‘Bicha de balcão’ e ‘travesti’ quebram uma corrente da escravidão

A deputada Erika Hilton, uma das idealizadoras do projeto do fim da escala 6 por 1Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados Fonte: Agência Câmara de Notícias

Dos debates sobre o fim da escala 6 por 1, aprovado na quarta-feira (27) pela Câmara, nenhum discurso foi mais forte do que os da deputada Erika Hilton (PSOL-RJ) e do vereador Rick Azevedo (PSOL), vereador do Rio e idealizador do projeto Vida Além do Trabalho.

Eles não falavam na condição de autoridades que precisou descer do castelo e ouvir o povo para entender os perrengues do povo. Eram representantes da classe trabalhadora que chegaram ao parlamento (municipal, em um caso) com trajetórias e históricos de abusos sofridos na pele.

“Se estamos discutindo o fim da escala 6 por 1 foi porque um balconista de farmacia sucateado, negligenciado, explorado e adoecido se levantou contra esse sistema escravocrata, contra esse Congresso que se coloca contra o povo o tempo todo”, disse Rick em sua fala na comissão especial da Câmara sobre o tema.

O balconista era ele.

Erika foi além. Segundo ela, “foi a dor de uma ‘bicha de balcão’ e a luta insistente de uma travesti que deu voz a essa matéria e popilarizou essa pauta”. “Essa conquista está na conta do movimento LGBTQIA, da luta das mulheres que são olhadas como pautas que diminuem o debate de classes. Somos nós, os dissidentes, que lideramos esse debate”, discursou.

O debate de classes e a exploração de minorias como eles estão relacionados em um país onde grupos hegemônicos (basicamente homens brancos) ocupam os melhores empregos e as posições de destaque na profissão e na vida pública. Vide o Congresso Nacional, onde a classe patronal é super-representada – ou pelo lobby dos grandes empresários ou pela escalação de representantes diretos nos partidos que compõem o centrão e a direita.

Eles tentaram de tudo barrar a pauta, mas sabiam da encrenca que seria negar um dia a mais de descanso para quem já trabalha muito. Por isso o placar, nas duas votações da Câmara, foi uma lavada: 472 votos favoráveis e 22 contrários, em primeiro turno, e 461 a 19 contra, em segundo turno.

O texto agora segue para o Senado.

Mais tempo de descanso significa mais tempo com a família. Mais tempo de autocuidado. Mais tempo para frequentar cinema, shoppings, bibliotecas. E fazer o dinheiro circular para além do bilhete único e a cantina do escritório.

Mas não faltou, ao longo de todo o debate, quem espernear contra a possibilidade de trabalhadores esfolados seguirem se esfolando para enriquecer, colocar dinheiro no bolso e garantir casa, carro e viagens de luxo…para os patrões.

Muitos dos “representantes do povo” não sabiam ou minimizavam o fato de haver gente trabalhando seis dias seguidos para descansar apenas um em pleno 2026. A “bicha de balcão” e a “travesti” empurrados para os trabalhos mais precários por não serem aceitos nos circuitos da elite financeira e intelectual sabiam. Isso mostra como o debate sobre representatividade importa.

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