Na ‘guerra’ de Trump contra o Brasil, sobrou para quem usa o Pix

O presidente dos EUA, Donald TrumpReprodução/ Instagram

Flávio Bolsonaro voltou dos Estados Unidos com uma bagagem extraviada. Ao desembarcar, declarou ter trazido de lá um acordo de combate ao crime organizado.

Era uma declaração falsa. Ao classificar as facções criminosas Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital, uma ameaça à segurança pública, como terroristas, uma ameaça a governos estrangeiros, Donald Trump mirou no que vemos e acertou no que não vemos. A não ser que resolva enviar tropas e drones para áreas onde esses grupos atuam, o que é improvável, os alvos, até agora, são apenas os conterrâneos que “abrigam” essas facções: governos, sim, mas também instituições financeiras por onde o dinheiro do crime circula. É como destruir uma estrada sob o argumento de que ela é rota de fuga para assaltantes.

O selo de combate ao terror era a faca (a caneta) e o queijo (o discurso moral) para bombardear no Brasil o que de fato importa aos interesses norte-americanos. Spoiler: não tem nada a ver com o crime, e sim com os negócios.

Na segunda-feira (1º), a Casa Branca colocou a adaga no pescoço do Brasil e sugeriu a imposição de novas tarifas contra produtos brasileiros de 25%. A justificativa é que o comércio entre os dois países é injusto a favor dos brasileiros. Balela.

Um dos alvos é o Pix, sistema de pagamento que os Estados Unidos nem disfarçam as razões da implicância. O sistema, segundo eles, “tem prejudicado injustamente empresas americanas que atuam em serviços de pagamento eletrônico concorrentes, inclusive por meio de políticas que favorecem sua principal empresa nacional”.

Os EUA também atacam as tarifas preferenciais “injustas” instituídas em acordos com países como México e Índia e medidas supostamente protecionistas do governo ao etanol brasileiro. Trump quer que o Brasil pare de produzir combustível por meio da cana para exportar o produto made in USA à base de milho.

A Casa Branca também finge se preocupar com a corrupção em um país que “não toma medidas suficientes para combater o suborno”. Se essa fosse uma preocupação real, o último brasileiro que quis visitar Trump sequer pisaria na Casa Branca.

A paulada em cima da economia brasileira – que vai sobrecarregar parte dos produtores locais e ainda ameaça tirar dos brasileiros um sistema de pagamento fácil, seguro e não taxado – pode não ter relação com a passagem de Flávio Bolsonaro por Washington, mas é essa a imagem que ficará associada a ele.

O senador foi lá, ajoelhou, pediu medidas contra o crime, esqueceu de explicar que seus amigos estavam envolvidos com CV e PCC (além das milícias) até o pescoço, prometeu terceirizar o governo caso eleito e agora tem uma bomba tarifária para tirar do colo.

Mal começou a campanha e Flávio já entra para a história como o candidato que tem como cartão de visita expertise em conspiração e as digitais em uma medida que prejudica a população que pretende, ou pretendia, governar um dia.

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