
Polvos gigantes de até 19 metros eram predadores vorazes nos oceanos no Período Cretáceo
Durante o Período Cretáceo, os oceanos da Terra abrigavam entidades colossais que fariam as lendas dos marinheiros parecerem tímidas. Uma recente descoberta paleontológica revelou que os primeiros polvos com barbatanas (da subordem Cirrata) atuavam como gigantescos predadores de topo nos mares pré-históricos, ostentando comprimentos que variavam de 7 a impressionantes 19 metros.
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A descoberta, pautada na análise de mandíbulas fossilizadas de 100 a 72 milhões de anos atrás, contraria a ideia consolidada de que apenas os grandes vertebrados dominavam a cadeia alimentar marinha naquela era.
Polvo-Vermelho-Do-Pacífico (Octopus rubescens)
virginiamcalister / iNaturalist
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‘Senhores do Abismo’
A pesquisa, conduzida por uma equipe internacional de cientistas, descreve essas criaturas gigantescas a partir de registros fósseis encontrados em sedimentos do Japão e da Ilha de Vancouver.
A partir da análise dos achados, os pesquisadores reorganizaram e identificaram duas espécies principais de polvos gigantes ancestrais: Nanaimoteuthis jeletzkyi e N. haggarti.
O corpo macio dos polvos, como sabemos, dissolve-se nas correntes do tempo, mas a evolução deixou para trás pistas indestrutíveis: suas mandíbulas formadas por quitina endurecida. Analisando o crescimento dessas estruturas, os cientistas conseguiram estimar as proporções verdadeiras destes animais em vida.
Comparativo do comprimento total estimado
Espécie Fóssil / Comprimento estimado: Nanaimoteuthis jeletzkyi, atingia de 2,8 a 7,7 metros
Espécie Fóssil / Comprimento estimado: Nanaimoteuthis haggarti, a tingia de 6,6 a 18,6 metros
Comparativo de tamanho das espécies de polvos
Reprodução / estudo
Com esses números impressionantes, o gigante N. haggarti não só se iguala aos maiores peixes ósseos do Cretáceo, como rivaliza frente a frente com as lendas da época, os monstruosos plesiossauros e mosassauros.
Com isso, eles podem representar os maiores invertebrados já descritos pela ciência, superando até mesmo a lula-gigante atual.
Marcas de batalha nas mandíbulas
Mandíbulas apresentavam marcas que ajudaram a identificar hábitos alimentares
Reprodução / estudo
Mas o que comiam esses titãs dos mares? A resposta estava esculpida na própria ferramenta de caça. O estudo mapeou marcas de desgaste severo e excepcional nos bicos fossilizados, provando de forma inédita que estes cefalópodes não eram presas indefesas, mas caçadores vorazes.
“Esses padrões de desgaste sugerem que os Cirrata gigantes do Cretáceo Superior eram carnívoros ativos que frequentemente esmagavam conchas duras e ossos”, afirma o estudo.
A análise digital de alta resolução revelou detalhes de uma caçada brutal e rotineira:
Poder de esmagamento: as mandíbulas exibem arranhões profundos, lascas e superfícies polidas, características do esmagamento dinâmico dos esqueletos de suas presas.
Caça com braços longos: em vez de terem uma boca descomunal como a dos mosassauros, esses polvos gigantes utilizavam seus longos e flexíveis braços tentaculares para dominar grandes presas, puxando-as para o centro de suas poderosas mandíbulas.
Evolução e inteligência ancestral
Polvo-Gigante-Do-Pacífico (Enteroctopus dofleini) é considerada a maior espécie da atualidade
neilmcdaniel / iNaturalist
Talvez o achado mais poético da pesquisa resida em um detalhe sutil: a lateralidade. Os cientistas notaram que a perda de material nas mandíbulas era assimétrica, indicando que esses predadores mastigavam e operavam suas presas preferencialmente por um lado.
Na biologia moderna, comportamentos lateralizados estão diretamente associados a cérebros complexos e alta cognição.
Isso sugere que os primeiros polvos não eram apenas grandes; eles possuíam uma inteligência avançada, capaz de arquitetar estratégias complexas de caça nos oceanos escuros do passado.
“Até hoje, esses animais são reconhecidos para alta capacidade de inteligência. Na biologia marinha, temos curiosidade em saber o que aconteceria se os polvos fossem mais longevos, já que boa parte das espécies supera os 2 ou 3 anos de vida. Imagine se fossem animais capazes de viver e aprender durante décadas?”, acrescenta o biólogo e especialista em biologia marianha Leandro Alves.
O especialista reforça que ao longo de milhões de anos de adaptação, os cefalópodes abdicaram da segurança impenetrável de suas conchas protetoras. Ao tornarem-se criaturas de corpo mole, ganharam mobilidade fantástica e espaço para o florescimento da inteligência e da visão.
Imagem de um Octopus sinensis
vieira_family / iNaturalist
O estudo conclui de maneira assertiva: “nossas descobertas mostram que mandíbulas poderosas, e a perda de esqueletos superficiais, transformaram convergentemente cefalópodes e vertebrados marinhos em predadores enormes e inteligentes”.
Essa incrível convergência evolutiva comprova que a inteligência e a força nem sempre vestem couraças e escamas. Nos mares do Cretáceo, o reinado pertencia, também, aos gigantescos e geniais fantasmas de tentáculos do abismo marinho.
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