
A Procuradoria-Geral da República (PGR) recebeu um pedido do deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) para investigar o também deputado Mario Frias (PL-SP) por suspeitas da prática de rachadinha em seu gabinete.
O pedido do PSOL foi feito após o g1 revelar, na sexta-feira (22), comprovantes e extratos bancários que mostram que uma ex-funcionária do gabinete de Frias na Câmara fez vários repasses ao então chefe de gabinete e pagamentos diretos para familiares do deputado.
A ex-secretária parlamentar Gardênia Morais, que atuou no gabinete de Frias de fevereiro de 2023 a maio de 2024, afirmou à reportagem que devolvia parte dos salários “todos os meses” e que mais funcionários faziam o mesmo. Prática que ficou conhecida como rachadinha.
Chico Alencar apontou a possível ocorrência dos crimes de peculato (desvio de recurso público), concussão, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Ex-funcionária pagou cartão da esposa de Mario Frias, indica comprovante bancário
“Os documentos obtidos pelo g1 demonstram que, entre fevereiro de 2023 e março de 2024, Gardênia realizou transferências que totalizam R$ 35.116 em favor do então chefe de gabinete Raphael Azevedo, de sua ex-esposa e de outra parente, sempre em datas próximas ao recebimento da remuneração”, afirmou o deputado do PSOL na representação feita à PGR.
Raphael Azevedo trabalhou como chefe de gabinete de Frias de fevereiro de 2023 a fevereiro de 2024, segundo os registros da Câmara.
“Registre-se que cada deputado federal dispõe atualmente de R$ 165,8 mil mensais de verba de gabinete para pagamento de funcionários, de modo que a utilização dessa estrutura para compelir assessores a devolverem parte de seus salários, bem como para custear despesas privadas de familiares do parlamentar, traduz grave desvio de finalidade na aplicação de recursos públicos”, sustentou Chico Alencar.
Além desse pedido de apuração, o advogado da bancada do PT na Câmara afirmou que também solicitou à PGR nesta segunda-feira (25) a abertura de um procedimento para investigar Mario Frias.
Os pedidos foram direcionados à PGR porque, como deputado federal, Frias tem prerrogativa de foro perante o Supremo Tribunal Federal (STF). Cabe ao órgão chefiado por Paulo Gonet a eventual apresentação de denúncia contra Frias.
Procurado na sexta e nesta segunda-feira, por meio de seu atual chefe de gabinete, o deputado Mario Frias ainda não se pronunciou sobre as suspeitas.
Transferências via PIX
Os comprovantes obtidos pelo g1 indicam que Gardênia Morais transferia o salário da conta do Banco do Brasil, onde recebia o salário da Câmara, para outra conta de sua titularidade, no Itaú.
Dessa conta, ela repassava valores, via PIX, para o então chefe de gabinete, Raphael Azevedo, ou para a ex-mulher e uma outra parente dele.
Os comprovantes obtidos pela reportagem são:
um PIX de R$ 4.600 para Azevedo em fevereiro de 2023;
um PIX de R$ 5.000 para Azevedo em março de 2023;
um PIX de R$ 1.500 para Avezedo em abril de 2023;
um PIX de R$ 3.200 para a ex-mulher de Azevedo em maio de 2023;
dois PIX, de R$ 3.200 e R$ 816, para a ex-mulher e uma outra parente de Azevedo em julho de 2023;
quatro PIX de R$ 3.200 para a ex-mulher de Azevedo nos meses de agosto, setembro, outubro e novembro de 2023;
e um PIX de R$ 4.000 para o próprio Azevedo em março de 2024.
Comprovantes de PIX feitos por Gardênia Morais, ex-funcionária do gabinete de Mario Frias.
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Parentes de Frias
Outro comprovante mostra que Gardênia fez um PIX de R$ 1.000 em 29 de janeiro de 2024 para Maria Lucia Frias, mãe do parlamentar.
Outro documento indica que, em dezembro de 2023, a ex-funcionária pagou uma fatura do cartão de crédito de Juliana Frias, esposa do deputado, no valor de R$ 4.832,32.
A reportagem obteve ainda um comprovante de que a ex-funcionária fez um saque de R$ 49.999,99 em dinheiro vivo, em 27 de março de 2024. Ela afirmou que o valor foi entregue, mas não quis revelar para quem.
Gif mostra comprovantes de transferência de funcionária de Mário Frias
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“O meu salário foi subindo gradativamente. Lá na Câmara a gente tem os ‘steps’. No final, estava girando em torno de R$ 20 mil. Me restavam, em média, de R$ 6 mil a R$ 7 mil. Eu devolvia todos os meses, de acordo com o meu ‘step'”, disse Gardênia.
“O deputado sabia, o deputado estava ciente de todas as devoluções. Foi um combinado inicial, o deputado sempre participa. E depois as tratativas do dia a dia ocorriam com o Azevedo, que na época era o chefe de gabinete, braço direito do deputado”, afirmou a ex-funcionária.
Empréstimos consignados
Os extratos da conta de Gardênia no Banco do Brasil também mostram que ela tomou cinco empréstimos consignados em seu nome, totalizando R$ 174,8 mil.
A ex-secretária parlamentar disse que somente um desses empréstimos, no valor de R$ 35 mil, foi feito para uso pessoal. Ela disse que os quatro restantes, que somaram cerca de R$ 140 mil, não foram pagos.
“Dos cinco empréstimos, um é meu particular, no restante todos foram feitos a pedido do deputado e do Raphael Azevedo para quitar dívidas de campanha [de 2022]. Os empréstimos foram feitos e eles não foram quitados, estão todos em aberto no Serasa. Enfim, meu nome… Para você ter noção de como ficou minha situação hoje, eu moro de favor na casa da minha ex-sogra”, disse.
O que dizem os citados
A reportagem enviou perguntas ao atual chefe de gabinete de Mario Frias, Diego Ramos. Ele afirmou que desconhece as suspeitas porque entrou no gabinete depois desse período e que tem a convicção de que Frias também não tem conhecimento.
Para Ramos, “aparentemente são ex-funcionários aproveitando a situação midiática”. Ele disse que enviaria os questionamentos ao deputado, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
O ex-chefe de gabinete Raphael Azevedo, que atuou no gabinete de Frias até 2024, também não se manifestou.
Mario Frias
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