Mala esquecida revela fortuna perdida na era nazista

Mala esquecida revela fortuna perdida na era nazistaAntony Easton

Uma pequena mala de couro esquecida sob uma cama mudou completamente a história de uma família britânica e revelou um passado marcado por riqueza, perseguição nazista e perdas irreparáveis durante o Holocausto. As informações são do BBC.

A descoberta aconteceu pouco depois da morte de Peter Easton, na cidade de Lymington, no sul da Inglaterra. Enquanto organizava os pertences do pai, Antony Easton encontrou uma velha mala marrom escondida em um apartamento simples. Dentro dela estavam álbuns de fotografias, notas escritas à mão, certidões antigas e maços impecáveis de cédulas alemãs.

O conteúdo revelou um segredo mantido por décadas: Peter Easton, que sempre se apresentou como um típico inglês anglicano, na verdade havia nascido na Alemanha antes da Segunda Guerra Mundial. Seu nome original era Peter Hans Rudolf Eisner, herdeiro de uma das famílias judaicas mais ricas de Berlim.

O que havia registrado nas fotografias?

As fotografias encontradas mostravam uma infância luxuosa, completamente diferente da vida modesta que Antony conheceu em Londres. Havia imagens de mansões com empregados, escadarias ornamentadas, carros Mercedes com motorista particular e reuniões da elite alemã do início do século XX.

Entre as fotos, uma em especial chamou atenção: Peter, ainda criança, sorrindo enquanto uma bandeira nazista aparecia ao fundo.

A restituição ‘não se trata de objetos… mas sim de pessoas’, afirma Antony.Antony Easton

A partir dali, Antony iniciou uma investigação que duraria mais de dez anos. Aos poucos, descobriu que sua família havia construído um verdadeiro império industrial na Alemanha. Seu bisavô, Heinrich Eisner, era dono da Hahn’sche Werke, uma gigantesca empresa siderúrgica especializada em aço tubular, com fábricas espalhadas pela Alemanha, Polônia e Rússia.

Pesquisas mostraram que Heinrich estava entre os empresários mais ricos da Alemanha no começo do século XX, acumulando uma fortuna equivalente a bilhões de libras atualmente. A família possuía imóveis luxuosos em Berlim, incluindo um enorme prédio de seis andares com pisos de mármore e fachada elegante.

Após a morte de Heinrich, em 1918, o patrimônio foi herdado por Rudolf Eisner, pai de Peter, que havia retornado da Primeira Guerra Mundial. Durante anos, a empresa prosperou fornecendo aço para a indústria alemã.

Mas tudo mudou com a ascensão de Adolf Hitler.

Com o avanço das políticas antissemitas, os judeus passaram a ser perseguidos e perderam progressivamente seus direitos e propriedades. Rudolf acreditava que sua companhia seria protegida por sua importância estratégica para a economia alemã, mas a pressão do regime nazista aumentou rapidamente.

Os bisavós de Antony, Olga e Heinrich Eisner, retratados no início dos anos 1900.Antony Easton

Em março de 1938, a Hahn’sche Werke foi obrigada a ser vendida por um valor muito abaixo do mercado para o conglomerado industrial Mannesmann, ligado a apoiadores do regime nazista.

Ao mesmo tempo, os Eisner tentavam desesperadamente fugir da Alemanha. Porém, leis impostas pelo governo confiscavam até 92% dos bens de judeus que deixavam o país.

Nesse contexto surgiu Martin Hartig, economista e consultor tributário próximo da família. Segundo documentos encontrados nos arquivos alemães, ele convenceu os Eisner a transferirem imóveis, obras de arte e parte do patrimônio para seu nome, supostamente como forma de protegê-los das apreensões nazistas.

A família acreditava que recuperaria tudo após escapar da Alemanha. Isso nunca aconteceu.

Especialistas consultados posteriormente concluíram que a transferência dos bens foi uma “venda forçada”, prática comum usada pelo regime nazista para retirar propriedades de famílias judias.

Mesmo perdendo praticamente toda a fortuna, Rudolf, sua esposa Hildegard e o jovem Peter conseguiram fugir em 1938. Eles passaram pela então Tchecoslováquia e pela Polônia antes de embarcarem em um dos últimos navios rumo à Inglaterra, em julho de 1939, pouco antes do início da guerra.

Grande parte dos parentes que permaneceram na Europa acabou assassinada em campos de concentração.

A mala de Peter continha registros da fuga da família Eisner da Alemanha.Charlie Northcott

Décadas depois, Antony decidiu rastrear o destino do patrimônio perdido. Com ajuda de pesquisadores e investigadores, localizou documentos sobre imóveis, obras de arte e objetos pertencentes à família.

Uma das descobertas mais importantes envolveu a pintura “Eisenwalzwerk”, do artista Hans Baluschek, que retrata uma siderúrgica em funcionamento. A obra havia pertencido aos Eisner e foi encontrada no acervo do Museu Brohan, em Berlim.

Após anos de disputa e análise documental, o museu informou recentemente que pretende devolver a pintura aos descendentes da família.

Outra obra já foi restituída pelo Museu de Israel, em Jerusalém, enquanto uma terceira reivindicação segue em andamento na Áustria.

Durante as investigações, Antony também conheceu descendentes de Martin Hartig. Alguns defendem que ele ajudou os Eisner a escapar do Holocausto; outros admitem que sua família pode ter se beneficiado da situação desesperadora vivida pelos judeus naquele período.

Sem possibilidade legal de recuperar os imóveis perdidos, já que o prazo para ações de restituição expirou décadas atrás, Antony afirma que sua busca nunca foi motivada apenas por dinheiro.

Segundo ele, o verdadeiro objetivo era reconstruir a identidade de sua família e compreender quem seus parentes realmente foram antes da guerra destruir suas vidas.

A redescoberta da história também trouxe de volta o sobrenome apagado pelo tempo. Em agosto de 2024, um sobrinho-neto de Antony recebeu o nome do meio “Eisner”, numa homenagem às gerações perdidas durante o Holocausto.

“Enquanto ele existir, esse nome continuará vivo”, afirmou Antony.

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