Paul McCartney em foto para o disco ‘Boys of Dungeon Lane’
Divulgação
Título: “The Boys of Dungeon Lane”
Artista: Paul McCartney
Nota: 8,5/10
Aos 83 anos, Paul McCartney tem a fama de ser jovem de espírito: não mostra sinais de querer desacelerar e, até quando olha para o passado, faz questão de mostrar que está muito bem no presente.
Mas em seu 18º disco solo, intitulado “The Boys of Dungeon Lane” (nome de uma rua da região onde ele e George Harrison cresceram), ele está especialmente nostálgico.
“Olhando para trás, para as memórias em preto e branco do meu passado / Bares cheios de fumaça e guitarras baratas / Mas nada dura para sempre (…) / Ninguém pode apagar / Os dias que nós deixamos para trás”, canta na delicada “Days we Left Behind”.
Talvez tenha sido a revisita às gravações antigas de seus companheiros John e George, para finalmente lançar a bela “Now and Then” em 2023. Ou porque o músico anda envolvido com as cinebiografias de Sam Mendes, previstas para 2028.
‘A música dos Beatles parece continuar para sempre’, diz Ringo Starr
O fato é que, desta vez, Paul está olhando no retrovisor, mas não para a época que você imaginaria. Ele não tem interesse em revisitar o Beatle consolidado, nem o músico famoso e pai de família; mas aquele garoto pobre, de infância difícil, que não fazia ideia do que vinha pela frente.
Histórias que não foram tão escrutinadas publicamente quanto o resto da vida dele e, por isso, só Paul poderia contar. E é isso que torna esse disco, o primeiro dele em 6 anos, tão interessante.
Divertido em alguns momentos, jovial (para o bem e para o mal) e introspectivo em outros, “The Boys of Dungeon Lane” é um passeio solitário pela estrada da memória. Nesse caminho, Paul está onde sempre preferiu, isto é, em todos os lugares: faz as vezes de cantor, baixista, guitarrista, pianista, percussionista e o que mais lhe couber.
O único feat é, claro, Ringo Starr, em “Home to Us” (curiosamente, o único Beatle que Paul não conhecia na época que revisita aqui).
Capa de ‘The Boys of Dungeon Lane’, de Paul McCartney (2026)
Reprodução
Neste álbum, quando Paul olha para trás com evidente sensibilidade, acaba sendo um presente para qualquer fã. O disco começa enérgico e nem tão inspirado, mas aos poucos, mergulha fundo nas memórias do músico… e chega em algumas de suas canções mais belas e criativas deste século.
O álbum não é só nostálgico em tema, como em ambientação: ao longo das faixas, Paul tenta recriar a paisagem sonora com a qual ele cresceu. Se em outros discos ele quis mostrar que estava a par do tempo, agora, só quer levar o ouvinte à época dele — e explora, do cravo ao violão, os sons que o rodeavam nos anos 50.
Em faixas como “Down South”, os recursos de gravação também soam propositalmente crus. A voz de Paul, mesmo que frágil, mostra as marcas do tempo. E soa muito mais emocionante que quando está ultraprocessada (até porque esse recurso não combina muito com o tema do disco).
Um destaque é “Salesman Saint”, em que o músico relembra sua história em uma base acústica, para resvalar no jazz que tocava em sua casa na época. Como se alguém tivesse ligado o rádio enquanto ele toca violão.
Já na melancólica “Momma Gets By”, estão o piano e a orquestração de quem um dia compôs “Long and Winding Road”. A letra é de partir o coração, acompanhada de um vocal quase infantil: “Mamãe se vira enquanto papai se embriaga (…) Ela o ama com todo o coração e alma”.
Em “The Boys of Dungeon Lane”, quem é fã de Paul McCartney vai achar um pedaço para chamar de seu. Tem um pouco do roqueiro do Wings, um pouco da psicodelia dos Beatles… e as melodias doces que sempre acompanharam o nome McCartney.
É um disco nostálgico e vulnerável — muito mais que os antecessores “McCartney III”, “Egypt Station” e “New”. Aqui, Paul admite (mais do que de costume) que envelhecer não é fácil nem para ele, mas que nunca deixará de ser um otimista.
O disco não é seu trabalho mais inovador, nem deve entrar para sua lista de obras-primas, mas esse mal parece ser o objetivo. Paul só quer revisitar o garoto que um dia ele já foi e dizer: pode estar difícil aí, mas você tem uma bela vida pela frente.
Arte/g1
