
Após os Estados Unidos classificarem as facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, o governo federal anunciou que pretende combater o crime organizado internamente e que não vai aceitar intervenções internacionais.
A decisão americana, segundo o governo brasileiro, é um possível retrocesso ao combate ao crime. A declaração foi feita nesta sexta-feira (29) por meio das redes sociais. Veja:
Na nota, o governo afirma estar travando um combate permanente contra as facções. Além disso, disse que a atitude da família Bolsonaro de viajar aos Estados Unidos para defender intervenções estrangeiras é deplorável.
Ainda na nota, o governo diz que medidas unilaterais, não negociadas, podem enfraquecer o combate aos criminosos. Por outro lado, o Brasil afirmou que qualquer colaboração internacional para o combate às facções será bem-vinda.
“Triste e decepcionado”
Poucos minutos depois da divulgação da nota, o presidente Lula afirmou, durante participação em uma cerimônia sobre investimentos da Petrobras em Sergipe, que está muito “triste e decepcionado” com o anúncio dos Estados Unidos.
O presidente enfatizou que os brasileiros “não aceitarão ser tratados como moleques”.
Classificação dos EUA
O secretário de Estado, Marco Rubio, disse, nesta quinta-feira (28), que os Estados Unidos vão designar as facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como “terroristas globais especialmente designados” (“Specially Designated Global Terrorists”, no termo em inglês).
Os Estados Unidos também pretendem classificar os dois grupos como “organizações terroristas estrangeiras” (“Foreign Terrorist Organizations”), segundo Rubio.
O presidente Donald Trump já havia manifestado essa intenção, mas o assunto parecia ter saído de pauta, após conversas com o governo brasileiro.
A possibilidade já era ventilada desde 2025, quando Trump iniciou uma ofensiva contra cartéis de drogas latino-americanos. O combate ao tráfico tem sido tratado como assunto de segurança nacional pela Casa Branca.
A medida deve entrar em vigor em 5 de junho.
Risco à soberania
O governo brasileiro trabalhava para impedir que os Estados Unidos adotassem a medida, alegando que a classificação poderia abrir margem para ações mais duras dos Estados Unidos, incluindo a realização de operações militares no Brasil, como já ocorreu em outros países.
Na avaliação de especialistas, a designação representa um potencial risco à soberania brasileira e pode prejudicar até mesmo esforços de cooperação investigativa entre os países, já que alteraria o nível de sigilo das informações compartilhadas entre os órgãos de segurança dos dois países.
Em maio de 2025, o governo Trump pediu ao governo brasileiro que classificasse o PCC e o CV como organizações terroristas, mas o pedido foi negado.
O secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, respondeu que as facções não se enquadram na definição de terrorismo prevista na Constituição Federal.
Reivindicação do bolsonarismo
A inclusão de PCC e CV na lista de grupos terroristas dos Estados Unidos foi, segundo o senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (PL), o assunto de sua reunião com o presidente Trump na Casa Branca, na última terça-feira (26), e também a pauta do seu encontro com Rubio, nesta quarta-feira (27).
Logo após o anúncio da decisão do Departamento de Estado norte-americano, Flávio Bolsonaro se manifestou nas redes sociais, escrevendo que hoje é um “grande dia para ele”.

