Roberto Menescal e Gilson Peranzzetta harmonizam dois mundos musicais em álbum guiado por amizade e liberdade


Roberto Menescal (à esquerda) e Gilson Peranzzetta lançam o primeiro álbum juntos em cerca de 50 anos de amizade
Rogério Von Kruger / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: O mundo livre de Menesca & Peranzza
Artistas: Roberto Menescal e Gilson Peranzzetta
Cotação: ★ ★ ★ ★
♬ “Samba impossível”, música inédita que abre o álbum “O mundo livre de Menesca & Peranzza”, começa em clima arejado, evocando uma brisa leve e um ar marítimo típicos da música do compositor e guitarrista Roberto Menescal, o Menesca, nome fundamental da bossa nova. Só que a primeira parte do samba foi composto pelo pianista Gilson Peranzzetta, o Peranza, arranjador igualmente fundamental da MPB, sobretudo na obra de Ivan Lins. Menescal completou o samba, primeira parceria dos músicos.
A arquitetura de “Samba impossível” exemplifica a simbiose dos dois artistas no álbum editado via Mills Records em 20 de maio. Trata-se do primeiro disco feito em dupla pelos músicos, amigos há cerca de 50 anos.
O álbum apresenta quatro músicas inéditas entre as nove faixas. Além de “Samba impossível”, há três temas recentes de Gilson Peranzzetta que ganham o primeiro registro fonográfico, sendo que um, “Vem cá, Menesca”, é afago do pianista no amigo, sublinhando o tom afetuoso do disco.
Menescal e Peranzzetta se afinam em álbum guiado pela liberdade da música instrumental, mesmo quando gravada com vocalizes, como “Quim, quim” (2026), tema inédito de Peranzzetta. Tanto que em certa passagem da gravação de “Obsession” (1987) – parceria de Peranzzetta com Dori Caymmi apresentada ao mundo em álbum da cantora norte-americana de jazz Sarah Vaughan (1924 – 1990) – parece que se ouve tema de Menescal.
Da mesma forma, dá para identificar a marca forte do arranjo de Perannzzetta na gravação de “Agarradinhos” (Roberto Menescal e Rosalía Souza, 2005) – bossa de Menescal que deu titulo a álbum lançado pelo guitarrista com a cantora Leila Pinheiro em 2007 – e sobretudo na introdução de “Bye bye Brasil” (Roberto Menescal e Chico Buarque, 1979), música tocada com a liberdade do jazz no registro de seis minutos que fecha o disco.
Capa do álbum ‘O mundo livre de Menesca & Peranzzetta’, de Roberto Menescal e Gilson Peranzzetta
Rogério Von Kruger / Divulgação
O álbum foi gravado pela dupla com as adesões dos músicos Didier Fernan (baixo) – idealizador do projeto fonográfico e proprietário do estúdio La Maison, onde Fernan gravou, mixou e masterizou o álbum entre 2025 e este ano de 2026 – e Ricardo Costa (bateria).
É sintomático que, na foto exposta na capa do álbum, os dois músicos apareçam abraçados porque, em essência, “O mundo livre de Menesca & Peranzza” é um abraço afetuoso de Roberto Menescal em Gilson Peranzzetta. Ou um abraço de Gilson Peranzzetta em Roberto Menescal, dado com carinho e admiração que, a rigor, percebe-se que sempre existiram quando ouve-se no álbum a gravação de “Caminho do mar”, música inédita de Peranzzetta (composta em 2025) em que o pianista carioca evoca a ambiência leve da música arejada de Roberto Menescal, parceiro de Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994) em composições como “A morte de um Deus de sal” (1964), tema rebobinado no álbum, cujo título vem da música “Mundo livre” (2024), parceria recente de Menescal com Pio Rodrigues Neto.
Sem notas jogadas fora, sem competições aparentes entre os instrumentistas (até porque Menescal reconhece que Peranzzetta é, como costuma dizer, mais “adiantado” do que ele) e tampouco sem demonstrações egocêntricas de um virtuosismo perceptível em ambos os músicos de forma natural, o álbum “O mundo livre de Menesca & Peranzza” flui harmoniosamente ao longo de quase 36 minutos guiados pela convergência afetuosa de dois universos musicais distintos, mas paradoxalmente afins.
Roberto Menescal (à esquerda) e Gilson Peranzzetta tocam nove músicas no álbum, sendo que quatro são inéditas em disco
Rogério Von Kruger / Divulgação
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