
Entre maio de 1997 e junho de 1998, o mundo enfrentou o El Niño mais forte já registrado. O fenômeno acontece quando as águas do Oceano Pacífico, na região próxima à linha do Equador, ficam mais quentes do que o normal. Esse aquecimento alterou o clima em vários países, provocou cerca de 23 mil mortes e gerou prejuízos estimados em US$ 5,7 trilhões.
O período foi marcado por enchentes, secas severas, queimadas, tempestades e aumento de doenças em diferentes partes do planeta. Agora, cientistas acompanham sinais de que um novo episódio forte do El Niño pode se formar até julho de 2026.
Na África, principalmente no nordeste do continente, as enchentes ajudaram no avanço de doenças como malária, cólera e febre do Vale do Rift, transmitida principalmente por mosquitos.

Na América Latina, também houve crescimento de doenças ligadas à água contaminada e ao aumento de mosquitos. Ao mesmo tempo, a Amazônia enfrentou uma forte seca, com queimadas e aumento do desmatamento. Argentina e Paraguai chegaram a registrar perdas estimadas em US$ 2,5 bilhões.
O furacão Mitch, associado às condições climáticas daquele período, provocou perdas de aproximadamente US$ 4 bilhões em Honduras, valor equivalente a quase um terço de toda a economia do país. Já na Nicarágua, os prejuízos chegaram a US$ 1 bilhão.
Na Ásia, países como China, Japão e Coreia do Sul registraram mais tufões do que o normal. Na China, enchentes no Rio Yangtze causaram prejuízos de cerca de US$ 30 bilhões. Já na Coreia do Norte, a seca piorou uma epidemia de cólera e agravou a crise de fome que o país enfrentava desde 1994.
Papua-Nova Guiné, Indonésia e Filipinas também registraram surtos de doenças após períodos de chuvas intensas. Depois das enchentes, Indonésia, Malásia e Filipinas passaram a enfrentar longos períodos de seca. Somente os incêndios florestais na Indonésia causaram perdas estimadas em US$ 4,4 bilhões.

Nos Estados Unidos, tempestades e enchentes atingiram a Califórnia e estados do sul do país. Já o norte americano teve um inverno incomum, com temperaturas mais altas do que o esperado. Meteorologistas chegaram a chamar aquele período de “o ano sem inverno”.
Na Flórida, o setor madeireiro perdeu mais de US$ 400 milhões. Um programa para combater a mosca-das-frutas custou cerca de US$ 20 milhões. Já uma tempestade de gelo no nordeste dos Estados Unidos e no Canadá provocou prejuízos estimados em US$ 2,5 bilhões.
Bangladesh também sofreu com enchentes que causaram danos superiores a US$ 3,4 bilhões.

- ENTENDA MAIS: El Niño-Oscilação Sul está ativo há cerca de 250 milhões de anos
Evento aumentou as temperaturas do planeta
O aumento das temperaturas globais em 1997 e 1998 fez daquele período o mais quente já registrado até 2016. Em alguns dos países mais afetados, a pobreza teria aumentado em até 15%.
Somente nos primeiros 11 meses de 1998, os prejuízos causados por desastres climáticos chegaram a US$ 89 bilhões. O valor superou todas as perdas provocadas por eventos climáticos durante toda a década de 1980. Segundo relatório do Worldwatch Institute, os danos econômicos totais chegaram a US$ 5,7 trilhões ao longo prazo.
Especialistas ainda afirmam que calcular o impacto total do El Niño é difícil porque os efeitos variam dependendo de fatores como infraestrutura, saneamento básico, tamanho da população e capacidade de resposta de cada país. Além das mortes e doenças, a destruição de estradas, pontes e serviços essenciais deixou consequências econômicas e sociais que duraram anos em várias regiões.
Possível retorno em 2026
Dados coletados em maio de 2026 mostraram que o nível do mar perto do Peru estava cerca de 15 centímetros acima da média histórica, sinal ligado ao aquecimento das águas do Pacífico. Além disso, pesquisadores identificaram em março uma onda de Kelvin, que é uma grande massa de água quente formada quando os ventos sobre o oceano enfraquecem ou mudam de direção.
Em comunicado, o pesquisador da NASA Josh Willis afirmou que “embora o evento deste ano tenha começado um pouco mais tarde do que os grandes El Niños de 2015 e 1997, ele está começando a alcançá-los. Vamos ver o tamanho que vai atingir”.

“Todo El Niño é diferente”, afirmou a pesquisadora da NASA Severine Fournier. “Mas quase sempre eles trazem um ano mais quente e grandes mudanças nas chuvas em várias partes do mundo”, complementa.
Organizações de meteorologia também apontam alta chance de retorno do El Niño até julho de 2026, embora ainda não exista confirmação sobre a intensidade do fenômeno. Os efeitos mais fortes costumam acontecer entre novembro e janeiro.
