O Brasil corre o risco de repetir com as terras raras o mesmo erro cometido no passado com outras commodities: vender recursos estratégicos como produtos comuns, sem política de longo prazo e a preços que não refletem seu valor geopolítico. A avaliação é do professor de relações internacionais, Marcus Vinícius de Freitas, entrevistado pela BM&C News, que analisa o papel desses minerais críticos na disputa global por tecnologia, inteligência artificial e poder econômico.
Para o especialista, o país precisa tratar esses ativos como estratégicos, não apenas como mercadorias de exportação. A diferença pode definir se o Brasil preservará capacidade de negociação com Estados Unidos, China, Japão e União Europeia, ou se repetirá o padrão histórico de exportador de matéria-prima de baixo valor agregado.
Terras raras: o preço baixo hoje pode custar caro amanhã na mesa de negociação
Na avaliação do especialista a questão central não é apenas econômica, mas geopolítica. Terras raras são insumos essenciais para semicondutores, baterias de veículos elétricos, sistemas de defesa e infraestrutura de inteligência artificial.
“Quem controla esses minerais, controla camadas críticas da cadeia tecnológica global”, analisa.
O professor destaca que a China domina atualmente a maior parte da produção e do refino desses materiais. Essa concentração criou vulnerabilidades estratégicas para economias desenvolvidas, que agora buscam diversificar fontes de fornecimento.
“O Brasil surge como alternativa viável, mas precisa negociar em posição de força, não de urgência fiscal”, pontua.
A dificuldade de gestão estatal expõe o país a pressões externas
Segundo o especialista, o Brasil enfrenta um obstáculo interno relevante: a dificuldade histórica de manter políticas de Estado de longo prazo, especialmente quando envolvem gestão de ativos estratégicos.
“A fragilidade institucional e a tendência a ciclos curtos de planejamento deixam o país vulnerável a pressões comerciais de potências que operam com visão de décadas”, avalia.
Marcus Vinícius aponta que a ausência de coordenação entre política mineral, industrial e de defesa pode levar o país a negociar terras raras da mesma forma que negociou nióbio ou minério de ferro no passado: com foco em volume e receita imediata, sem considerar o valor estratégico de longo prazo.
“O risco é vender capacidade de barganha futura por liquidez presente”, resume.
Transformar minerais em vantagem competitiva exige visão de Estado, não de mercado spot
Para o professor, o desafio brasileiro é estruturar uma política que equilibre atração de capital, desenvolvimento de refino local e preservação de poder de negociação internacional. Isso exige tratar terras raras não como commodity, mas como ativo de segurança econômica e tecnológica.
Na leitura do especialista, o Brasil tem janela de oportunidade aberta pela reconfiguração das cadeias globais de suprimento. Mas o tempo não é ilimitado. Outros países também disputam essa posição, e a vantagem pode ser perdida se o país continuar operando sem estratégia coordenada.
“O problema não é o preço, é a previsibilidade”, conclui o especialista.
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