Cientistas descobrem que o núcleo da Terra não é uma esfera sólida perfeita, e sim uma estrutura macia e cheia de estranhas texturas

Imaginar a Terra como uma cebola de camadas perfeitas ficou mais difícil para a ciência. Estudos sísmicos recentes indicam que o núcleo interno não é uma esfera lisa e homogênea, mas uma região metálica com texturas irregulares, variações de rigidez e deformações sutis.

Por que o núcleo da Terra deixou de parecer uma esfera perfeita?

Durante décadas, o núcleo interno foi descrito como uma esfera sólida de ferro, compacta e relativamente uniforme. Essa imagem mudou com estudos publicados entre 2021 e 2025, que revelaram uma estrutura mais complexa, com regiões de ferro duro, ferro macio e até material de comportamento pastoso.

O avanço não veio de perfurações, já que o centro do planeta permanece inalcançável. A mudança surgiu da leitura de ondas sísmicas, que atravessam o interior da Terra e retornam à superfície carregando sinais sobre densidade, textura, rigidez e possíveis deformações internas.

Ondas sísmicas atravessam a Terra e revelam núcleo irregular

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Como os terremotos revelaram texturas no centro da Terra?

A descoberta mais ampla foi publicada em julho de 2023 na revista Nature, com liderança de Guanning Pang, da Universidade Cornell, e do sismólogo Keith Koper, da Universidade de Utah. A equipe analisou dados de 2.455 terremotos com magnitude superior a 5,7 na escala Richter.

A análise destacada pela ScienceAlert mostra que as ondas refletidas no núcleo interno revelaram irregularidades com menos de 10 km de extensão. A textura foi comparada por Koper a uma tapeçaria de tecido, com variações espalhadas por todo o núcleo.

Para visualizar como ondas de terremotos ajudam a reconstruir uma região que ninguém consegue observar diretamente, o canal Olhar Digital, com 964 mil inscritos, explica a descoberta sobre a textura do núcleo interno e sua relação com o campo magnético do planeta:

O que significa encontrar ferro duro, macio e pastoso?

Outro estudo importante saiu em outubro de 2021, na revista Physics of the Earth and Planetary Interiors, liderado por Rhett Butler, da Universidade do Havaí e da SOEST, com coautoria de Shoji Tsuboi. A pesquisa analisou ondas sísmicas registradas em sismômetros posicionados em lados opostos ao epicentro dos terremotos.

Os dados sugeriram que os 150 km superiores do núcleo interno não são uniformes. Em vez disso, apresentam regiões adjacentes de ferro rígido, ferro mais maleável e material líquido ou semilíquido, o que indica uma fronteira muito menos simples do que os modelos clássicos propunham.

As principais mudanças de interpretação podem ser separadas assim:

  • O núcleo interno não se comporta como uma única massa metálica perfeitamente rígida.
  • As variações de ferro podem registrar etapas diferentes de solidificação ao longo de bilhões de anos.
  • A superfície interna pode interagir de forma mais dinâmica com o núcleo externo líquido.
  • A rigidez real do núcleo afeta modelos sobre rotação, campo magnético e evolução térmica do planeta.
Corte metálico mostra ferro duro, macio e pastoso no núcleo

Existe um núcleo dentro do núcleo da Terra?

Em fevereiro de 2023, pesquisadores da Australian National University, conhecida como ANU, publicaram na Nature Communications uma evidência adicional: o núcleo interno pode conter uma camada ainda mais central, com cerca de 650 km de raio.

Segundo a Australian National University, ondas sísmicas que atravessaram repetidamente o centro do planeta indicaram propriedades cristalinas distintas nessa esfera metálica interna. Isso sugere que o ferro pode ter cristalizado em outra orientação, talvez em uma fase diferente da formação da Terra.

A comparação entre os estudos ajuda a organizar o que cada descoberta acrescentou à nova imagem do núcleo:

Estudo Principal evidência O que mudou na interpretação
Butler e Tsuboi, 2021 Ondas sísmicas em pontos opostos Topo do núcleo com ferro duro, macio e pastoso
Pang e Koper, 2023 2.455 terremotos analisados Texturas irregulares espalhadas pelo núcleo interno
ANU, 2023 Ondas refletidas várias vezes pelo centro Camada metálica interna com propriedades diferentes
USC, 2025 Mudanças estruturais na superfície do núcleo Possível deformação viscosa ao longo do tempo

Por que a superfície do núcleo interno pode mudar com o tempo?

O estudo mais recente citado foi publicado em fevereiro de 2025 na Nature Geoscience, por uma equipe liderada por John Vidale, da Universidade do Sul da Califórnia, a USC. O trabalho indicou que a superfície do núcleo interno pode sofrer mudanças estruturais ao longo do tempo.

De acordo com a Universidade do Sul da Califórnia, as evidências apontam para uma possível deformação viscosa. Em termos simples, isso significa que a região não se comporta como uma bola rígida perfeita, mas como um material metálico submetido a pressões imensas e capaz de se ajustar lentamente.

Como essa nova imagem da Terra muda a ciência do planeta?

Essa nova leitura do núcleo interno importa porque o centro metálico participa da geração do campo magnético terrestre. A interação entre o núcleo interno sólido e o núcleo externo líquido ajuda a manter o escudo geomagnético, que protege a superfície contra parte da radiação solar e orienta vários processos geofísicos.

As texturas também funcionam como fósseis estruturais da formação planetária. Ao mostrar que o núcleo interno da Terra é irregular, deformável e dividido em zonas com propriedades diferentes, os estudos indicam que o centro do planeta ainda guarda marcas profundas de sua própria história.

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