Ser judeu. Ou ser judeu e sionista? Eis a questão!

Judaismo: uma das religiões monoteístas mais antigas do mundoReprodução

Sempre me senti judeu, ainda que, na infância, eu não tivesse plena consciência do significado profundo dessa condição.

 

Estudei em um tradicional colégio católico de São Paulo, onde as aulas de religião eram ministradas por um padre-professor. No início de cada aula, o ritual se repetia:

 

— Tem algum judeu na classe?

 

Eu levantava a mão.

Ele apontava para a porta.

E eu saía.

 

Curiosamente, aquilo nunca me pareceu exatamente uma punição. Eu atravessava os corredores do colégio e seguia para o Parque Trianon, onde jogava futebol com uma bolinha improvisada de papel amassado envolta em durex.

 

Nas semanas seguintes, porém, algo inesperado começou a acontecer: o número de “judeus” aumentava progressivamente. A cada aula de religião surgiam novos companheiros de futebol.

 

A bola rolava.

O time crescia.

E os “judeus” se multiplicavam misteriosamente.

 

Até que o padre percebeu que a situação estava fugindo ao seu controle.

 

Então, certa manhã, entrou na sala e declarou solenemente:

 

— Escutem bem: Jesus nasceu, viveu e morreu judeu. A partir de hoje, ninguém mais sai da sala.

 

E assim terminou, definitivamente, o futebol no parquinho.

 

Outra lembrança jamais saiu da minha memória.

 

Uma colega de classe, vizinha da minha carteira, disse-me um dia:

 

— Livio, falei para o meu pai que queria namorar com você, mas ele disse que não podia porque você é judeu.

 

Respondi sem grande emoção:

 

— Mas eu nem quero namorar você.

 

Ela rebateu imediatamente:

 

— Bem que dizem que judeu não presta.

 

A vida seguia.

 

Até que veio 1973 e a Guerra do Yom Kippur recolocou judeus e Israel no centro das tensões mundiais. Um colega me insultou por eu ser judeu. Brigamos durante o recreio.

 

Minha mãe soube do ocorrido e foi imediatamente à direção do colégio denunciar o antissemitismo.

 

Minha mãe… sobrevivente.

 

Ela e meu pai escaparam da perseguição antissemita na Romênia, governada pelo ditador Ion Antonescu e apoiada pela brutal Guarda de Ferro, uma das organizações mais violentamente antissemitas da Europa.

 

Casaram-se em 6 de janeiro de 1942, em uma cerimônia judaica asquenaze realizada em meio ao medo, à intolerância e ao risco constante da morte.

 

Foi um verdadeiro ato de coragem.

 

Depois de sobreviverem ao horror, decidiram reconstruir a vida no Brasil, este país extraordinário, plural e acolhedor, trazendo consigo traumas silenciosos e cicatrizes invisíveis.

 

Meus pais falavam pouco. Quase nada.

 

Mas eu e meus irmãos sentíamos o peso daquele silêncio.

 

Era um silêncio carregado de dor, de perdas irreparáveis e de memórias impossíveis de serem traduzidas em palavras.

 

Lembro-me de que, após a reclamação de minha mãe, o diretor do colégio entrou em minha sala de aula, pediu licença à professora e declarou diante de todos:

 

— Eu não aceito e jamais aceitarei atitudes antissemitas nesta escola. Estive em um campo de concentração na Europa. Vi o que aconteceu. E nunca permitirei que algo semelhante floresça aqui.

 

Talvez todas essas experiências tenham construído em mim uma espécie de armadura invisível.

 

A vida seguiu seu curso.

 

Construí amizades profundas com pessoas das mais diversas origens, culturas e religiões. Sempre enxerguei nisso uma das maiores riquezas da experiência humana.

 

Durante muitos anos, vi o sionismo com certa distância. Sentia-me profundamente judeu, mas também profundamente brasileiro. Minha identidade judaica era cultural, histórica e afetiva e não necessariamente política ou religiosa.

 

Nunca fui um homem particularmente religioso. Não frequentava sinagogas regularmente. Mas o judaísmo sempre esteve dentro de mim:

na forma de pensar,

de sentir,

de questionar,

de lembrar,

de resistir.

 

Sou um judeu cultural.

E tenho orgulho disso.

 

Então chegou o dia 7 de outubro de 2023.

 

O massacre brutal cometido por terroristas contra civis israelenses, crianças, mulheres, idosos, jovens e isso abalou-me profundamente. Chorei. Senti horror. Senti incredulidade.

 

Achei que o mundo reagiria com solidariedade diante daquela barbárie.

 

Mas vi crescer, em muitos lugares, uma assustadora onda de antissemitismo.

 

E foi então que comecei a compreender algo de maneira diferente.

 

Entendi que o sionismo não significa segregação.

Não significa supremacia.

Não significa rejeição ao outro.

 

Para mim, o sionismo passou a representar algo muito mais essencial :

o direito de existência do Estado judeu.

 

O direito de um povo perseguido durante séculos possuir um lugar seguro no mundo. Um lar histórico, cultural e civilizacional.

 

Hoje compreendo que não existe contradição alguma entre amar profundamente o Brasil e defender a existência de Israel.

 

Posso ser brasileiro.

Posso amar São Paulo, minha cidade.

Posso admirar a diversidade humana.

E ainda assim olhar para Israel como a pátria ancestral do meu povo.

 

Ser judeu, para mim, é carregar memória.

 

É transformar dor em consciência.

É recusar o preconceito como normalidade.

É defender a vida, a dignidade humana e o direito de existir.

 

Desejo paz para israelenses e palestinos.

Desejo paz para o Oriente Médio.

Desejo paz para o mundo.

 

Porque acredito que a humanidade somente terá futuro quando aprender, verdadeiramente, com as tragédias produzidas pelo ódio, pela intolerância e pela desumanização do outro.

 

Talvez o verdadeiro sentido de ser judeu esteja justamente nisso:

 

Continuar construindo vida onde tantas vezes tentaram plantar a morte.

 

Continuar ensinando nossos filhos a amar, mesmo depois de termos conhecido o ódio.

 

Continuar acreditando na dignidade humana, mesmo depois de tantos fracassos da própria humanidade.

 

E continuar caminhando.

 

Sempre.

 

Com memória.

Com coragem.

Com identidade.

E, acima de tudo, com esperança.

 

Porque podem atacar um povo.

Podem perseguir uma geração.

Podem tentar apagar uma cultura.

 

Mas jamais conseguirão destruir uma civilização construída sobre memória, conhecimento, resiliência e espírito.

 

Am Israel Chai.

 

Nós continuamos vivos.

E continuaremos existindo.

 

* Lívio Enescu é advogado e membro efetivo do grupo Judaísmo sem Partido

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