O Terceiro Comando Puro (TCP), é atualmente a segunda maior facção do estado do Rio de Janeiro, que domina ao menos cinco comunidades da Zona Norte da capital: Cidade Alta, Parada de Lucas, Vigário Geral, Cinco Bocas e Pica-pau, denominadas como Complexo de Israel.
A referência religiosa não é uma mera coincidência, o local foi batizado como Complexo de Israel em referência à “terra prometida” para o povo de Deus na Bíblia. Além do nome, a facção que domina a região também utiliza de símbolos religiosos, como a estrela de Davi, versículos da Bíblia e imagens de Cristo desenhadas nas paredes. Além disso, frases como “Jesus é o dono do lugar” também estão presentes.
Mas não é porque “Jesus é o dono do lugar”, que o Complexo não tenha o próprio líder. Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como “Peixão” ou “Arão”, é apontado como o chefe da “Tropa do Arão”, inspirado no personagem bíblico irmão de Moisés.
Considerado um dos traficantes mais procurados do estado, ele teve, em janeiro deste ano, um resort clandestino descoberto pela Polícia Civil na Baixada Fluminense. Sob sua liderança, o TCP expandiu sua influência para além do Rio de Janeiro, com presença em ao menos nove estados, segundo levantamento da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).
A religião como parte do território
O uso de referências religiosas por grupos criminosos não é recente. Desde a década de 1990, quando Christina Vital, professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), iniciou suas pesquisas, já era possível observar a presença de símbolos bíblicos em territórios dominados por facções.
Com o passar do tempo, no entanto, esse uso se intensificou e ganhou novos contornos, atuando como uma forma de reforçar o poder das facções.
Mais do que símbolos religiosos, há também regras e formas de organização dentro desses territórios. Segundo a pesquisadora, práticas associadas ao TCP, como a proibição do crack em algumas áreas, o controle do uso da força e até a organização da coleta de lixo, já existiam antes da facção adotar de forma mais explícita o discurso evangélico.
Essas regras remontam a antigas lideranças do grupo, como Cy de Acari, e foram ganhando novos significados ao longo do tempo. Na prática, o que mudou não foi necessariamente a lógica da facção, mas a forma como ela passou a justificar e apresentar esse controle, incorporando elementos e discursos religiosos.
O financiamento de shows e bailes gospel, por exemplo, já acontece desde os anos 1990 e envolve tanto traficantes identificados como evangélicos quanto fiéis da igreja que não têm qualquer ligação com o crime.
A pesquisadora também afirma que o fenômeno cresceu e passou a ter diferentes significados ao longo dos anos. Segundo ela, a figura dos “traficantes evangélicos” não é algo recente nem restrito a uma única região. Hoje, esse universo também funciona como “um modo de identificação de dentro pra fora e de fora pra dentro”, com os símbolos religiosos ajudando tanto na forma como esses grupos se reconhecem quanto na imagem que projetam.
Para Vital, isso reflete a forte presença do pentecostalismo nas periferias, mas também mostra como símbolos e discursos religiosos podem ser apropriados de forma estratégica por grupos criminosos. Em alguns casos, há um “certo esvaziamento do religioso”, em que elementos da fé passam a ser usados não apenas com sentido espiritual, mas também político e criminal.
Aproximação das igrejas
Diversos fatores ajudam a explicar a aproximação de traficantes às igrejas evangélicas. Um deles, segundo Vital, está ligado à própria presença histórica e à expansão do pentecostalismo nas periferias e favelas brasileiras.
“No mapa religioso do Brasil, as favelas e periferias são áreas importantes de presença e expansão evangélica pentecostal. Podemos falar em uma hegemonia pentecostal nessas áreas”, afirma.
Segundo a pesquisadora, as igrejas também oferecem elementos que podem ter forte apelo para pessoas inseridas na dinâmica do crime, como salvação, proteção e libertação. A construção de uma nova comunidade, redes de apoio e referências morais também ajudam a compreender o número de conversões.
Vital aponta ainda uma semelhança entre a ideia de “batalha espiritual”, muito presente no pentecostalismo, e a realidade vivida por pessoas no crime organizado.
Segundo ela, apesar de terem motivações completamente diferentes, religiosas, no caso dos evangélicos, e ligadas à sobrevivência no crime, no caso dos traficantes, essas visões acabam criando uma familiaridade maior com o universo pentecostal do que com outras religiões.
Entre a fé e a lógica do crime
Embora o discurso religioso adotado por traficantes que se identificam com alguma religião muitas vezes entre em conflito com a prática criminosa, a pesquisadora afirma que essa distância entre fé e comportamento não acontece apenas nesse contexto. Segundo ela, pessoas religiosas, de forma geral, costumam ser cobradas por suas atitudes e pela coerência com aquilo que pregam.
Em seu livro Oração de Traficante, Vital relata conversas com criminosos que descreviam mudanças na forma de pensar, agir e estabelecer limites morais dentro da própria dinâmica do tráfico.
“Parece uma contradição em termos falar em ética criminal, mas devemos entender que a vida no crime também necessita de muitas orientações de conduta, normas, um sentido de ordem produzido pelos atores em jogo”, afirma.
No contexto do Complexo de Israel, Vital avalia que a interpretação que esses grupos fazem da identidade evangélica pentecostal pode, sim, orientar determinadas práticas e comportamentos, inclusive episódios de intolerância religiosa relatados na região. Ainda assim, ela destaca que a dinâmica do crime organizado é marcada pelo pragmatismo.
“A vida no crime exige muito pragmatismo. Para sobreviver num ambiente criminal cada vez mais competitivo, perigoso, informatizado e dependente de capital político, é preciso ter um comportamento muito racional”, diz.
Segundo a pesquisadora, isso significa que mesmo ações justificadas com discursos religiosos também seguem interesses e limites impostos pela própria lógica do crime.
Ataque a terreiros
Nos anos 2000, a imprensa brasileira começou a publicar as primeiras reportagens sobre ataques a terreiros. Naquele momento, os episódios eram associados principalmente a conflitos entre moradores e grupos locais.
A partir de 2006, porém, os ataques passaram a ser atribuídos à perseguição promovida por “traficantes evangélicos”, segundo o artigo “Terreiros sob ataque? A governança criminal em nome de Deus e as disputas do domínio armado no Rio de Janeiro”.
De acordo com a professora da UFF e doutora em antropologia Ana Paula Miranda, uma das autoras do estudo, 2017 marcou o agravamento desse cenário, com o crescimento da presença evangélica associado a episódios de agressão direta contra terreiros.
“Em 1996, o Ginga-UFF registrou a primeira notícia sobre a relação entre o tráfico de drogas e a proibição dos terreiros. Em 2006, volta a se falar sobre o tráfico expulsando pessoas da comunidade. Em 2008, começam os casos no Rio de Janeiro de traficantes expulsando terreiros dos morro do Dendê”.
Segundo a antropóloga, durante a onda de ataques registrada em 2017, todos os terreiros da região chegaram a fechar por medo. Com mobilização social e ações do poder público, alguns voltaram a funcionar posteriormente, enquanto outros precisaram deixar o território.
Por que religião e crime não configuram “narcopentecostalismo”
Em algumas comunidades dominadas pelo crime organizado, a religião aparece como instrumento de dominação social, cultural e simbólica. Referências bíblicas, códigos morais e discursos religiosos passam a ser utilizados para legitimar práticas criminosas e reforçar formas de controle sobre o território.
Esses elementos ajudam a consolidar a autoridade dos grupos armados e transmitir a ideia de que aquele espaço estaria submetido a uma espécie de “ordem divina”. Ainda assim, pesquisadores alertam que essa aproximação não significa necessariamente uma fusão entre religião e crime.
A antropóloga Ana Paula Miranda critica o uso de categorias como “narcopentecostalismo” para definir esse fenômeno. Segundo ela, o termo pode acabar reforçando estigmas sobre populações e grupos religiosos já vulnerabilizados.
Para a pesquisadora, o fato de criminosos frequentarem espaços religiosos ou utilizarem símbolos da fé não transforma automaticamente essas instituições em organizações criminosas.
“Quando eu falo narcopentecostal estou dizendo que todas as religiões pentecostais são praticantes, né? E a gente sabe, no universo desses territórios, que a maior parte dos pastores não tem envolvimento nenhum com o tráfico. O fato do sujeito, que é um sujeito criminoso, ir a um ambiente religioso não faz do ambiente religioso um ambiente criminoso”, explica.
Miranda defende que é preciso diferenciar indivíduos envolvidos com o crime de instituições religiosas como um todo. Segundo ela, casos de pastores ligados a atividades ilícitas existem, mas não seriam suficientes para caracterizar a existência de um projeto organizado ou de uma estrutura religiosa voltada ao crime.
“Para a gente dizer que está em um cenário de narcopentecostalismo, teria que existir uma intencionalidade que não existe”, afirma.




