É rápido, eficiente e tem custo baixo. O Pix tem uma fórmula vencedora e é praticamente uma unanimidade no Brasil. Mas incomoda os Estados Unidos demais. E qual seria a razão? A resposta é simples: trata-se de um mecanismo que funciona sem precisar dos sistemas americanos de pagamento, que utilizam as famosas maquininhas e cobram tarifas significativas do comércio.
Apesar de ter sido inventado por uma autarquia do Estado, o Banco Central, o Pix obedece a uma lógica do mundo digitalizado moderno: eliminar intermediários. Do Uber ao Decolar, do Airbnb ao Spotify, essa é uma dinâmica que toma cada vez mais conta do mercado. O sistema criado pelo BC está na mesma categoria, eliminando o chamado sistema de quatro partes (ou four-party scheme, no inglês).
Quais são essas quatro partes? O emissor (banco, por exemplo), bandeira, adquirente (maquininha) e banco do lojista (há quem coloque o cliente nesta cadeia e elimine o lojista – mas essa é outra discussão). No caso do Pix, há apenas duas partes: o banco pagador e o banco recebedor. Não é à toa, portanto que o sistema seja bem mais barato e possa oferecer operações e compensação gratuitas.
O governo americano, neste debate, oferece um argumento interessante – o de que o Banco Central atua tanto como regulador quanto como proprietário e operador do Pix. Esse papel duplo, assim, criaria um conflito de interesses que beneficia injustamente o sistema nacional. As autoridades americanas também destacam a exigência de que grandes instituições financeiras usem o Pix, a obrigação de gratuidade do serviço para pessoas físicas e a imposição de que ele tenha destaque nos aplicativos bancários (medidas que, segundo Washington, prejudicam diretamente empresas americanas de serviços de pagamentos).
Se o modelo se espalhar para outros países emergentes — e já está sendo estudado por vários —, bilhões de dólares em taxas deixarão de circular pelo sistema financeiro dos EUA. Por isso, o governo americano quer combater o sistema brasileiro com retaliações comerciais.
Mas os EUA têm o FedNow, seu próprio sistema de pagamentos instantâneos público, criado pelo Federal Reserve em 2023. Pela mesma lógica que usam para criticar o PIX, o FedNow também seria um “conflito de interesses” de um regulador que é ao mesmo tempo operador. Mas isso, evidentemente, não é mencionado pelo relatório divulgado pelo USTR (United States Trade Representative, a agência americana de comércio exterior).
O relatório vai além da retórica comercial habitual. Entre os eixos de crítica, o documento mira igualmente no funcionamento do Judiciário brasileiro, questionando ordens judiciais que determinaram a remoção de conteúdos e a suspensão de perfis em redes sociais, além de criticar o sigilo imposto sobre algumas dessas decisões.
Essa queda de braço entre EUA e Brasil criou uma anomalia ideológica.
Criado no governo de Jair Bolsonaro, patrocinado pelo ex-presidente do órgão, Roberto Campos Neto (imagem), frequentemente criticado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Pix virou uma bandeira do PT. Lula se transformou em um defensor ferrenho do sistema de pagamentos E Flávio Bolsonaro é acusado pelo petismo de tramar contra algo que foi gerado na administração de seu pai. A política brasileira, definitivamente, tem reviravoltas que poderiam servir de roteiro para qualquer seriado de streaming ou produção de Hollywood.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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