Não mexa com meus meninos

Lula não gostou da classificação americana às facções criminosas brasileirasReprodução: Ricardo Stuckert / PR

No dia 28 de maio, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) passaram a ser considerados, pelos Estados Unidos, “organizações terroristas estrangeiras”. Essa medida coloca os holofotes internacionais sobre as duas maiores organizações criminosas do Brasil, contra as quais a sociedade brasileira carece de proteção há décadas.

Paradoxalmente, o governo brasileiro não viu esse evento com bons olhos: a reação do governo Lula, e também de sua rede de apoiadores, foi fortemente contrária à determinação. Contra ela, apresentou argumentos que não resistem a uma análise aprofundada. Um deles se destaca: o temor à interferência americana no país, nos moldes da ocorrida na Venezuela.

O povo brasileiro sofre com essas facções há mais de 40 anos. Elas dominam hoje vastos territórios que já não se restringem ao Rio de Janeiro ou São Paulo — os grupos estão espalhados por todos os estados do país. Constituem um grave problema de segurança nacional, embora não sejam tratadas como tal. Seu crescimento e suas repercussões perpetuam-se sem solução.

Decisão esperada

Apesar da aparente surpresa de governantes e de uma parte da opinião pública brasileira, a decisão não pode ser considerada surpreendente, uma vez que a atual administração Trump vem investindo esforços no combate ao terror internacional — e, em 2026, com foco diferente. “Há poucas semanas, o governo americano divulgou sua Estratégia de Contraterrorismo, que deixa clara sua prioridade neste ano: combater os grupos do narcotráfico”, explicou Joseph Sacks, ex-diretor da divisão de Contraterrorismo da CIA.

Seu foco regional — nada surpreendente — é a América Latina.

Segundo o analista e escritor Alessandro Visacro, a Inteligência americana tem o PCC em seu radar há pelo menos uma década. “O grupo deixou de ser um problema da cidade de São Paulo para se tornar um problema estatal, depois sul-americano, e agora afeta também a África Ocidental e a Europa. Segundo dados do Ministério Público de São Paulo, há 1.545 membros do PCC atuando no exterior. Fomos negligentes ao longo das últimas décadas, e esse problema transbordou”, explica.

Atentado do PCC no Rio Grande do NorteReprodução

Visacro também ressalta a importância do aspecto geopolítico da decisão americana. “A América Latina é uma região de influência primária dos EUA, e seu principal objetivo na política regional é a estabilidade. Desde o fim da Guerra Fria, o principal elemento desestabilizador de nosso continente é a criminalidade de alta intensidade associada às redes de ilícitos transnacionais”, explica o analista, que cita outro dado alarmante: “Embora abrigue apenas 8% da população mundial, a América Latina é responsável por um terço dos homicídios no planeta.”

A nova classificação do CV e do PCC produz efeitos práticos relevantes. Ao enquadrá-los como organizações terroristas estrangeiras, Washington amplia sua capacidade de rastrear ativos, monitorar fluxos financeiros, impor sanções, bloquear operações de lavagem de dinheiro e aprofundar a cooperação internacional — inclusive e especialmente com as forças de segurança brasileiras — contra as redes que as sustentam. Em um momento em que o PCC opera em diversos continentes e o crime organizado brasileiro ultrapassou as fronteiras nacionais, essa dimensão se mostra tão importante quanto a repressão policial.

No momento em que o governo brasileiro compreender os benefícios deste novo enquadramento, o próximo passo será um esforço diplomático junto ao governo americano para o planejamento conjunto das próximas etapas.

Como definir o terrorismo

A confusão de muitos brasileiros diante da decisão americana decorre também do desconhecimento do real significado do terrorismo, que não tem uma única definição: cada país formula sua própria definição considerando a realidade política e de segurança local. Israel rotula o terrorismo de forma diferente da do Brasil; os Estados Unidos seguem uma definição diferente da do Paquistão, e assim por diante.

É também em função desse desconhecimento que a maioria dos brasileiros — políticos, juízes, promotores, governadores etc. — considera que não existe terrorismo no Brasil, pois associa a prática ao ataque em si: bombas explodindo, prédios destruídos e outras imagens semelhantes.

No entanto, a prática terrorista é composta por um ciclo que envolve, por exemplo, o levantamento de recursos financeiros, o transporte de armas e a lavagem de dinheiro. Essas atividades, que há décadas ocorrem em todo o território brasileiro, não são vistas no Brasil como parte do terrorismo.

Também é preciso notar que as facções criminosas brasileiras há muito tempo empregam métodos tradicionalmente associados ao terrorismo para controlar territórios e populações. Queima de ônibus, imposição de toques de recolher e ataques a comércios e prédios públicos são alguns exemplos.

A experiência israelense

Agora chega a hora de você, leitor, se perguntar: por que estou trazendo esse assunto para um espaço que trata apenas de temas do Oriente Médio?

Em primeiro lugar, porque talvez não haja um país tão satisfeito com a iniciativa quanto Israel, que luta de fato contra inimigos profundamente ligados a facções criminosas brasileiras, como o Hezbollah e o PCC.

Além disso, o sistema israelense de combate ao terrorismo está aplaudindo a iniciativa, pois entende que a melhor forma de sufocar uma organização terrorista até a morte (ou algo próximo disso) passa necessariamente pelo estrangulamento financeiro. E esse é, provavelmente, o ponto mais importante dessa resolução.

 

Adicionar aos favoritos o Link permanente.