Artes mais antigas das cavernas podem ser mais novas, diz estudo

Molde de mão encontrado em Sulawesi foi reconhecido como a arte rupestre não figurativa mais antiga do mundoReprodução/Guinness World Records

Um estudo recente levantou dúvidas sobre a idade de algumas pinturas rupestres consideradas as mais antigas do mundo, incluindo desenhos atribuídos aos neandertais. A pesquisa, publicada no dia 20 de março, diz que o método científico usado para calcular a idade dessas obras pode ter feito as pinturas parecerem muito mais antigas do que realmente são.

Segundo o pesquisador francês Georges Sauvet, do Centro de Pesquisa e Estudos de Arte Pré-histórica da França, isso aconteceu porque minerais presentes nas cavernas podem ter perdido urânio ao longo dos milhares de anos, o que pode mudar os resultados dos testes usados para descobrir a idade das pinturas.

A técnica chamada urânio-tório é usada para calcular a idade de camadas de minerais que se formam sobre pinturas nas cavernas quando a água passa pelas rochas e deposita material lentamente sobre os desenhos.

Com o passar do tempo, o urânio nesses minerais se transforma em tório. A partir da quantidade de cada elemento, os cientistas conseguem calcular uma idade aproximada da camada mineral.

Como muitas pinturas pré-históricas não têm restos orgânicos, o método virou uma alternativa importante ao carbono-14, técnica mais conhecida para medir a idade de materiais antigos. 

Arte rupestre em caverna de Sulawesi, na IndonésiaReprodução/Guinness World Records

Perda de urânio pode alterar resultados

Segundo Sauvet, o principal problema é que esse tipo de análise considera que os minerais ficam intactos por milhares de anos. Porém, em muitas cavernas, a água continua circulando pelas rochas e pode retirar parte do urânio das camadas.

Quando isso acontece, a proporção entre os elementos muda e a amostra pode parecer ter uma idade maior do que a real. O pesquisador afirmou que muitas dessas datas podem ter sofrido um “envelhecimento artificial” causado pelo próprio método.

O pesquisador francês também criticou o que chamou de “corrida” para descobrir a arte rupestre mais antiga do mundo. Sauvet citou casos em que os resultados do urânio-tório deram resultados diferentes de outros testes científicos.

Em uma caverna de Nerja, no sul da Espanha, uma camada mineral sobre um risco feito com carvão indicou idade perto de 119 mil anos pelo método urânio-tório. Já a análise do próprio carvão pelo carbono-14 apontou cerca de 19 mil anos. A camada mineral, quando analisada também por carbono-14, mostrou aproximadamente 14 mil anos.

Na Indonésia, em Leang Balangajia, na ilha de Sulawesi, o pesquisador identificou um caso em que uma camada mineral externa apareceu como mais antiga do que outra camada localizada abaixo dela, mesmo tendo se formado depois. Para ele, isso reforça a ideia de perda de urânio causada pela água e pelo contato com o ambiente.

O estudo ainda fala sobre dois minerais encontrados nas cavernas, a calcita e a aragonita. Segundo Sauvet, a aragonita absorve mais urânio e pode liberar parte dele ao se transformar em calcita, facilitando a retirada desse material pela água. Isso poderia explicar algumas idades consideradas muito altas em cavernas espanholas como La Pasiega e Ardales.

Arte rupestre em caverna de Sulawesi, na IndonésiaReprodução/Guinness World Records
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Estudo questiona pinturas atribuídas aos neandertais

A discussão é importante porque as datas influenciam teorias sobre o comportamento dos primeiros humanos.

Em 2018, pesquisadores divulgaram que pinturas encontradas em três cavernas espanholas teriam cerca de 65 mil anos. Como os humanos modernos ainda não haviam chegado à Europa nesse período, os autores sugeriram que as obras teriam sido feitas por neandertais.

Se as pinturas realmente tiverem mais de 60 mil anos, a hipótese continua forte. Porém, caso as datas estejam superestimadas, essa conclusão perde força.

Mais recentemente, uma equipe na Indonésia anunciou uma idade de 71,6 mil anos para um molde de mão encontrado em Sulawesi. O Museu Nacional de História Natural de Paris classificou a descoberta como a pintura figurativa mais antiga conhecida até hoje. A arte chegou a ganhar um registro no Guinness World Records.

Sauvet também citou que a National Geographic Society ofereceu um prêmio de 35 mil euros, cerca de R$ 206 mil, para um projeto voltado à busca pela arte rupestre mais antiga da Europa.

Pesquisadores questionam

Sauvet defende que futuras pesquisas usem diferentes tipos de análise antes de anunciar descobertas consideradas recordes. Ele recomendou combinar o urânio-tório, o carbono-14 e exames detalhados que analisam quais substâncias estão presentes no material estudado.

O pesquisador afirmou que os resultados do urânio-tório deveriam ser vistos com cuidado até que outros testes confirmem as datas.

Apesar das críticas, outros cientistas discordam das conclusões de Sauvet. Eles afirmam que o método continua sendo confiável quando as análises são feitas com controle rigoroso em laboratório. As pesquisas seguem em andamento para tentar esclarecer a verdadeira idade das pinturas pré-históricas.

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