absoluto do estado. O número equivale a 24 celulares roubados por dia, ou um por hora. Na sequência aparecem Consolação e Perdizes.
Imagens obtidas pela TV Globo mostram ao menos quatro crimes ocorridos entre fevereiro e março deste ano nas ruas Oscar Freire e Capote Valente (veja acima).
Pedestre é assaltado por motociclista armado na Rua Lisboa, em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo.
Montagem/g1/Reprodução
Em comum, os casos têm o mesmo modo de agir: criminosos em motos abordam vítimas na calçada, geralmente à noite, e fogem rapidamente após os assaltos.
No dia 13 de março, por volta das 20h30, uma câmera registrou um motociclista rendendo uma vítima na Rua Oscar Freire. O homem entrega os pertences e deixa o local sem reagir.
Já em 23 de fevereiro, outro vídeo mostra um criminoso armado abordando um homem na mesma região. A vítima reage, empurra o assaltante em direção à rua e chega a arremessar uma garrafa de água antes de o bandido fugir de moto. Especialistas em segurança não recomendam reação em casos de roubo.
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Cerca de 15 minutos antes desse crime, o que aparenta ser o mesmo assaltante roubou um casal na Rua Capote Valente, paralela à Oscar Freire. As vítimas entregam os celulares e parecem passar algum tipo de informação ao criminoso antes da fuga.
Outro roubo ocorreu em 24 de março, quase às 22h, também na Capote Valente. O criminoso estaciona a moto como se fosse um entregador e aproveita a distração para arrancar a correntinha de uma vítima.
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, fala sobre o contrato da prefeitura com o projeto Smart Sampa, que prevê a distribuição de câmeras de monitoramento na cidade de São Paulo, em coletiva de imprensa na sede da prefeitura.
Rovena Rosa/Agência Brasil
Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que os dados oficiais de criminalidade apontam uma queda de 9,25% nos roubos em geral e de 0,24% nos furtos em geral no primeiro trimestre de 2026 na Zona Oeste da cidade, em comparação ao mesmo período do ano anterior.
“Na região de Pinheiros, são 7.803 câmeras do Programa Smart Sampa, e a Guarda Civil Metropolitana (GCM) mantém patrulhamento 24 horas por dia, com reforço em áreas estratégicas e operações permanentes, como Madrugada Mais Segura e Saturação, voltadas ao combate de furtos e roubos, especialmente de celulares”, diz.
A gestão também defendeu o programa de câmeras. Segundo a prefeitura, o Smart Sampa já contribuiu “para mais de 5,3 mil prisões em flagrante, a captura de mais de 3,1 mil foragidos da Justiça e a localização de mais de 220 pessoas desaparecidas.”
“Além disso, desde novembro de 2024, mais de 1.191 imagens foram disponibilizadas pela Secretaria Municipal de Segurança Urbana à Polícia Civil em apoio à atuação das forças de segurança, tanto em tempo real quanto em investigações.”
Câmeras de monitoramento
Segundo moradores e comerciantes da região, o que chama atenção é que os crimes ocorreram diante de diversas câmeras de monitoramento instaladas nas ruas e integradas aos sistemas da Prefeitura e do governo estadual.
O porteiro Geraldo de Souza, que trabalha há sete anos na região, afirma que os equipamentos não intimidam os criminosos.
“Um morador saiu com o cachorrinho deles de rotina. Quando chegou aqui na carreira, falou: ‘Seu Geraldo, acabei de ser assaltado’. Levaram o celular dele”, contou.
O cabeleireiro Marcelo Oristanio, que tem um salão na região, afirma que moradores têm buscado apoio do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) para cobrar ações.
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“Nós solicitamos o Conseg da região de Pinheiros, temos feito uma mobilização com os moradores próximos, vizinhos próximos. Estamos tentando, de todas as formas, entender o andamento”, disse.
O Smart Sampa foi lançado pela Prefeitura de São Paulo, em 2024, como a maior iniciativa de videomonitoramento da América Latina, com previsão de até 20 mil câmeras espalhadas pela cidade. A central de controle funciona 24 horas por dia, e o investimento mensal é de cerca de R$ 10 milhões.
Segundo a pesquisa “Smart Sampa vigia, mas não protege”, não houve queda significativa nas taxas de furtos, roubos ou homicídios após a instalação do sistema. Além disso, o estudo não registrou aumento na produtividade policial, medida pelo número de prisões em flagrante ou cumprimento de mandados judiciais.
Aumento de roubos
Procurada pela reportagem, a Polícia Militar admitiu o aumento dos roubos em Pinheiros no primeiro trimestre deste ano.
Segundo o porta-voz da PM, capitão Anderson Luiz da Silva, apesar da queda dos índices na capital, a região teve alta nos casos de roubo.
“A Polícia Militar identificou nesse primeiro trimestre um pequeno aumento dos índices criminais de roubo nessa região de Pinheiros. Entretanto, na capital, esse índice caiu”, afirmou.
Segundo a PM, a geografia do bairro facilita as rotas de fuga dos criminosos.
“Na região de Pinheiros tem uma questão geográfica, topográfica, de rotas de fuga que a gente vem tentando entender melhor essa dinâmica. É um famoso jogo de gato e rato: eles procuram caminhos para escapar e a polícia para cercá-los e prendê-los”, disse o capitão Anderson.
