Paciente do IJF com lesão na medula recebe primeiro procedimento com polilaminina na rede pública do Ceará


Paciente do Ceará recebe tratamento inovador com polilaminina
Um paciente de 20 anos que perdeu o movimento das pernas após ser atingido por uma bala recebeu, no sábado (23), a primeira aplicação de polilaminina realizada na rede pública de saúde do Ceará. O tratamento experimental com a substância em fase de testes e estudos clínicos no Brasil foi autorizado após o paciente ingressar com ação judicial.
O procedimento, que durou aproximadamente uma hora, foi realizado no centro cirúrgico do Instituto Dr. José Frota (IJF), maior hospital de atenção terciária da rede municipal de Fortaleza.
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O paciente é Nicolas Henrique, que foi baleado perto de casa, quando chegava do trabalho, há cerca de seis meses. Atualmente, ele não tem o movimento das pernas e utiliza uma cadeira de rodas para se locomover.
Ao g1, o médico Lucas Chaves, neurocirurgião do IJF, detalhou que o paciente foi sedado e ficou deitado em posição lateral para a aplicação de duas agulhas, guiadas por raio-X.
“A gente vai vendo a posição da agulha até a agulha atingir a medula abaixo da lesão e acima da lesão. Então a gente injeta essa medicação acima do nível da lesão e abaixo do nível da lesão com o intuito de que a polilaminina, que é uma proteína, possa regenerar os neurônios lesionados”, afirmou o neurocirurgião.
Paciente do IJF com lesão na medula recebe primeiro procedimento com polilaminina pelo SUS no Ceará
IJF/Divulgação
A aplicação da polilaminina contou com a presença de diferentes profissionais de saúde, como médicos neurocirurgiões, médicos residentes, anestesista, enfermeiros, técnico de enfermagem e técnico em radiologia.
➡️ A polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, proteína produzida no corpo humano, especialmente durante o desenvolvimento embrionário, quando exerce papel fundamental na organização dos tecidos e no crescimento celular.
Esperança e cautela
Nicolas Henrique, de 20 anos, foi primeiro paciente a receber aplicação da polilaminina no Ceará
Reprodução/TV Verdes Mares
Nicolas tem diagnóstico de paraplegia decorrente do trauma na medula espinhal, causado pela perfuração de uma bala no nível da vértebra T8.
Conforme Lucas Chaves, o jovem passou por uma avaliação para que o uso do medicamento pudesse ser autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O caso dele estava dentro de alguns critérios, como: ter idade entre 18 e 72 anos, não apresentar nenhum grau de sensibilidade abaixo do nível da lesão (o paciente não consegue mexer nem sentir as pernas após ter sido baleado) e ter uma lesão entre as vértebras T2 e T10.
“Por mim, eu já tava voltando a andar hoje ou amanhã, mas a expectativa é bem grande, com fisioterapia e tudo”, declarou Nicolas Henrique, em entrevista à TV Verdes Mares.
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A dona de casa Crislene Lima, mãe de Nicolas, comenta que a família torce para que o jovem possa voltar a fazer atividades como caminhar e dirigir. No entanto, eles estão cientes de que não há certezas sobre os resultados.
“Também falo muito pra ele que, se não der certo, não desanimar e não ficar triste. Ele tem que estar preparado pra tudo”, disse a mãe.
Para Nicolas, o momento é de esperança e de fé. Ele detalha que a equipe médica comunicou claramente que a aplicação da polilaminina não é uma garantia de que ele voltará a andar.
Uso compassivo
Os estudos conduzidos pela cientista Tatiana Sampaio, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), repercutiram entre pacientes e familiares de pessoas com lesão medular.
Com isso, dezenas de pessoas têm acionado a Justiça para ter acesso à substância.
➡️ O Brasil tem uma resolução que permite o uso compassivo de medicamentos ainda em fase de estudo, mas o processo exige avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Como a polilaminina precisa ser aplicada em até 72 horas após a lesão, as decisões judiciais pediam celeridade nessa análise.
🔴 Mas, atenção: todas essas aplicações não fazem parte de um ensaio clínico formal. Os pacientes recebem a substância, mas não são acompanhados dentro de um protocolo estruturado de pesquisa.
Paciente com lesão na medula recebe tratamento experimental inédito no Ceará
IJF/Divulgação
Com a liberação excepcional da substância, o paciente do Ceará deve ter acompanhamentos com consultas após um mês, três meses, seis meses e um ano. Ele teve alta do IJF no domingo (24).
A polilaminina é produzida pelo Laboratório Cristália em parceria com a UFRJ. Não houve custos para a aplicação da substância no paciente atendido pelo IJF.
O procedimento, coordenado por Lucas Chaves, teve apoio de um médico do Laboratório Cristália e de um médico pesquisador ligado ao estudo clínico, que vieram a Fortaleza para acompanhar a aplicação.
Durante o procedimento, foram administrados 0,5 ml da medicação. Após a alta, Nicolas continuará com uma rotina de fisioterapia e acompanhamento da equipe de Neurocirurgia e Cirurgia da Coluna do IJF.
“A gente está acompanhando o paciente no intuito de saber se houve melhora, se não houve melhora, se houve algum efeito adverso, algum efeito colateral da medicação. Isso o paciente passa pra gente nas consultas ambulatoriais regulares”, explica Lucas.
Caso o tratamento seja eficaz, a expectativa é que o paciente recupere os movimentos das pernas parcialmente ou totalmente.
Apesar de alguns resultados em seres humanos descritos pelo médico como animadores durante os estudos com a substância no Brasil, ele destaca que ainda não há garantias quanto ao sucesso do tratamento experimental. Por isso, ele pontua que é importante acompanhar a evolução do paciente sem ‘formar falsas esperanças’.
Entenda como funciona a polilaminina.
Arte/g1
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