
Para quem acompanha tudo à distância, a estratégia de Flávio Bolsonaro (PL) de viajar até os Estados Unidos e trazer na bagagem um acordo para classificar facções criminosas como terroristas cacifa o senador como grande candidato de oposição à Presidência.
Segurança pública é um dos itens mais citados pelos brasileiros entre os principais problemas do país. E combater o crime organizado é prioridade nessa agenda.
Para o candidato desafiante, é fácil colar no atual governo – qualquer governo – a pecha de mãos indigentes nessa questão. Mas ela é mais complexa do que o discurso sugere. Basta lembrar que as duas organizações atuam em estados governados por bolsonaristas – São Paulo, de Tarcísio de Freitas, e Rio, até outro dia sob o comando de Claudio Castro.
O problema é que classificar facções criminosas como terroristas não resolve o problema da segurança pública e ainda criam um outro. Basta ver o que sofre a população civil do Líbano quando uma potência militar lança bombas por lá sob o pretexto de atacar o Hezbollah.
Flávio não deve ter contado, em sua viagem aos Estados Unidos, das conexões de sua família com o crime organizado. Nem da família de milicianos empregada em seu gabinete na Alerj nem da aliança, no Rio, para eleger um suspeito de vazar investigações da polícia para um elo do Comando Vermelho no Legislativo fluminense. Nem do pedido de dinheiro a um banqueiro suspeito de lavar dinheiro para o crime organizado.
Dito isso, não é só o risco de intervenção indevida em negócios domésticos que preocupa com a ofensiva norte-americana por aqui. A decisão do governo Trump vai ainda provocar prejuízos econômicos a quem não tem nada com a conversa.
O anúncio, em si, já aumenta a régua do risco de se investir por aqui. Seguradoras, bancos e empresas em setores vulneráveis à infiltração do crime organizado, como a distribuição de combustíveis, já fazem a conta dos estragos.
O risco reputacional é outra paulada. O dano à imagem do ambiente de negócios brasileiro já está na agenda de negociações comerciais. Deve piorar à medida que as sanções sejam aplicadas por aqui (se a ideia for combater a circulação do dinheiro do crime, o próprio sistema Pix pode estar em risco).
Agora as empresas nacionais precisarão provar o tempo todo que desconhecem eventuais vínculos com facções criminosas. E terão de documentar rigidamente seus mecanismos de controle à lavagem de dinheiro.
Nem todos têm estrutura para isso.
Mas Flávio jura que será recebido por aqui como o heroi sem capa que pede dinheiro para bandido num dia e combate o crime em outro. Torcido e retorcido, ele não pensou duas vezes antes de prejudicar o país e mostrar que tem costas largas para virar a página do Bolsomaster e tirar o pai da cadeia – tudo isso enquanto jura de pé junto que se preocupa com a segurança nacional. Tem quem acredite.
