O mês de maio de 2026 ficará marcado como um dos períodos mais difíceis para os investidores da bolsa brasileira nos últimos anos. Após renovar máximas históricas no início do segundo trimestre, o Ibovespa entrou em uma forte correção e encerrou maio acumulando queda superior a 7%, registrando seu pior desempenho mensal desde fevereiro de 2023 e uma das sequências negativas mais intensas das últimas décadas.
Para muitos investidores, o resultado trouxe de volta uma das expressões mais conhecidas de Wall Street: “Sell in May and Go Away”, uma estratégia sazonal que sugere reduzir exposição a ações durante os meses de maio a outubro, período que historicamente apresenta retornos mais fracos em diversos mercados globais.
Embora frequentemente tratada como uma superstição do mercado financeiro, a verdade é que a estatística chama atenção. Levantamentos históricos mostram que maio costuma ser um dos meses mais desafiadores para a bolsa brasileira. Desde o Plano Real, o Ibovespa registrou mais quedas do que altas no quinto mês do ano, apresentando um dos piores retornos médios do calendário.
Mas o que chamou atenção em 2026 foi a intensidade do movimento.
O índice acumulou sete semanas consecutivas de perdas, algo que não acontecia desde abril e maio de 2004. Segundo dados históricos da LSEG, trata-se de uma das maiores sequências negativas já registradas pelo mercado brasileiro desde o início da série moderna do Ibovespa.
O que aconteceu em maio de 2026?
Diferentemente de outros momentos de estresse que tiveram origem principalmente em problemas domésticos, a correção deste ano foi resultado de uma combinação rara de fatores globais e locais.
No cenário internacional, a escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã voltou a pressionar os mercados globais. O risco envolvendo o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o petróleo mundial, elevou a volatilidade das commodities energéticas e aumentou as preocupações com a inflação global.
Ao mesmo tempo, investidores passaram a direcionar recursos novamente para empresas de tecnologia nos Estados Unidos e para mercados asiáticos ligados ao setor de inteligência artificial. Enquanto o Nasdaq avançou mais de 8% em maio, parte relevante do fluxo estrangeiro deixou mercados emergentes, incluindo o Brasil.
Somente em maio, a saída líquida de capital estrangeiro da bolsa brasileira superou R$ 14 bilhões, pressionando ações de grande peso no índice, especialmente bancos e empresas ligadas a commodities.
Internamente, o mercado também precisou revisar expectativas para inflação e juros. O crescimento da economia acima do esperado, somado aos números ainda pressionados de inflação, aumentou as dúvidas sobre a velocidade dos próximos cortes da Selic. Em um ambiente de juros elevados por mais tempo, investidores tendem a reduzir posições em ativos de maior risco.
Outros “maios” que ficaram para a história
A fama negativa do mês não surgiu por acaso.
Em maio de 2017, o mercado brasileiro enfrentou o chamado “Joesley Day”, quando as delações da JBS provocaram uma das maiores quedas diárias da história recente da bolsa.
Já em maio de 2018, a greve dos caminhoneiros gerou forte paralisação da economia brasileira, elevando a percepção de risco e derrubando diversos ativos.
Durante a pandemia, em 2020, muitos investidores também temiam a repetição da chamada “maldição de maio”, embora naquele caso o mercado já tivesse antecipado boa parte do pessimismo nas fortes quedas registradas em março.
Agora, em 2026, o gatilho foi diferente. Não houve um evento isolado capaz de justificar sozinho a correção. O mercado passou por uma reprecificação mais ampla, refletindo juros globais elevados, guerra, mudança no fluxo internacional de capitais e revisões nas expectativas macroeconômicas.
O “Sell in May” funcionou?
Olhando apenas para os números, a resposta é sim. Quem reduziu exposição à bolsa brasileira no início de maio evitou uma das maiores correções dos últimos anos. Porém, a história mostra que a estratégia está longe de ser infalível.
Diversos dos melhores ciclos de valorização do mercado começaram justamente após períodos de forte pessimismo. Foi assim após a crise de 2008, após a recessão brasileira de 2015-2016 e também depois do choque provocado pela pandemia.
Por isso, talvez a principal lição de maio de 2026 não seja simplesmente vender e sair do mercado. O episódio reforça algo ainda mais importante: a necessidade de diversificação, gestão de risco e disciplina de longo prazo.
Afinal, enquanto o humor dos investidores muda rapidamente, os fundamentos das empresas continuam sendo o principal determinante da geração de valor ao longo do tempo.
E é justamente nos momentos em que o mercado parece mais pessimista que costumam surgir algumas das melhores oportunidades para os investidores pacientes.
*Coluna escrita por Marco Saravalle, mestre em Economia e Finanças pela FGV/EESP, CIO da MSX e diretor de Investimentos da Krivo Capital. Sócio e estrategista-chefe da MSX Invest, é analista certificado CNPI, empreendedor, comentarista, educador e palestrante, com mais de 25 anos de experiência no mercado financeiro e passagens por algumas das maiores instituições financeiras do país.
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